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'Ela é linda, mas não sabe': Por que a autoestima feminina assusta tanto?

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'Ela é linda, mas não sabe': Por que a autoestima feminina assusta tanto?

A discussão sobre representatividade feminina não é apenas sobre quem fica na frente das câmeras. Homens dominam os bastidores dos mercados artísticos há séculos, e consequentemente moldaram a maneira como mulheres são descritas em filmes, séries, músicas, livros, etc. A revista Vulture fez recentemente um apanhado de 50 personagens femininas e como ela são apresentadas em roteiros famosos escritos por homens, e o resultado é constrangedor. Além das descrições se apoiarem tremendamente nas características físicas das personagens, o que não acontece com os homens, o clichê que se repete quase que comicamente é o do "ela era linda, mas não sabia disso".

A premissa é de que a mocinha é atraente, porque isso é um pré-requisito básico para mulheres que protagonizam filmes, mas ela não SABE o quanto é atraente. Uma variação comum desse clichê é o da personagem que é muito bonita, mas tem algum "defeito" - ou pelo menos o que o autor considera um "defeito" - que faz com que ela não se sinta confiante. Esse defeito geralmente é uma característica muito irrelevante ou trivial, como usar óculos, se vestir com roupas largas, ter cabelos curtos ou ter sardas no rosto.

Essa prática é uma deturpação de um princípio da criação, conhecido como "efeito Cachinhos Dourados", em referência à história infantil. No conto, Cachinhos dourados entra na casa dos ursos e come a comida de cada um deles, mas uma está fria demais, a outra está quente demais, e a terceira está na medida certa. A lição aqui é que um autor não pode "exagerar" em determinadas características de sua história, nem para mais nem para menos, para que a trama não fique desequilibrada. O objetivo é encontrar o ponto certo.

A aplicação disso na descrição das personagens femininas, no entanto, é quase sempre "trapaceada". A personagem continua sendo linda, ou pelo menos "acima da média", e o que o autor usa como artifício de equilíbrio é dar uma autoestima baixa a ela. Assim ela continua agradando ao público masculino com sua beleza, mas torna-se mais "acessível". E esse clichê transcende a ficção. Muitos homens consideram a timidez, a modéstia e a falta de preocupação com a aparência, características positivas nas mulheres. Desde que ela seja bonita, claro, caso contrário é apenas considerada "descuidada".

Recentemente, a blogueira e ativista Feminista Jones decidiu que ia responder aos elogios masculinos apenas dizendo "obrigada, eu sei", e a reação dos homens foi de raiva e indignação. Alguns deles, que haviam acabado de dizer que ela era bonita, disseram que ela na verdade era feia e se esforçaram para ofendê-la gratuitamente. Tudo porque ela respondeu com confiança ao que eles consideram quase como um "favor". A reação esperada é que a mulher fique envergonhada e não se sinta digna daquele elogio, e agir de outra forma é inaceitável.

O fato da confiança feminina ser vista como uma característica indesejável é um reflexo do machismo na nossa sociedade. Essa ideia é tão presente que acabara internalizadas inclusive no comportamento feminino. Somos socializadas a responder a elogios como se não acreditássemos neles. Isso diz muito sobre como os homens nos enxergam e sobre como o sistema quer que nós nos enxerguemos. Crescendo num ambiente assim, não é de se admirar que muitas de nós tenhamos problemas com autoestima.