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Parte do Brasil vive na idade média e tem orgulho disso

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Parte do Brasil vive na idade média e tem orgulho disso

Imagem: Wikicommons

A vinda da filósofa Judith Butler ao Brasil começou a gerar polêmica desde o anúncio de sua palestra no  Sesc Pompeia. Doutora em Filosofia por Yale, teórica do movimento Queer e um dos maiores nomes em filosofia, política e ética no mundo, Judith despertou a ira de setores conservadores e de fundamentalistas cristãos brasileiros simplesmente por tratar de um assunto: gênero. Grupos, supostamente ligados ao MBL,  chegaram a promover uma petição para tentar impedir a vinda da filósofa, mas sem sucesso. Judith falou para alunos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e para participantes do I Seminário Queer – Cultura e Subversões da Identidade, no Sesc Pompeia, mas não sem algum barulho.

Um pequeno grupo de manifestantes se reuniu na frente do Sesc, com uma boneca de pano com o rosto de Judith, usando um chapéu de bruxa, que foi incendiada aos gritos de "queimem a bruxa".O incidente causou o estranho fenômeno de termos a palavra "bruxa" estampada em manchetes de jornal em pleno ano de 2017. Mas por mais excêntrica que soe, a referência não tem a menor graça. A famosa caça às bruxas foi uma perseguição religiosa e social contra mulheres, que aconteceu entre os séculos XV e XVIII em partes da Europa e nos Estados Unidos. 

Acredita-se que mais de 35 mil mulheres tenham morrido. Em sua maioria, curandeiras, parteiras, mulheres com deficiências mentais, vítimas de estupro e qualquer mulher que desobedecesse alguma norma social. Muitas delas eram mulheres não brancas, imigrantes ou de ascendência africana, de origem romani (conhecidas como ciganas) e outras tantas. Mas o que unia todas essas mulheres era o fato de que elas não se adequavam, de alguma maneira, o que enfurecia os conservadores. E qualquer semelhança não é nenhuma coincidência.

Na época, as justificativas para queimar uma mulher variavam muito pouco. Acusações de bruxaria ou pacto com o demônio e o ímpeto de "proteger" a família tradicional e as crianças da influência maligna das "bruxas". Muito similar ao discurso genérico e sem nenhum embasamento usado pelos manifestantes. E o fato de eles literalmente queimarem uma "bruxa", trazendo por vontade própria para si a referência, é um sinal de que não se acanham em abraçar a ideologia medieval. O que é bizarro em diferentes níveis.

Parte do Brasil vive na idade média e tem orgulho disso

Foto: Helô D'Angelo

A propaganda contra Judith na internet tomou proporções ridículas. Desde pessoas acreditando que a filósofa propõe a eliminação da heterossexualidade e do gênero, a pessoas acreditando que o objetivo da doutora é "corromper as nossas crianças", por mais vazio e absurdo que isso soe. Até um vídeo no qual uma professora supostamente estaria obrigando um aluno a passar batom foi usado na campanha, quando na verdade era o caso de uma escola que foi condenada na justiça por obrigar alunos a tomarem cápsulas de Ômega 3. Não havia nenhum batom, mas apenas a possibilidade foi o suficiente para enfurecer muita gente.

Os organizadores do movimento contra a presença da filósofa contam com a ignorância e com a raiva de seus seguidores. Eles se alicerçam no fato de que poucas (ou mesmo nenhuma) daquelas pessoas pesquisaram ou tentaram compreender o trabalho de Judith, que nem veio ao Brasil falar de gênero e muito menos propor alguma ação escolar. E essa raiva generalizada, motivada por um medo irracional, é o que está levando a agenda conservadora adiante no Brasil. A mídia e as redes sociais têm um papel fundamental nisso. 

A queima da "bruxa" não foi por acaso. Quem esteve no protesto relatou que os manifestantes contra a palestrante eram poucos, e que os que se manifestavam a favor dela superavam em muito o número deles. Mas as homes de todos os sites de notícias estão destacando a imagem forte que eles estrategicamente proporcionaram, dando a impressão que o grupo é muito mais forte e relevante do que realmente é e contribuindo para uma atmosfera polarizada e de medo. Não podemos cair nessa.