ARTES

Estamos em 2017 e, por causa de política, Caetano Veloso foi proibido de cantar

Author

Num show que deveria ocorrer num acampamento do MTST, o artista da MPB foi proibido de se apresentar. A juíza que tomou a decisão possui passado controverso e a luta dos sem-teto ganhou holofotes com a repressão a Caetano Veloso.

Estamos em 2017 e, por causa de política, Caetano Veloso foi proibido de cantar

(Imagens: Roberto Parizotti/Fotos Públicas)

A frase "é proibido proibir" ficou famosa no Festival Internacional da Canção, em 1968. A música surgiu no auge da ditadura militar, depois do AI-5, que cassou os direitos de diversidade política.

Estamos em 2017 e, por causa de política, Caetano Veloso foi proibido de cantar

O autor da frase, Caetano Veloso, foi vítima novamente de uma proibição. E em pleno período democrático.

A ocupação Povo Sem Medo do MTST, Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, teria um show de Caetano Veloso no dia 30 de outubro. A iniciativa ocorreria em São Bernardo do Campo, mas foi vetada pela juíza Ida Inês Del Cid, da 2ª Vara da Fazenda Pública municipal. “É a primeira vez que sou impedido de cantar no período democrático”, disse Caetano, poucas horas antes da apresentação que foi barrada. A decisão da Justiça, que acatou pedido do Ministério Público Federal, foi tomada sob justificativa de que a apresentação estava marcada para acontecer em "um local que foi ocupado". A juíza citou também que o local não teria infraestrutura para shows e que a presença de Caetano poderia atrair um número muito grande de pessoas. 

Em protesto, o MTST fez uma passeata no dia 31. Caetano Veloso recebeu o apoio das atrizes Sônia Braga, Letícia Sabatella, e Alinne Moraes, além da cineasta e apresentadora Marina Person. O vereador Eduardo Suplicy, do PT, cumpriu sua promessa diante dos manifestantes e dormiu no acampamento dos sem-teto.

Por que a censura foi autoritária?

Juíza teria ligações com o PCC

Estamos em 2017 e, por causa de política, Caetano Veloso foi proibido de cantar

A mesma juíza que criminalizou o protesto e o show de Caetano Veloso por "não cumprir os requisitos legais" possui problemas jurídicos. Ida Inês Del Cid teria ligações com o crime organizado em São Paulo

A juíza Ida Inês foi afastada da vara em 2007 acusada de favorecer o PCC, o Primeiro Comando da Capital, segundo a Folha de S. Paulo."O afastamento foi determinado porque a juíza foi flagrada em conversas telefônicas com Sidnei Garcia, vice-presidente da Associação Comercial da cidade e acusado de compor um grupo de 18 pessoas que usariam, segundo o Ministério Público, 22 postos de combustível para lavar dinheiro para o PCC", de acordo com o jornal.

Até o momento, Ida Inês Del Cid não comentou as acusações.

Prefeito tucano investigado

Além da juíza, uma das pessoas que apoiou a proibição foi o atual prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando (PSDB). E sua equipe é alvo de investigações.

No mesmo dia do protesto dos sem-teto, que foi até o Palácio do Governo em São Paulo, o Ministério Público e a 12ª Promotoria de Justiça deflagravam a Operação Barbatanas. As denúncias são de organização criminosa, corrupção passiva e concussão contra secretários de Orlando Morando na prefeitura de SBC: Sergio de Sousa Lima (diretor de Licenciamento do município), Tiago Alves Martinez (chefe de seção) e Mario Henrique de Abreu (secretário de Gestão Ambiental).

O prefeito pediu a exoneração imediata de Mario Henrique de Abreu, informou que foi instaurado um "processo administrativo" e afirmou ter recebido a denúncia "com surpresa". Para saber, Mario Henrique de Abreu é sócio da empresa Marvitrans Transportes e Servicos Ltda, uma empresa voltada exclusivamente para transporte rodoviário de carga.

Por uma coincidência pra lá de bizarra, a empresa dona do terreno que está ocupado pelo MTST, a MZM Incorporação Ltda, protocolou na prefeitura de São Bernardo do Campo um projeto para construção de um Centro Logístico no local.

Há, portanto, interesses empresariais maiores do que moradia para os mais pobres em São Bernardo.

"É proibido proibir" sempre que empresários querem manter terrenos baldios em áreas que poderiam ser melhor aproveitadas ou quando querem derrubar parques públicos e áreas históricas para "investir". Mas, se Caetano Veloso vai fazer um show promovendo um evento de pobres, aí está liberado proibir.