MICHEL TEMER

O Congresso abafou denúncia contra Temer e a esquerda precisa retomar a rua

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Desde 2013, as pautas dos protestos foram sequestradas primeiro por diversos cidadãos despolitizados para enfim catalisar os protestos de direita entre 2015 e 2016 pelo impeachment de Dilma. A esquerda, com o show de horrores de Michel Temer, precisa retomar o espaço que é dela.

O Congresso abafou denúncia contra Temer e a esquerda precisa retomar a rua

A esquerda não é o PT. Muito embora o partido seja a maior representação esquerdista a chegar no poder depois do fim da ditadura militar, além de ser o maior na América Latina em número de filiados, a legenda não representa todas as forças em conjunto no Brasil. Há movimentos anarquistas que ganharam força com o Movimento Passe Livre, muito além dos Black Blocs, há a extrema-esquerda e há esquerdistas que se situam tão ao centro quanto os próprios petistas. O PSOL quer se constituir eleitoralmente como uma alternativa socialista ao trabalhismo, os movimentos de minorias negras, LGBT e por mulheres fazem a luta social na prática. Existe muita gente na esquerda brasileira.

E a esquerda vive um momento dramático em que não mobiliza forças quando deveria estar ocupando a rua. No Congresso, o show de horrores do presidente Michel Temer se consolidou com 263 favoráveis e 227 contrários a abafar a denúncia de corrupção passiva e lavagem de dinheiro para apreciação no Supremo Tribunal Federal.

Num mico ainda maior, somente um manifestante chamado André Rouglas foi retirado calmamente durante a votação. Militantes do Avaaz fizeram manifestações, mas com menos de mil pessoas - conseguiram, no máximo, fazer projeções no Congresso Nacional. CUT, as centrais sindicais e outras organizações tradicionalmente vinculadas ao PT ou não quiserem pressionaram ou simplesmente não conseguiram.

O que nos afeta?

Correndo atrás do tempo perdido

Um dos militantes que mais cresceu com a greve geral em São Paulo, Guilherme Boulos do MTST afirma que seu movimento de luta por moradia urbana já está se mobilizando para ir até a capital federal. O problema é que a esquerda segue desarticulada desde sempre e, principalmente, desde 2013.

Naquele ano, os protestos do Movimento Passe Livre contra o aumento das passagens e contra abusos do governador Geraldo Alckmin foram sistematicamente tomados pela classe média que assistiu horrorizada às balas de borracha que cegaram o fotógrafo Sérgio Silva e atingiram a repórter da Folha, Giuliana Vallone. A catarse midiático botou milhões na rua, mas tirou força das bandeiras da esquerda.

Progressivamente os protestos foram sendo ocupados por grupos oportunistas da direita, como o MBL e o Vem Pra Rua. O grupelho de Kim Kataguiri enxergou o caos econômico do governo Dilma como a pressão perfeita para trazer o antipetismo da imprensa para as ruas, popularizando-o em seus discursos. Conseguiram, assim, o impeachment controverso da ex-presidente.

A desarticulação em si

O PT tem uma pauta coerente e uma sequência de incoerências. Os militantes do partido acertam ao ter pelo menos um nome para 2018, o do ex-presidente Lula. O erro segue na falta de autocrítica constante, não somente no que se refere ao líder, mas sim a respeito de lideranças do partido que parecem querer que Temer sangre no Planalto para potencializar uma campanha política no ano que vem.

O restante da esquerda acerta em um tema e erra nas alianças. Está certa em pedir mais coerência aos petistas, mas comete o erro atroz de dar força para a direita e para políticas que prejudicam os trabalhadores e os pobres no atual governo. Um exemplo recente e clássico é a entrevista da ex-presidenciável Luciana Genro, do PSOL, à Folha de S.Paulo.

A grande mídia, por sua vez, desde quando fechou o pacto contra o PT sobretudo entre seus colunistas de opinião, contribui para dissipar o poder de convencimento de setores populares legítimos.

Encerra-se o diálogo que deveria unir forças diferentes em torno de uma só pauta: a retomada da rua como instrumento de pressão popular legítima.

Um beco sem saída

A esquerda enfrenta dificuldades entre os companheiros e de uma estrutura brasileira profundamente conservadora, que rejeita lideranças moderadas como a do próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No entanto, diante dos abusos de Michel Temer, ela terá que tomar alguma reação plausível no plano das manifestações.

Temer quer apenas um objetivo: não ser preso e ter todos os seus comparsas livres de condenações. Tem a seu favor uma mídia amiga e um Congresso comprado. Se a situação piorar, o que o impede de suspender as eleições de 2018 e enterrar de vez a democracia em nome da "recuperação econômica"?

Esta é só mais uma situação que exige a esquerda nas ruas. Na verdade, é de lá que ela nunca deveria ter saído.