POLÍTICA

Invadir o Congresso funciona? Reflexões à esquerda

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No passado, a ditadura militar se impôs através do fechamento do Congresso e a concentração de poder. Numa nação profundamente corrupta e denunciada via delações premiadas, a esquerda política flerta com a ideia. É o que devemos fazer?

Invadir o Congresso funciona? Reflexões à esquerda

A Lista de Fachin, do STF, lançou acusações sobre praticamente todos os partidos políticos dentro do Congresso e do Senado. A Operação Lava Jato, embora atropele direitos de defesa de petistas e tenha a condução de um Ministério Público enviesado, segue colhendo delações premiadas. E a esquerda organizada na rua cresce a medida que o governo Michel Temer se prova insensível com pobres, aposentados e até mesmo com a classe média que não goza de privilégios financeiros em tempos de crise. Ele quer o ajuste fiscal que beneficie os ricos. Custe o que custar.

No dia 31 de março de 2017, aniversário do golpe miliar de 1964, a esquerda deu as caras numa Avenida Paulista levemente chuvosa e muito ensolarada. O arco-íris se misturou com os balões das centrais sindicais CUT e CTB, além das bandeiras dos partidos PCO, PSTU e PSOL. No centro do movimento, o líder do MTST Guilherme Boulos roubou a cena.

“Este ato faz parte de uma série que teremos nos próximos dias até a greve geral em 28 de abril. Se até lá a Reforma da Previdência for aprovada pelo governo golpista de Temer, teremos que invadir o Congresso, como outros já fizeram. Invadiremos o Congresso. Aí vai ter acabado o diálogo”.

Boulos fez uma óbvia referência à invasão promovida por militantes pró-golpe militar em novembro de 2016. Além deles, policiais civis invadiram a casa dos deputados neste mês. Fora estas pressões óbvias, policiais militares pararam por 21 dias no Espírito Santo, gerando saques e roubos, além de protestos em 2013 que chegaram perto de promoverem invasões das casas legislativas.

A esquerda se arma no discurso desta forma porque a farsa da direita caiu. A queda de Dilma Rousseff não foi contra a corrupção, mas foi apenas para blindar os homens do governo Michel Temer e seus aliados, incluindo políticos do PSDB como José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves.

A CUT, o MST, o MTST e as centrais sindicais podem não defender abertamente o fechamento do Congresso, como fizeram os militaristas no passado, mas querem uma radicalização da mobilização na greve geral, que promete parar o país no dia 28 de abril. E não estão errados nisso. Invadir o Congresso pode ser sim controverso e antidemocrático per se, mas faz sentido quando uma classe política se desenha para apenas defender os interesses econômicos dos ricos.

A radicalização se faz necessária. A questão que sempre se põe nestes momentos, no entanto, é uma só: Quem vai pagar o ônus das prisões e das agressões que virão disso?

A esquerda deve fazer esta reflexão quando radicaliza seus posicionamentos.

Mas, sim, o assalto dos ricos contra os pobres e o fascismo diminuem as vias do diálogo pacífico e pouco engajado. A persuasão e a dureza dos discursos devem ser mais fortes neste momento de crise do governo Temer. Porque é desta radicalização que é possível produzir uma politização mais humana daqueles que estão perdidos no debate ideológico.

Um afrouxamento a esta altura do campeonato, com a crise econômica se prolongando graças a medidas pouco efetivas do novo governo, é a entrega do atestado de derrota nas lutas políticas. Mas toda a radicalização deve pressupor uma reflexão madura.