ELEIÇÕES 2018

Ciro Gomes quer ser "Macron" ao tentar deixar Lula na praia

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Homem do PDT parece não querer apenas votos da esquerda tradicional brasileira. A estratégia de Ciro, certa ou errada, parece querer reformar o tão desejado "centro".

Ciro Gomes quer ser "Macron" ao tentar deixar Lula na praia

(Foto: Divulgação/Facebook)

A direita diz que está buscando o "seu Macron", mas é um erro pensar que pré-candidatos de esquerda não estejam atrás do mesmo objetivo. Num Brasil polarizado, infelizmente Luiz Inácio Lula da Silva é tratado de alguma maneira como um extremista. Com a visão geral deturpada, a corrida oscila entre se aproximar e se distanciar do petista.

Ciro Ferreira Gomes disse em 2016, para o site Diário do Centro do Mundo, que Lula deveria ser sequestrado por aliados e levado a uma embaixada caso fosse "preso injustamente" pela Operação Lava Jato.  Se aquele Ciro parecia companheiro da esquerda lulista, o pré-candidato de agora tomou uma postura completamente distinta às vésperas do julgamento do ex-presidente no dia 24 de janeiro em Porto Alegre.

O pré-candidato do PDT se recusou a assinar o manifesto "Eleição Sem Lula é Fraude", idealizado pelo ex-chanceler Celso Amorim e com apoio de políticos, artistas e celebridades. Noam Chomsky, Manuela D'Ávila, Wagner Moura, Guilherme Boulos estavam entre os que apoiaram o ex-presidente no abaixo-assinado virtual. Ciro não.

Esta talvez seja a manobra definitiva para o desembarque de Ciro Gomes do lulismo. Ex-tucano, ele foi um dos formalizadores do Plano Real e rompeu com o PSDB quando descobriu as ambições cesarinas de Fernando Henrique Cardoso na presidência. FHC basicamente tinha chutado Tasso Jereissati, seu aliado do Ceará, da corrida presidencial nos anos 90.

Ciro apoiou Lula com tudo. Foi seu Ministro da Integração Nacional e pretendia ser o sucessor. Em 2010 foi trocado pela novata Dilma Rousseff. Contrariado, apoiou a ex-presidente até o impeachment. Mesmo companheiro de Lula, criticou Michel Temer e Eduardo Cunha, chamando o último de bandido na tribuna e em dezenas de entrevistas.

Ele está certo ao se distanciar das corrupções das eras petistas. Mas será que este foi o melhor movimento de Ciro Gomes? Isso se explica muito mais no panorama global e nacional.

A eleição de Emmanuel Macron na França foi, de uma certa maneira, uma antítese do extremismo de Donald Trump nos Estados Unidos. Liberal por natureza e de direita, Macron consegue disfarçar sua defesa do capitalismo defendendo pautas ecológicas mais sociais. Desta forma, quem não apoia Bolsonaro pela direita, passou a enxergá-lo como um exemplo.

Mas existe, de uma certa forma, uma tentativa de criar um "Macron da esquerda" e Ciro Gomes o persegue ao lançar-se como o escolhido do PDT. Trata-se de um candidato que dialoga com as elites e não faz concessões, fugindo dos acordos que espalham a corrupção. Ele supostamente teria mãos para manejar o Congresso e a vontade popular.

O ideal de Ciro Gomes é bonito no papel, mas não se reflete no que foi o mandato dele no governo do Ceará entre 1991 e 1994. Seu irmão Cid também reprimiu manifestações de professores. E o mesmo ideal também não se refere no ministério lulista que Ciro coordenou, responsável pela construção de Belo Monte.

Mesmo com isso, Ciro parece mesmo querer largar Lula na praia e pode se queimar com os petistas.

A opção de Ciro é a correta? A ver.

Em tempo: segundo o jornal Correio Braziliense no dia 8 de janeiro de 2018, Manuela D'Avila é cotada como vice de Ciro Gomes. Se Lula for preso ou impugnado pelo julgamento em Porto Alegre, a chapa dos dois centro-esquerdistas é um plano B viável? Se for, eles já estão no páreo.