MULHERES

Por que atiradores em massa são sempre homens?

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Imagem: Divulgação/BROWARD COUNTY SHERIFF
Imagem: Divulgação/BROWARD COUNTY SHERIFF

Atiradores em massa, como Nicolas Cruz, que matou 17 pessoas na Flórida na última semana, costumam ter perfis diferentes, mas sempre com uma particularidade em comum. Não é religião, problemas mentais ou gosto por videogames violentos. O que une praticamente todos os atiradores em um massa é o gênero masculino. A maioria esmagadora, mais de 98,9% deles, é de homens. E não se pode afirmar com certeza absoluta os motivos pelos quais mulheres não pegam metralhadoras e saem atirando em pessoas, mas especialistas têm algumas explicações.

"Pesquisas mostram que homens têm uma tendência maior do que mulheres a desenvolver atribuições de culpa que são externas a eles. Pensam: 'a causa dos meus problemas é outra pessoa, ou uma força que está além de mim'. E isso se transforma em raiva e hostilidade", contou Candice Batton, diretora da faculdade de criminologia e Justiça Criminal de Nebraska, em uma entrevista à revista Time. "Mulheres, no entanto, têm uma tendência maior a desenvolver atributos negativos de culpa de natureza interna. 'A causa dos meus problemas é uma falha minha, eu não me esforcei o suficiente, não sou boa o suficiente', pensam elas", completou a criminologista.

Essa atribuição de culpa ao outro faz com que os homens desenvolvam um senso de vingança, e isso é muito comum em atiradores, que frequentemente são homens solitários, que odeiam mulheres por não se interessarem por eles. Foi o caso de Cruz, e também de Elliot Rodger, que em 2014 matou seis pessoas e deixou 13 feridas. Antes do atentado, Rodger fez um vídeo dizendo que as mulheres eram todas burras por não enxergarem o quanto ele era um bom homem, e jurou que assassinaria todas as garotas que o rejeitaram.

Em uma entrevista ao site Voice of America, o psicólogo forense J. Reid Meloy explica que existem três traços em comum entre a maioria dos atiradores: "Um deles é ter sofrido alguma perda, o outro é o sentimento de humilhação, e o terceiro é o ódio em relação a uma pessoa ou grupo, que ele acredita ser a causa destes problemas". Essa cadeia de sentimentos, combinada à inabilidade de lidar com eles é fatal.

Todas essas características derivam da masculinidade tóxica, uma das graves consequências do machismo estrutural na sociedade. A cultura da masculinidade tóxica ensina que meninos devem ser durões, que devem proteger seu território e que nunca podem chorar ou demonstrar sentimentos. Essa crença, que é ensinada e reproduzida em filmes e videogames, é diretamente atrelada às expectativas que os homens têm do mundo. "Homens brancos são socializados a acreditar que eles são o grupo dominante na sociedade, e por isso têm as maiores expectativas sobre seu próprio sucesso. Eles também são menos capazes de lidar com a própria perda quando falham e atingir esse sucesso", disse Eric Madfis, professor da University of Washington e um dos maiores especialistas em atiradores em massa dos EUA.

Tudo isso, associado ao fato de que nos Estados Unidos é extremamente fácil comprar armas como metralhadoras automáticas, que em muitos estados são vendidas em supermercados, resulta em um número cada vez maior de assassinatos em massa. Esses fatores também contribuem com o fato de que 75% das pessoas que cometem suicídio são homens.

Papéis de gênero não são prejudiciais apenas às mulheres, e no fim das contas a imposição deles tem consequências gravíssimas. Está na hora de repensarmos a maneira como estamos criando nossos filhos, e de permitirmos que meninos lidem com sentimento de perda e frustração sem violência ou agressividade, abrindo canais para que eles conversem sobre o que sentem e tenham a capacidade de admitir erros e pedir ajuda.