COMPORTAMENTO

O problema não é o aplicativo de carona, o problema é ser mulher

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O problema não é o aplicativo de carona, o problema é ser mulher

(Imagem: Reprodução/Facebook)

Kelly Cristina Cadamuro era uma radiologista de 22 anos. Ela participava de um grupo de caronas no Whatsapp e ia levar um homem e uma mulher de São José do Rio Preto (SP) a Itapagipe (MG), mas na hora combinada só o homem apareceu. Kelly foi morta por ele. 

Diante da tragédia, fervilharam comentários na internet culpando a jovem:

O problema não é o aplicativo de carona, o problema é ser mulher
O problema não é o aplicativo de carona, o problema é ser mulher

A maioria das pessoas critica o fato de ela ter dado carona a um desconhecido ou de ter deixado um homem estranho entrar em seu carro. Esses questionamentos, que colocam na vítima a responsabilidade, são frutos do machismo, mas também são um tipo de mecanismo de defesa. É uma maneira de reafirmar que isso nunca aconteceria com você. "Eu não daria carona para um estranho, portanto, estou segura". 

O problema é que isso não é verdade.

Todas nós, mulheres, temos estratégias de defesa que aprendemos desde pequenas. Não andar na rua sozinha à noite, não falar com homens estranhos, sempre avisar pra alguém onde está indo, não beber demais etc. etc. etc. Mas nada disso resolve, porque o problema não é a nossa capacidade de nos proteger, o problema é que somos mulheres e somos objetificadas, menosprezadas e violentadas por homens. No Brasil, uma mulher é morta a cada duas horas e seis mulheres são estupradas por hora

“O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao assassinato”, diz o relatório da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Violência contra a Mulher.

É estatístico que homens são mais vítimas de assassinato do que mulheres, mas a grande maioria dos homens mortos são ligados ao tráfico de drogas e a outros crimes, enquanto a grande maioria dos assassinatos de mulheres são tipificados como "passionais". São crimes "motivados por paixão", muitas vezes cometidos por parceiros ou ex-parceiros, que não aceitam o fim de um relacionamento. Ou então são crimes oportunos, nos quais um homem enxerga na mulher a possibilidade de usá-la e descartá-la. 

Nunca saberemos por que Kelly não recusou a carona ao perceber que apenas o homem havia aparecido. Talvez ela tenha sentido segurança no fato de ele estar no mesmo grupo de Whatsapp que ela. Talvez, como muitas de nós, tenha sido ensinada a ser gentil e a engolir o desconforto. Talvez tenha ficado constrangida e culpada de deixar o sujeito no meio da rua, sem carona. Mas nada disso interessa. Kelly foi morta por ser mulher. Seu assassino já havia tentado pegar carona com outra participante do grupo. Se não fosse ela, seria outra. Se não fosse no grupo, seria de outro jeito.