POLÍTICA

Fogo na boneca de Judith Butler prova que o MBL é contra a liberdade

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Movimento Brasil Livre e políticos que orbitam ao redor dos seus protestos provaram que não defendem liberdade de maneira nenhuma. E ainda berraram: "queimem a bruxa!".

Fogo na boneca de Judith Butler prova que o MBL é contra a liberdade

(Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/Fotos Públicas)

A liberdade acaba com estrondosos aplausos, diria uma personagem da saga "Star Wars". No Brasil, ela é destroçada no discurso extremista e autoritário que agora está se convertendo em atitudes dotadas de um significado bizarro, para dizer o mínimo. E são os movimentos "apartidários" que provocaram o impeachment de Dilma e estão por trás destes estranhos eventos recentes.

Fogo na boneca de Judith Butler prova que o MBL é contra a liberdade

(Foto: Wikimedia Commons)

Judith Butler é professora da Universidade da Califórnia em Berkeley nascida em Cleveland, Ohio, e descendente de uma família húngaro-russo-judaica. Feminista, pensadora da teoria queer e de gênero, ela é uma das sucessoras de Simone de Beauvoir, embora suas teorias performáticas entrem em contraposição com as noções de sexualidade da francesa e com a fenomenologia de Merleau-Ponty. A filosofia de Butler, portanto, está longe de ser um consenso nos estudos de gênero.

O SESC Pompeia anunciou uma palestra de Judith Butler para 7 de novembro. No mesmo dia, grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL), de Kim Kataguiri, e do deputado evangélico Marco Feliciano convocaram manifestações de repúdio ao painel da pensadora. O movimento Escola Sem Partido também agitou, pois é aliado de ambos. O resultado do barulho do maior grupo pró-impeachment  e antipetista do Facebook foi uma cena grotesca que remonta à Santa Inquisição da Idade Média.

Um grupo pró-Butler fez um cerco de proteção no SESC, formado principalmente por ativistas feministas e LGBTs. O outro agrupamento fez um buzinaço na frente do local "contra o ensino de ideologia de gênero". E, neste grupo convocado pelo MBL, alguém achou que seria uma boa ideia montar uma boneca para simbolizar Judith Butler. Cerca de 50 pessoas atearam fogo na boneca e gritaram: "queimem a bruxa!".

Havia cartazes contra o ex-presidente Lula. "O chefe destruiu o Brasil", dizia a placa. Segundo os manifestantes que atearam fogo, Judith Butler iria "legalizar a pedofilia" por questionar padrões de gênero.

Semelhança bizarra com a Inquisição

Fogo na boneca de Judith Butler prova que o MBL é contra a liberdade

(Foto: Wikimedia Commons)

A Inquisição foi criada em 1478 pelo Tribunal do Santo Ofício e perseguiu judeus e mouros para diminuir a influência árabe muçulmana no continente. Centenas de indivíduos foram punidos pela Igreja Católica e aproximadamente 13 mil foram julgados.

A punição mais comum era a vergonha pública com o uso de mordaças, especialmente envolvendo judeus. No entanto, a pena máxima geralmente envolvia os famosos "autos-de-fé", que acabavam em execuções públicas. As mais famosas eram as fogueiras com hereges. 

A mesma Inquisição passou a perseguir mulheres acusadas de "bruxaria" e filósofos iluministas que criticavam o cristianismo, incluindo aí os enciclopedistas e boa parte dos pensadores modernos europeus. 

O MBL e seus seguidores resolveram repetir a Inquisição de 1500 em 2017? 

A irresponsabilidade do grupo de Kim Kataguiri

Atos públicos que envolvem políticos e governantes devem ser estimulados, porque o Estado possui responsabilidade públicas com a população em um regime democrático. No entanto, estimular a degradação de filósofos é uma via válida?

Se uma boneca de Judith Butler foi queimada em público, quais serão os próximos? A professora Marilena Chauí, da USP? O pensador Noam Chomsky, também dos Estados Unidos?

O antipetismo e o analfabetismo político do MBL foram longe demais. E se a manifestação tivesse acabado em fogueira real? Quem seria responsabilizado?

Kim Kataguiri e seu grupo alegam que são por um "Estado mínimo" e pelas liberdades individuais. A liberdade de Judith Butler palestrar foi respeitada? Ou será que o MBL não passa de uma reunião de liberais que não defendem o que pregam?

A tal da Escola Sem Partido e seus amigos estão criando monstros no cenário político dentro da população. Eles são fascistas e profundamente anti-intelectuais.

PS: O MBL apagou algumas de suas postagens sobre Butler. Isso pode ser visto neste texto do HuffPost Brasil.