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Sim, o que a Katy Perry fez foi assédio

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Sim, o que a Katy Perry fez foi assédio

Depois de lançar o álbum "Witness", que causou controvérsia e ficou aquém do esperado em vendas e crítica, Katy Perry está participando do reality show American Idol como jurada. Ainda insistindo no rebranding recente, a cantora está constantemente tentando ser engraçadinha, e isso inclui ficar paquerando os participantes do programa. Porém, na última semana Katy passou dos limites e "roubou" um beijo de um dos concorrentes.

Bejnamin Glaze, que tem 19 anos, havia acabado de dizer que nunca tinha tido um relacionamento e nunca havia beijado ninguém. Ouvindo isso, Katy o pede para chegar mais perto, insinuando que iria beijá-lo. Claramente constrangido, ele responde: "não, espera". Os outros jurados insistem e o rapaz pergunta: "pode ser na bochecha?". A cantora diz que sim, ele então a beija na bochecha, mas ela reclama que não havia "nem feito barulho", e pede outro. Quando Bejnamin se aproxima novamente ela vira o rosto e o beija na boca. Ela e os jurados comemoram. "Peguei ele", diz Katy. "Ele caiu direitinho", completa Lionel Richie.

Depois do beijo, Benjamin continua constrangido e pede água, dizendo que não estava esperando ser beijado. Em entrevistas, o aspirante a cantor afirmou que a edição o fez parecer uma pessoa diferente do que é, e apesar de não estar ressentido com Katy, ele confirma não havia dado seu consentimento, e que se sentiu desconfortável: "Eu queria que meu primeiro beijo fosse especial, e não com uma desconhecida".

Se no lugar de Katy estivesse um artista famoso de 33 anos, e no lugar de Benjamin uma adolescente aspirante a cantora, as pessoas não estariam tão divididas sobre o que aconteceu ali. Isso porque vivemos em uma sociedade machista, que ensina que homens precisam ser "pegadores", e se aproveitar de qualquer oportunidade para desfrutar do corpo feminino. Isso está evidente na repercussão da notícia nas redes sociais, onde muita gente, principalmente homens, afirmam que Katy não fez nada de errado. "Se isso for assédio eu quero ser assediado", diz um tuiteiro, que parece ignorar o fato de que se você quer, não é mais assédio.

É claro que o assédio é um problema que atinge desproporcionalmente as mulheres, mas isso não faz com que seja "ok" assediar um homem. Principalmente um adolescente que está em uma posição hierarquicamente mais baixa. Não importa se o agressor ou a vítima são homem ou mulher, se não há consentimento, é assédio.

Katy está em uma posição literal de poder em relação à Benjamin. Além de famosa e influente, ela é jurada no programa e poderia decidir se Benjamin continuaria ou não na competição. Só isso já implica que qualquer tentativa de paquera, mesmo recíproca, seria inapropriada. E a maneira como Katy e os outros jurados agem, como se Benjamin fosse o rapaz mais sortudo do mundo por ter recebido um beijo da cantora, é exatamente a mesma mentalidade que atores e produtores famosos usam para encurralar suas vítimas.

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Claro que dentro do espectro do assédio existem diversos níveis de gravidade. Em temos de Harvey Weinstein, Kevin Spacey e Woody Allen, a conversa esteve muito recentemente em outro patamar. E de maneira nenhuma defendo que Katy Perry precise ser presa ou execrada socialmente. Tampouco acredito que ela seja uma predadora sexual. É inegável, no entanto, que aquilo foi um desrespeito com o corpo e a vontade de outra pessoa, e isso é a raiz dos problemas de má conduta sexual. Não é porque existem casos muito piores que devemos desconsiderar o que Katy fez.

Foi errado e foi assédio sim.