MULHERES

Parem de perguntar para famosas se elas são feministas

Author
Imagem: Instagram
Imagem: Instagram

Existe um motivo pelo qual a maioria dos jornalistas perguntam para mulheres famosas se elas são feministas: polêmica. Em parte por desinformação, em parte por misoginia, o feminismo é um tema polarizado hoje em dia, e independentemente da resposta da celebridade, a entrevista vai repercutir e dar destaque ao veículo. Se diz que é feminista, a famosa é elogiada por outras feministas e criticada por anti-feministas, se ela diz que não é - e especialmente se ela demonstra ignorância sobre o assunto - o resultado é o oposto. É uma pergunta capciosa e, geralmente, só é feita para mulheres.

Eu trabalhei por anos em cobertura de cinema e jornalismo de celebridades, e sempre saía da redação com uma lista de perguntas obrigatórias, encomendadas pelos editores, para fazer para as mulheres famosas. Antes, essa lista de questões inconvenientes incluía "você pretende ter filhos", "como equilibra família e carreira", e "como anda a vida amorosa", mas em tempos de empoderamento feminino, "você se considera feminista", virou o carro chefe. Mas assim como as outras, essa pergunta é geralmente feita de maneira genérica e machista, tirando o foco das realizações profissionais da mulher, que deveriam ser a razão de ser da entrevista.

Esse tipo de abordagem quase nunca gera discussões positivas. Pelo contrário. A exemplo do que aconteceu com Anitta recentemente, isso parece emburrecer as pessoas, em vez de trazer qualquer esclarecimento. Questionada em uma entrevista - não assinada - à agência AFP, a cantora disse que defende os direitos iguais: "Só acho que hoje em dia tem mudado um pouco essa questão: as pessoas estão achando que é colocar a mulher acima do homem e não é. Pra mim são os direitos iguais mesmo", diz o texto, que pode ser interpretado de diversas maneiras, inclusive como uma tentativa frágil de esclarecer ao público o que é (e o que não é) o feminismo. Mas a frase foi distorcida, e foi parar no título do Estadão (que veiculou a entrevista da AFP) como "Anitta evita rótulo de feminista".

Bastou isso para que a internet espiralasse em uma discussão rasa como um pires, sobre a cantora ter sido "cancelada", e sobre como feministas deveriam boicotá-la. Isso porque em janeiro deste ano Anitta disse que era feminista sim! O que o jornalista da AFP que entrevistou Anitta poderia ter descoberto em 15 segundos no Google. E na época a cantora foi duramente criticada por uma parcela do seu público, que por ignorância pensa que feminismo é algum tipo de agenda de supremacia feminina. Depois de ser atacada no Twitter por um monte de gente tentando explicar pra ela que feminismo era uma coisa horrível, não é de se espantar que Anitta tenha um cuidado redobrado com as palavras, e consequentemente que tropece nelas.

Quando um jornalista entrevista um famoso, ele geralmente tem apenas alguns minutos para fazer dezenas de perguntas. E o entrevistado também tem apenas alguns minutos para respondê-las. Coloque assuntos polêmicos e complexos na mistura e o resultado é quase sempre uma declaração comprometedora, que via de regra vai acabar no título da matéria, totalmente fora de contexto. Por esse motivo, artistas são aconselhados por seus agentes e suas equipes de PR a não se envolverem em temas polarizados, porque isso pode repercutir negativamente em suas carreiras. Só que para as mulheres famosas isso parece ser muito mais difícil.

Fazer declarações políticas e levantar bandeiras tem um preço, que para artistas mulheres tende a ser mais alto. Quando uma pessoa pública tem coragem de se expor, correndo esse risco, ela merece os créditos. Porque ninguém é obrigado a se posicionar politicamente. E quando falamos de temas como feminismo, assédio sexual e diferença salarial entre gêneros, os veículos de comunicação tendem a pressionar apenas as mulheres por declarações. Isso alimenta um ciclo machista que coloca as mulheres sempre em gelo fino no meio profissional.