POLÍTICA

Por que criticar o protecionismo de Donald Trump não me torna neoliberal?

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Muro na fronteira do México. Novos impostos. Fim de acordos transnacionais. Para onde Donald Trump vai nos levar? E por que parte da esquerda ainda o acha melhor do que Obama?

Por que criticar o protecionismo de Donald Trump não me torna neoliberal?

Eu sei. Não precisa repetir para mim. 

Barack Obama bombardeou a Síria e a ameaçou o Irã. Obama fez também um primeiro mandato ruim, não conseguindo controlar os efeitos da maior crise econômica do século 21 até o momento, iniciada em 2008 dentro do mercado financeiro e da especulação em torno dos imóveis. Obama também não criou políticas consistentes para negros e pobres. Foi medíocre em muitos aspectos, além de ter deixado surgir o Estado Islâmico e não ter retirado as tropas do Oriente Médio, uma promessa de campanha traída. Hillary Clinton, sua sucessora pelo Partido Democrata, continuaria estas políticas mortíferas e abriria espaço para outras, considerando sua proximidade com Israel.

Não ganhou ela, e sim Donald Trump. E a alternativa pelo Estado do Bem-Estar Social ou "socialismo", Bernie Sanders, foi descartada.

Com Trump, eu previ o desastre. O sociólogo esloveno Slavoj Žižek soltou que Trump poderia ser "uma piora antes de uma melhora" nas eleições. Balela.

Donald Trump está empenhado em acabar com acordos internacionais do governo Obama em torno de uma promessa de trazer novos empregos aos norte-americanos. Fez campanha para agradar o redneck (caipira) dos Estados Unidos, sendo que muitos deles apenas olham o seu país e não o restante do mundo. É possível prever Trump seguir um caminho similar ao de George W. Bush, ignorando posições da ONU. Por que não provocar outra guerra, além do Afeganistão e do Iraque, se isso trouxer mais emprego e dinheiro?

Os democratas não se comportam diferente de republicanos no que se refere a conflitos armados, mas é importante lembrar que Bush provocou as maiores guerras no Oriente Médio desde o fim da Guerra Fria, com endividamento bilionário e expansão de tropas mercenárias. Tudo isso está documentado no livro Blackwater, do jornalista Jeremy Scahill - que fundou o Intercept com Glenn Greenwald.

Mas o foco do texto não é este e sim a nova política de impostos de Donald Trump. Postei no dia 25 de janeiro uma tradução do site americano Polygon na minha página Drops de Jogos. Na nota, afirmava que uma fonte anônima disse ao Polygon que Trump poderia elevar o preço dos jogos de videogame com uma tarifa entre 5% e 10%. No DJ, especulei que a medida do novo governo poderia causar um retrocesso na indústria, aumentando os custos de importação nos EUA e o preço final, tanto em solo americano quanto brasileiro.

E boom.

O post gerou cerca de 150 comentários, entre grupos de Facebook e reações diretas à postagem. A direita fiel à Trump repetiu que eu era tão "fake news" quanto a emissora CNN que Trump repudia. Alguns da esquerda afirmaram que soei "neoliberal" por defender impostos baixos.

Explico aqui porque não sou neoliberal no caso dos games e de economias globalizadas.

O mercado americano de games gera emprego no mundo todo. Na China e no Brasil, inclusive. Mercados integrados desta forma, o que ultrapassa as barreiras territoriais, não devem ser taxados ou devem ter taxas que rendam contrapartidas à população mais pobre. Trump promete que entregará empregos ao americano menos favorecido. Mas quem garante isso?

E por que colocar impostos nos games? Não há outros mercados que podem ser taxados? E Wall Street? Pode ser taxada?

Não se trata aqui de ser "neoliberal" ou pró "Estado forte". Mas o populismo de direita de Trump pode levar o mundo aos piores retrocessos por um protecionismo burro e uma taxação que obviamente só o beneficiará.

E eu não entrei nem no assunto do muro e do populismo em si.

Isso fica pra próxima coluna.