MULHERES

Igualdade de gênero em festivais não é apenas bem-vinda, mas necessária

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Igualdade de gênero em festivais não é apenas bem-vinda, mas necessária

A palavra "cotas" ganhou um sentido extremamente pejorativo no Brasil, mas políticas afirmativas de qualquer natureza têm seus haters em todo o planeta. E quando 46 festivais de música ao redor do mundo se comprometeram para que seus headlines, júris e suas comissões estejam compostos por, pelo menos, 50% de mulheres, rolou muita chiadeira. O principal argumento dos críticos é de que esses lugares nos holofotes devem ser "merecidos" por talento e habilidade, e não por gênero (como se reservar um lugar para mulheres fosse baixar a qualidade dos festivais). Só que esse argumento é conversa fiada.

Em primeiro lugar, o discurso meritocrático sugere que as bandas que se apresentam nos festivais hoje em dia estão ali única e exclusivamente por mérito, o que não é verdade. É claro que para se tornar um grande artista você precisa ter talento, mas também é preciso que o conjunto de forças que move a indústria fonográfica gire a seu favor. Para alguns artistas, existe uma série de fatores atuando contra, e no caso das mulheres, o sexismo institucional está entre eles.

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Esse é só um lado da história. Confira outro:

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Não se engane, não faltam mulheres talentosas na música, mas elas são, geralmente, o produto de consumo. E isso é muito importante. Mais de 70% dos grandes executivos da indústria da música são homens, mesmo que nos cargos mais baixos as mulheres formem mais de 50%, o que significa que homens estão tomando as grandes decisões. Isso contribui para que as artistas mulheres sejam mais vítimas de exploração, abuso e assédio sexual. Além da maneira sexista e objetificante como a imagem de algumas dessas mulheres é construída.

Culturalmente, somos ensinados a ver a arte feminina como inferior, como se fosse um sub-gênero. Existe a música, e existe a música de/para mulheres, assim como no cinema. E sim, existem artistas mulheres que têm muitos homens héteros entre seus fãs, mas essas são justamente as que se encaixam melhor no que é esperado de uma "garota legal", "sem frescuras". E isso se aplica a todos os aspectos que vão além da música em si. São mulheres que usam menos maquiagem, que não fazem coreografias, que se apresentam de um jeito "relaxado" ("chill"), e que se vestem de forma menos chamativa. O que não costuma ser um problema para artistas homens que se valem dos mesmos adereços.

O problema dos festivais é um grande reflexo disso. Cria-se para esses eventos uma aura descolada e masculina, herança de décadas atrás, mas a falta de mulheres no palco fica cada vez mais escandalosa com o aumento da discussão sobre representatividade. O próximo Coachella, o maior e mais famoso festival americano de música, tem somente uma mulher entre os "headlines": Beyoncé. E nenhuma mulher esteve entre os principais nomes do Glastonbury em 2017. A vontade do público não é uma desculpa, porque mulheres lotam turnês, arrebatam o público no mundo inteiro e têm alguns dos fãs mais fieis.

Não existe nenhum prejuízo artístico e financeiro em garantir a igualdade de gênero entre as performances, e isso tem o potencial de fazer com que a cena musical se torne um ambiente mais igualitário. Então, por que não?