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As duas faces de Nelson Marchezan Jr.

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Nas redes sociais, uma imagem despojada. Nos bastidores, acusações de assédio moral - os relatos de quem trabalhou com o atual Prefeito de Porto Alegre

As duas faces de Nelson Marchezan Jr.

O Prefeito e seu vice, Gustavo Paim (PP). Fotografia: Joel Vargas/PMPA.

Desde o início da gestão Marchezan, em janeiro, debandaram da equipe de Governo 18 ocupantes de cargos estratégicos de primeiro e de segundo escalões. Oito alegaram oficialmente “razões pessoais” para saírem. Nos bastidores, entre os cargos de confiança do município (os CCs), assessores abrem mão de salários altos por conta das dificuldades de se conviver com o Prefeito, como relatam ex-colaboradores que preferiram não se identificar. Assédio moral, desrespeito, agressividade e cargas horárias abusivas estão entre os depoimentos de quem trabalhou diretamente com Nelson Marchezan. O suposto temperamento abusivo remeteria, inclusive, à época em que o atual Prefeito era deputado federal.

Nas redes sociais, apoio do MBL

A partir das eleições de 2016, o então candidato ao Paço Municipal pelo PSDB se aproximou do Movimento Brasil Livre (MBL). Paula Cassol Lima, coordenadora do grupo no estado, participou ativamente de sua campanha eleitoral, chegando a assumir cargo comissionado na prefeitura de fevereiro a julho, em 2017. Apesar do movimento não ter se envolvido oficialmente com a jornada à Prefeitura, de acordo com ex-assessores, seus membros teriam atuado ativamente em favor de Marchezan, administrando páginas e contribuindo com planejamentos. O objetivo seria a manutenção da imagem do Prefeito nas redes sociais e o ataque a adversários políticos.

As duas faces de Nelson Marchezan Jr.

Em junho, o Prefeito Nelson Marchezan Jr. concedeu, dentro da prefeitura, “entrevista exclusiva” a Arthur Moledo do Val, youtuber do canal “Mamãe, falei” e ativista do MBL, em junho de 2017. Reprodução: Youtube.

Arthur Moledo do Val, youtuber vinculado ao MBL, teria vindo a Porto Alegre, em 2016, financiado por pessoas físicas que organizavam a campanha do PSDB naquele ano. O plano seria produzir vídeos que atacassem o outro candidato, Sebastião Melo (PMDB). A intermediação teria sido realizada por Paula Cassol. Hoje, com a saída de diversos comissionados, o movimento teria passado a gozar de livre trânsito dentro da Prefeitura, assumindo o gerenciamento das redes sociais pessoais de Nelson Marchezan Júnior.

Se por parte de profissionais de carreira e assessores os relatos são de assédio moral e desrespeito, com os integrantes do movimento social o tratamento é afetuoso. Marchezan palestrou no 3º Congresso Nacional do MBL, em 11 de novembro. Ele foi ao evento acompanhado de Ramiro Rosário (PSDB), fundador do grupo no Rio Grande do Sul e seu secretário de Serviços Urbanos — departamento que ocupa, em seus cargos de comissão, diversos membros do movimento.

Na ocasião, em painel chamado “Gestões inovadoras das cidades”, dividindo espaço com João Dória, Bruno Araújo e Orlando Morando, todos do PSDB, Marchezan referiu-se a parlamentares como “cagões”. Os vereadores da Câmara de Porto Alegre responderam à declaração, compreendida como ofensa, com requerimento assinado por 17 dos 36 membros do legislativo municipal demandando explicações do Prefeito à Casa.

Sem diálogo com a Câmara

O vereador Cláudio Janta (SDD) foi líder do Governo até agosto, quando rompeu. A razão foi o decreto de Marchezan, emitido sem consulta aos vereadores, que acabaria com a segunda passagem gratuita nos ônibus do município. Janta respondeu com ação na Justiça e acabou afastado da função. “[Ele] é uma pessoa destemperada, sem diálogo e respeito com a Câmara, sempre usando termos chulos”, comentou o vereador. “Se há desrespeito conosco, imagino com seus colaboradores mais próximos”, completou.

As duas faces de Nelson Marchezan Jr.

Em votação pelo aumento do IPTU, 24 dos 36 vereadores votaram contra a proposta do Paço Municipal. “Ele não tem trânsito na Câmara”, disse Dr. Thiago Duarte. Fotografia: Josiele Silva/CMPA.

Sobre o suposto temperamento de Marchezan, o vereador Dr. Thiago Duarte (DEM), signatário do requerimento de explicações, afirmou: “Quando alguém tem problemas com muita gente, com a Câmara e vereadores, com a cidade e funcionários, o problema é a pessoa e não os outros”. Dr. Thiago demonstrou-se indignado com o que seria a atitude desdenhosa do Prefeito: “É uma postura que amplia a crise na cidade”.

