MULHERES

Palavra 'vagina' assusta pais, que suspendem 'Diário de Anne Frank' em escola de Vitória

Author
Palavra 'vagina' assusta pais, que suspendem 'Diário de Anne Frank' em escola de Vitória

Em mais um episódio inacreditável de ignorância conservadora, um grupo de pais pressionou uma escola para banir a leitura da versão em quadrinhos do "Diário de Anne Frank". Mas não foi a brutalidade nazista ou a tragédia do holocausto que fez com que os pais quisessem proteger seus filhos da leitura de um clássico. Foi a palavra "vagina". Em um trecho do livro, a protagonista fala o nome do órgão feminino, o que aparentemente "traumatizou" os pré-adolescentes do sétimo ano, que têm entre 12 e 13 anos, da escola particular.

Palavra 'vagina' assusta pais, que suspendem 'Diário de Anne Frank' em escola de Vitória

Na narrativa a palavra nem foi usada para fazer referência ao um ser humano. Anne fica intrigada quando um amigo conta que seu gato estava gordo. Uma outra garota levanta a possibilidade do animal estar esperando filhotes. Ela e o colega vão investigar, quando Anne percebe que o gato, na verdade, era fêmea. "Ele não tem testículos", diz Anne. "Foram removidos, mas ele ainda tem o órgão sexual", responde o menino. "Por que você chama de órgão sexual? Essas coisas não têm nome?", replica Anne, que logo esclarece: "Vagina".

A revolta com o diálogo, perfeitamente apropriado e sem nenhuma conotação sexual, fica ainda mais absurda quando lembramos que o livro conta a história de uma menina judia que precisa se esconder do exército de Hitler. A história tem violência, discriminação, campos de concentração e morte, mas o que deixou os pais indignados foi a palavra "vagina". "A minha filha começou a falar do que estava acontecendo em sala de aula, de que as crianças estavam repercutindo o conteúdo do livro na sala. Ela contou que alguns meninos estavam fazendo chacota com as meninas, porque o livro fala do órgão genital feminino", disse um dos pais, que não quis ser identificado, à TV Gazeta.

O alvoroço em sala de aula não é de se estranhar, afinal, é comum que crianças de 12 e 13 anos demonstrem curiosidade sobre sexualidade, e achem engraçado fazer piadas mencionando órgão sexuais. Esse seria o momento ideal para ter uma conversa franca com os filhos, para esclarecer dúvidas e ensinar o que é apropriado ou não para se comentar na escola. Em vez disso, os pais se juntaram para pressionar a escola a banir o livro. Em nota, a direção do colégio disse que nem todos os pais desaprovaram o livro, mas que achou melhor suspender a leitura para as turmas do 7º ano por causa do desconforto que foi gerado.

Além de não fazer nenhum sentido suspender a leitura, porque as crianças já haviam lido o livro e já estavam discutindo o assunto, esse tipo de proibição apenas aguça a curiosidade e aumenta o tabu sobre sexualidade. Isso causa ansiedade e torna as crianças mais vulneráveis a abusos, já que não terão vocabulário ou liberdade para contar aos pais caso algum adulto aja de maneira inapropriada com elas. Em vez de procurarem informação segura e abrirem um diálogo saudável com os pais, as crianças vão entender que o assunto é proibido, e vão tirar suas dúvidas com colegas e na internet, o que contribui ainda mais para a desinformação e a vulnerabilidade delas.