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Natalie Portman derruba argumento de que o movimento anti-assédio seria 'puritano'

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Natalie Portman derruba argumento de que o movimento anti-assédio seria 'puritano'

Imagem: Reprodução/Youtube CNN

Desde que a revelação dos abusos de Harvey Weinstein derrubou um dos maiores magnatas do cinema, as coisas parecem realmente estar mudando. Dezenas de acusações vieram à tona, e muitas delas trouxeram consequências sérias para os algozes. Mas como era de se esperar, ainda existe uma grande resistência à mudança, porque o sistema de antes beneficiava muita gente poderosa. E um dos maiores argumentos que esse grupo de "críticos" usa é o de que as mulheres que encabeçam o movimento de mudança estão se tornando "puritanas". Em seu discurso durante a Marcha das Mulheres, e posteriormente em um texto no medium, a atriz Natalie Portman derrubou esses argumentos.

"O sistema atual é que é puritano. Talvez os homens possam dizer e fazer o que eles querem, mas mulheres não podem. O sistema atual inibe mulheres de expressar nossos desejos, vontades e necessidades, e de buscar o nosso prazer", disse a atriz, que lembrou também da sua própria experiência na industria do cinema, e do que ela passou no que chamou de "terrorismo sexual", quando, com 12 anos, estrelou o filme "O Profissional". "Eu estava muito empolgada quando, aos 13 anos, o filme foi lançado (...), e alegremente abri minha primeira carta de um fã, apenas para ler uma fantasia de estupro que um homem escreveu sobre mim", completou a atriz.

E não foi apenas a reação do público que chocou Natalie. A atriz conta que jornalistas falavam dos "peitinhos" dela em resenhas sobre o filme, e que a rádio local abriu uma contagem regressiva até ela fazer 18 anos, quando poderiam fazer sexo com ela legalmente. Todos esses ataques, direcionados a uma pré-adolescente, moldaram a vida e a carreira de Natalie, que passou a ter medo de expressar sua sexualidade nos anos seguintes.

"Eu entendi muito cedo, aos 13 anos, que se eu me expressasse sexualmente eu me sentiria insegura, e que homens se sentiriam no direito de me objetificar e de falar do meu corpo. Então eu mudei radicalmente meu comportamento. Recusei papéis que tinham até cenas de beijo, e falava disso frequentemente em entrevistas. Eu enfatizava o quanto eu gostava de estudar, e como eu era séria. Construí uma reputação de 'puritana' e nerd, na tentativa de manter meu corpo a salvo e ter minha voz ouvida".

O argumento da atriz é muito claro. O atual sistema só serve para inibir a sexualidade das mulheres, e isso traz uma perda imensurável em experiências de vida para todas nós. Muito cedo aprendemos que cabe a nós a responsabilidade de não sermos vítimas de assédio. Nos culpamos, nos reprimimos, nos privamos e nos escondemos na tentativa de sobrevivermos. E isso não é bom para ninguém.

A solução para essa situação é acabar com o atual clima de terrorismo sexual, do qual precisamos constantemente nos esconder e nos proteger. Enquanto homens agirem como predadores, não teremos escolha. E essa onda de denúncias é a nossa esperança de mudança. Estamos no começo de um longo caminho, que vai nos levar a um mundo com equidade de gêneros, no qual os homens vão tratar mulheres como seres humanos, e no qual nós, mulheres, vamos poder expressar nossa sexualidade livremente. E não tem nada de puritano nisso.