POLÍTICA

Estou com receio de voltar à Augusta, diz agredida por bolsonaristas

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Renata Martins conversou com o Storia Brasil sobre a agressão que sofreu na rua Augusta por afirmar que votaria em Lula num segundo turno contra Jair Bolsonaro. 

Estou com receio de voltar à Augusta, diz agredida por bolsonaristas

(Foto: Reprodução/Facebook)

As eleições de 2018 já estão inflando a ira de extremistas e, ao contrário do que dizem setores da direita, as agressões físicas não vêm da esquerda. Possíveis eleitores de Jair Messias Bolsonaro já seguem os "ensinamentos" do "mito" e mostram que são pouco tolerantes ao debate democrático.

No dia 15 de novembro de 2017, Renata Martins foi agredida em uma padaria de São Paulo por afirmar que votaria em Lula num hipotético segundo turno com Bolsonaro. Três agressores deram socos de forma covarde na jovem de 29 anos.

Para preservar sua identidade, Renata primeiro concedeu o depoimento que postou no Facebook para a revista Fórum sem revelar seu nome. Depois a jovem topou conversar com o portal G1 sobre o ocorrido.

Ao Storia Brasil, Renata Martins decidiu dar um relato mais detalhado sobre os eventos e contar como ela se sente depois das agressões. Na internet, ela afirma que recebeu muito apoio, mas também novas ameaças.

Storia Brasil: No seu relato, você afirma que ficou fora de si diante dos seus agressores. Você chegou a machucá-los visivelmente? Ou foi apenas uma expressão da sua indignação? 

Renata Martins: Dei uns dois ou três socos que mal pegaram, com nenhum ferimento visível. A intenção era mesmo apenas parar a agressão verbal. O momento foi exatamente assim: eu me levantei, pois a conversa tinha chegado no limite do absurdo.

Disse que não queria mais fazer parte da conversa quando os dois me cantaram e me dirigi ao caixa da padaria Bologna. Naquele momento, o cara começou a gritar aquelas ofensas afirmando que pobre tinha mesmo que pagar e me mandando tomar no cu. Então eu voltei, e disse para parar de me xingar porque eu só tava querendo ir embora e, se ele continuasse gritando, eu tomaria providências para calá-lo. E voltei para o caixa. 

Ele aumentou o tom e começou a me desafiar, dizendo que não ia parar e queria ver se eu conseguia fazer ele se calar. Voltei e dei uns socos nele, mandando ele calar a boca. Aí o funcionário da padaria veio falar para parar de confusão.

Quando eu me contive e fui prestar atenção no funcionário, ele se aproveitou e socou meu rosto com toda força bem no olho. Eu estava de óculos, que voou longe. Meu rosto começou a escorrer sangue imediatamente

SB: Por que você vai votar Lula num segundo turno em 2018? E quais razões te levam a se indignar com Bolsonaro? 

RM: Não vou votar no Lula em primeiro turno nas eleições de 2018. Deixei bem claro na conversa que tive no episódio da padaria. Eu na verdade ainda não tenho candidato decidido, apesar de ter votado no Lula nas eleições anteriores.

No episódio da agressão, disse apenas que em um segundo turno hipotético entre Lula e Bolsonaro eu não teria dúvidas em votar no Lula, pois repudio todas as posições extremistas. A propagação de preconceito, a agressão verbal contra mulheres e tudo mais são bem conhecidas a respeito do Bolsonaro.

Além do mais, ele é um parlamentar que, fora essas barbaridades que ele propaga, nunca fez nada de útil em seu cargo político.

SB: A polícia te atendeu corretamente após a agressão dos homens que fugiram?

RM: Chamei a polícia por telefone e fui rapidamente atendida. Porém, após o telefonema a viatura nunca veio. A viatura que me "atendeu" fui eu mesma que parei na rua. Segundo eles, estavam com muita ocorrência para atender. E me disseram que não podiam me ajudar pelo fato do agressor não estar mais presente no local. 

Sem os dados do agressor, eles afirmaram não havia nem como registrar ocorrência. O grupo de homens que me atacou estava em três.

SB: Há pistas dos suspeitos?

RM: A padaria Bologna já entregou as imagens de câmeras à polícia, que está analisando. Acredito que seja uma grande pista, porque há câmeras na calçada que podem identificar a placa do veículo em que eles fugiram. 

Por enquanto, nada além disso

SB: O que disseram os fãs do Bolsonaro na internet depois?

RM: A maioria das mensagens que recebi dos fãs do Bolsonaro foram de xingamentos pesados e ameaças. Mas alguns, sensatos, me enviaram mensagens de apoio dizendo que abominam o que foi feito comigo e não compartilham o pensamento dos que estão me xingando e ameaçando.

SB: Houve uma rede de solidariedade depois do seu relato?

RM: Houve uma rede de solidariedade muito maior do que eu esperava. Eu publiquei o primeiro desabafo mesmo só entre amigos retratando quem voltou para casa machucada e viu o agressor fugir tranquilo e ficar impune. De repente, a repercussão foi gigante, e muitas pessoas me ofereceram ajuda. 

O meu principal apoio veio por parte de uma pessoa que já combate a violência contra a mulher faz tempo e dispõe de uma rede de proteção bacana, que está me acompanhando bem de perto. 

Fora isso, muitas pessoas me ofereceram palavras de apoio também nas redes sociais.

SB: Tem algo que eu não perguntei e você gostaria de falar sobre?

RM: Eu gostaria de dizer algo que ninguém ainda me perguntou. Tenho recebido mensagens de apoio, mensagens de ataque, lido comentários pesados a meu respeito, etc. 

Mas estou bastante chocada, abalada e com receio de permanecer na rede social. Tenho medo de sair na rua e, especialmente, com receio de ter que voltar algum dia àquela região da rua Augusta. 

A repercussão foi ótima para eu conseguir buscar os meus direitos, mas também tem me assustado muito. Por isso parei de responder até mesmo as mensagens de apoio e não estou aceitando nenhuma solicitação de amizade apesar de saber que algumas pessoas estão verdadeiramente querendo me oferecer apoio. 

Infelizmente não tenho como saber sobre essas pessoas e nem tenho condições emocionais de ficar avaliando todos que estão tentando se aproximar neste momento. Acredito que os caras já devem estar sabendo do que está rolando e, do mesmo jeito que posso descobrir o informações para dar andamento ao processo, eles podem conseguir informações sobre mim para me retaliar. 

Então, este é um momento que estou querendo apenas me recuperar e deixar a polícia e a Justiça fazerem o seu trabalho. 

Quero tentar retomar a normalidade da minha vida pouco a pouco.