LAVA JATO

Haddad é indiciado pela Polícia Federal; entenda o que está em jogo

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Ex-prefeito de São Paulo entra na mira de uma operação que é um desdobramento da Lava Jato. O que isso implica politicamente para ele, hoje coordenador de campanha de Lula, e para o PT.

Haddad é indiciado pela Polícia Federal; entenda o que está em jogo

(Foto: Pedro Zambarda)

O futuro político do PT enfrenta dois grandes dilemas: se Lula for condenado em segunda instância será impedido de candidatar e, caso a situação seja essa, existem alternativas ao seu nome na corrida presidencial de 2018? Nesta segunda-feira, 15 de janeiro, o partido ganhou mais um capítulo na pesada disputa que o aguarda.

O ex-prefeito Fernando Haddad foi indiciado pela Polícia Federal pelo crime de Caixa Dois, ou seja, falsidade ideológica eleitoral. O caso foi executado pelo delegado João Luiz Moraes de Rosa, da Delegacia de Repressão à Corrupção e Crimes Financeiros (Delecor). Segundo o relatório de 32 páginas, a campanha de Haddad teria pago R$ 2,6 milhões para as empresas LWC e CÂNDIDO & OLIVEIRA GRÁFICA LTDA. O valor, somado com a contabilidade do candidato, seria superior ao declarado para a Justiça Eleitoral.

Além de Haddad, também foram indiciados o ex-tesoureiro João Vaccari Neto, o coordenador da campanha de Haddad à Prefeitura de São Paulo, Chico Macena, o ex-deputado petista Francisco Carlos de Souza e três pessoas ligadas às gráficas envolvidas no suposto esquema. A ação da PF faz parte da Operação Cifra Oculta, um desdobramento da Lava Jato que existe desde 2017 e se desenvolveu após a delação premiada de Ricardo Pessoa da construtora UTC.

O ex-prefeito classificou como "descuidado" e disse que o indiciamento "não faz sentido".

Qual é o indício forte de crime?

De acordo com o jornal Valor Econômico, a campanha de Haddad em 2012 arrecadou R$ 42 milhões e gastou R$ 67 milhões.

Já a dívida de R$ 25 milhões da campanha foi assumida pelo diretório nacional do partido, o que envolve Vaccari. E isso gerou um problema jurídico anterior ao indiciamento.

Um delegado de carnavais passados

João Luiz Moraes de Rosa é um velho conhecido de Fernando Haddad. Quando a Operação Cifra Oculta foi deflagrada, ele foi para cima do ex-prefeito. Em 1º de junho de 2017, Rosa solicitou a condução coercitiva de Haddad e da ex-vice-prefeita Nádia Campeão.

Pelo fato da contabilidade das contas do Prefeito serem uma responsabilidade Vaccari e não de Haddad, o juiz da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, Márcio Antônio Boscaro, negou o pedido de coercitiva. Rosa, no entanto, frisou que Haddad estava intimado a depor sobre o caso.

O delegado da PF tem uma grande proximidade de promotores paulistas e tem métodos que se assemelham com a Lava Jato de Curitiba.

Com formação de especialista em Direito Penal pela Escola Superior do Ministério Público de São Paulo, o delegado Rosa lecionou um curso de “Elementos do Direito Processual” na Escola Judiciária Militar estadual, voltada para policiais militares. Um vídeo foi ao ar no YouTube em 17 de junho de 2016, depois da coercitiva de Luiz Inácio Lula da Silva em março daquele ano.

Rosa defendeu a condução coercitiva como método de investigação, procedimento que é questionado por ministros do Supremo, de Gilmar Mendes até Dias Toffolli, porque vai contra a presunção de inocência e pode ocasionar prisões já em segunda instância.

Seu perfil é muito mais discreto do que Sérgio Moro ou Marcelo Bretas, estrelas da Lava Jato. Mas há indícios de que João Luiz Moraes de Rosa queira usar o caso Haddad para se promover e não propriamente fazer Justiça.

Incoerências s

Fernando Haddad foi incluído no desdobramento da Lava Jato por favorecer a UTC. Sua assessoria informou que o dono da gráfica investigada, Francisco Carlos de Souza, negou ter recebido recursos da empreiteira. 

Uma obra no túnel que liga à Avenida Roberto Marinho, em São Paulo, seria a contrapartida para a UTC no esquema. Ela foi, segundo o ex-prefeito, cancelada no dia 14 de fevereiro de 2013. 

Não há sinais de enriquecimento ilícito de Haddad no esquema, ao contrário da família Bolsonaro, que soma R$ 15 milhões. E o caso ocorre poucos dias antes do julgamento de Lula em Porto Alegre, marcado para o dia 24.

É impossível pensar em coincidências levando em conta que Fernando Haddad é o coordenador de campanha do ex-presidente petista. Soa como perseguição.