ELEIÇÕES 2018

Boulos, Freixo, Manuela e o risco de rachar a esquerda em 2018

Author

Três nomes, uma corrida presidencial e o problema do discurso de esquerda para as eleições deste ano.

Boulos, Freixo, Manuela e o risco de rachar a esquerda em 2018

(Foto: Agência Brasil/Mídia Ninja)

A esquerda brasileira começou com problemas maiores do que o próprio julgamento de Luiz Inácio Lula da Silva. Enquanto Ciro Gomes tenta se descolar do lulismo, nomes menores flertaram com um purismo ideológico que gerou discussões interessantes.

O deputado estadual Marcelo Freixo do PSOL deu uma entrevista à jornalista Anna Virginia Ballousier da Folha de S.Paulo no dia 29 de dezembro de 2017. No material da publicação, o político afirmou que não sabia se era o momento de "unificar a esquerda". Freixo também afirmou que a pré-candidatura do líder do MTST, Guilherme Boulos, foi ideia dele entre os psolistas.

Disse Freixo sobre a liderança dos sem-teto em São Paulo: "Estava em casa, tomando um café com minha companheira, a Antônia [Pellegrino]. Conversávamos sobre o que é esta esquerda do século 21. Os olhos dela são meio que termômetro. Falei do Boulos, e arregalaram. Pensei: 'Opa, ali tem caldo'. Fiz testes com minha equipe, e as reações eram as mesmas. Aí liguei pro Boulos e marquei num botequinho bem "vagaba" perto da av. Paulista. Quando sugeri, ele quase caiu da cadeira de susto. Hoje falta muito pouco para consolidar a candidatura. Março é o prazo".

A entrevista deu uma repercussão negativa em pouquíssimo tempo logo no começo de 2018. Freixo meio que reivindicou a "paternidade" da "campanha Boulos", ignorando os interesses do próprio MTST e desagradou a ala da esquerda alinhada com o PT e com Lula.

Jean Wyllys e Gilberto Maringoni, quadros importantes do PSOL, reclamaram do deputado do Rio de Janeiro. Para ambos, o julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa unir a esquerda contra uma judicialização que protege apenas a direita política. Enquanto se ventila uma condenação e impugnação da campanha lulista, nada se faz com Aécio Temer, Michel Temer e diversos nomes enrolados na Operação Lava Jato. Freixo se retratou em um vídeo divulgado na internet.

Disse que "a esquerda não unificada nunca foi um desejo pessoal" dele.

Guilherme Boulos deu uma entrevista ao repórter Rodrigo Martins da revista Carta Capital falando que o maior erro de parte da esquerda é embarcar na onda anti-Lula. A opinião publicada na Carta na entrevista de dia 6 de janeiro de 2018 refletiu o incômodo dos bastidores do PSOL retratado pela coluna Painel da Folha.

A crise Boulos-Freixo não inibiu outros setores da esquerda. O ex-chanceler Celso Amorim lançou o manifesto "Eleição Sem Lula é Fraude", que já chegou em mais de 150 mil assinaturas. Nomes internacionais como Noam Chomsky apoiaram a causa, mas o pré-candidato Ciro Gomes do PDT pulou fora do barco dando uma de Macron à esquerda, como relatamos numa coluna anterior aqui no Storia Brasil.

Manuela D'Ávila do PCdoB optou por um caminho mais moderado. Ela assinou o manifesto de Celso Amorim, mas negou em entrevista que seria vice de Lula ou que comporia chapa com o PT na corrida de 2018. Ela apoia o petista, mas insiste num caminho independente - enquanto Boulos em pouco tempo se alinhou ao lulismo.

No entanto, numa reportagem de Denis Rothenburg do jornal Correio Braziliense, o presidente do PDT Carlos Lupi aparece apontando uma possibilidade diferente para Manuela. O líder da legenda quer Manuela como vice de Ciro Gomes.

Manuela D'Ávila e Ciro oscilam entre 1% e 3% segundo os institutos de pesquisa com Lula na corrida de 2018. Caso o ex-presidente seja preso ou impedido de concorrer, Ciro Gomes salta para 7%. Manuela pode ajudá-lo a chegar em 10% ideais para se tornar competitivo nas eleições.

A esquerda teme se rachar, porque a direita, embora fragmentada, tem candidatos entre 10% e 17% das intenções de voto. Apenas Lula chegou no patamar de 35% segundo o Datafolha. Ele é um nome forte, mas muito visado publicamente.

Manuela, Ciro e Freixo sabem da importância de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas estão tentados a se lançarem de forma particular, sendo que Marcelo Freixo se considera o responsável por colocar Guilherme Boulos na corrida.