A 14º baixa do alto escalão da equipe de governo, Maria de Fátima Paludo, ex-secretária de desenvolvimento social, afirmou que sua saída se deu porque a prefeitura “não andava”. Ela não teria autonomia para trabalhar frente às centralizações do Prefeito. A defensora pública, todavia, negou má relação. “Comigo ele sempre foi amoroso em termos de tratamento. Educado e de fino trato”, afirmou. Alexandre Bach, que renunciou após três semanas no cargo de diretor de jornalismo do gabinete, também negou conflitos.

Ambos depoimentos que contrastam com os de ex-assessores.

Nos bastidores, outro temperamento

“Ele leva as pessoas ao limite em um processo quase doentio”, afirmou ex-CC. Diversas vezes, após receber um texto, Marchezan o riscaria por inteiro e depois o atiraria longe, em frente a quem o escreveu. Em vários momentos, assessoras teriam sido vistas chorando após represálias, ofensas e ameaças de demissão. “Mandava as pessoas embora, como se fosse demitir, de forma humilhante, sabe? E depois fazia de conta que nada tinha acontecido”, relatam. Os abusos e assédios, contudo, ocorreriam sem distinção de gênero.

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“Grosseiro, estúpido, mal-educado, desumano (…) mas na frente dos eleitores, colegas e amigos, um lorde”, descreveu ex-colaborador. Fotografia: Ederson Nunes/CMPA.

Um servidor exonerou-se após curto período de tempo trabalhando com Nelson Marchezan Jr. diretamente. “Dizem que ele é exigente, mas falta de educação e agressividade não têm nada a ver com exigência”, comentou. O ex-chefe chegaria a tomar atitudes “implicantes e infantis” como errar ou trocar os nomes dos comandados de propósito.

Marchezan também teria o hábito de demandar por diversas vezes a mesma tarefa, solicitando repetidas alterações, sem explicá-las direito. Quando contrariado, partiria para o bate boca. “Cansei de apresentar o mesmo trabalho mais de uma vez por ele ter recusado de primeira por estar mal-humorado. Depois, da segunda vez, quando ele estava bem, era aprovado sem alteração”, relatou ex-colaborador. Exaustos, assessores teriam passado a gravar suas requisições para contrapô-lo.

Diversos dos comissionados que debandaram de seu gabinete são profissionais de carreira com experiência em assessoria. Apesar de acostumados com grandes exigências e jornadas longas, Marchezan passaria “de todos os limites”. “Não é ritmo acelerado: é desrespeito gigante”, disse ex-CC.

“Por acontecer todo dia, as pessoas se acostumavam”

As ordens e cobranças do Prefeito também se estenderiam às madrugadas dos finais de semana e feriados, e haveria quem fizesse jornadas de 12 a 15 horas acompanhando seus pedidos. “Ele passava o dia todo, 24 horas por dia, demandando coisas via WhatsApp. Cansei de sábado à noite me chamarem pra fazer algo mirabolante e trabalhar de madrugada ou domingo”, contou ex-assessor.

As duas faces de Nelson Marchezan Jr.

“Era um negócio de todo dia, sabe? (…) Era bizarro. Ninguém respirava quando ele tava no gabinete e soltavam fogos quando ele ia a Brasília”, disse um ex-colaborador do então deputado federal. Fotografia: Luciano Lanes/PMPA.

Segundo relatos, por ser inseguro, Marchezan, ao ser cobrado por algo, descontaria nos assessores as broncas, insultando-os e debochando. “Vocês não sabem o básico!”, seria uma das provocações comuns. “Ele abre a porta do gabinete enlouquecido e começa a gritar tipo o louco, não importa quem tá lá, quem não tá”, relatou ex-comissionado.

De tão frequentes, os supostos assédios morais se naturalizariam nos ambientes comandados por Marchezan. Os trabalhadores se veriam sem disposição e desvalorizados. “Eram constrangedoras as reuniões com ele. Todo mundo ia de cabeça baixa sabendo que ele ia cagar por cima independente do que tu tivesse feito”, relatam.

Seria hábito do Prefeito marcar muitas dessas reuniões.

Assunto ainda é tabu

Alguns ex-colaboradores de Marchezan contatados negaram más relações com o Prefeito, contudo, evitaram responder maiores questões sobre o assunto.

Já o vereador Ricardo Gomes (PP), que deixou o cargo de secretário de desenvolvimento econômico após discordância sobre aumento do IPTU, afirmou: “A cidade tem problemas demais e temos passado muito tempo falando do temperamento do Prefeito”.

O MBL-RS concordou em prestar esclarecimentos, contudo, houve protelamento.

Contatada, a assessoria de imprensa do gabinete do Prefeito não deu retorno às solicitações de esclarecimentos.