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Novela mostra sensibilidade ao retratar estupro marital

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Novela mostra sensibilidade ao retratar estupro marital

Imagem: Reprodução/Globo

As novelas são instrumentos poderosíssimos de disseminação de informação, e quando usadas de maneira positiva, podem provocar uma importante mudança social. O caso do transexual Ivan (Carol Duarte), de A Força do Querer, é um exemplo recente desse fenômeno. Escrita com sensibilidade, a trama ajudou a explicar pra muita gente o que é a transexualidade, humanizando o personagem. E a novela O Outro Lado do Paraíso, substituta de A Força do Querer, traz outro assunto que ainda é um tabu: o estupro marital.

Estupro marital é quando a violência sexual acontece dentro do relacionamento, ou seja, quando o parceiro obriga a parceira, por meio de violência ou ameaça, a praticar ou permitir que ele pratique com ela algum ato libidinoso. Na novela, a personagem Clara (Bianca Bin) se casa com Gael (Sérgio Guizé), e os dois partem para um noite de núpcias que deveria ser cheia de romance. Eles trocam carícias e abrem uma garrafa de champanhe, e tudo vai bem até que, depois de alguns goles, o comportamento de Gael muda completamente. Ele começa a ficar violento e rasga o vestido de Clara, enquanto ela diz que está assustada, luta e pede que ele pare. 

A novela mostra a cena com muita sensibilidade, sem tentar erotizar o ato de violência ou objetificar a vítima - infelizmente um prática comum na TV e no cinema. A câmera foca nos olhos de Clara, que tenta lutar até perceber que não consegue, e então ela olha para o vazio, resignada. A cena é intercalada com uma montagem da personagem mergulhada no mar, sendo levada pelas ondas em seu vestido de noiva, simbolizando a perda de controle sobre o próprio corpo.

Segundo dados da ONU, a cada 11 minutos uma mulher é agredida sexualmente no Brasil. Destas, 41% são estupradas pelos próprios companheiros, e acredita-se que apenas 10% dos casos são denunciados. A maioria das mulheres opta por sofrer em silêncio, pois a dificuldade em levar a denúncia adiante, a escrutinação da vítima e a impunidade são ainda piores quando o algoz é o marido. 

Dos 193 países reconhecidos hoje pela ONU, em apenas 52 deles o marido que estupra a esposa é punido. No Brasil, só em 2009, com a revisão da Lei 10.015, o estupro marital foi reconhecido como crime. Antes disso, obrigar a mulher a fazer sexo não passava de um direito legal do marido. E ainda hoje é uma crença entre boa parte da população que a mulher é obrigada a fazer sexo com o marido, e muitas dessas mulheres passam anos sem compreender que estão sendo vítimas de violência sexual.

No episódios seguintes ao estupro, Clara é agredida outras vezes pelo marido, que ao perceber que pode perdê-la, se desespera e pede perdão. Esse comportamento é o ciclo clássico do relacionamento abusivo, no qual o agressor explode, diz que se arrepende e fica carinhoso por um tempo até ter outro surto. E assim a violência vai escalando, podendo chegar ao homicídio. Amigos de Clara, ao perceberem suas marcas, insistem que ela denuncie Gael, mas ela, envergonhada, se recusa, o que também é muito comum na vida real. Tomara que a Globo continue tratando o tema com sensibilidade e mostre que existe uma saída para a violência doméstica.