LAVA JATO

Serra ressurge nas delações da Odebrecht para afundar sua biografia

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Implicado na Lava Jato, o senador da República pode ficar tão encrencado quanto Aécio Neves em 2017. O único poupado do PSDB, embora citado em planilhas, é Geraldo Alckmin.

Serra ressurge nas delações da Odebrecht para afundar sua biografia

(Foto: Valter Campanato/Agência Brasil/Fotos Públicas)

O PSDB se consolida como o partido que mais derreteu depois da posse de Michel Temer na Presidência da República. Alinhando-se como base de um governo que se ergueu através de um impeachment controverso, suas figuras foram nocauteadas pelas mesmas delações premiadas que afetaram o PT, embora a blindagem jurídica dos tucanos seja mais dura. Nenhum deles está preso.

O senador José Serra foi diretamente envolvido na Operação Lava Jato de duas formas: primeiro é mencionado em planilhas do departamento de Propinas da Odebrecht como o "Careca" e depois é citado na delação premiada de Joesley Batista da JBS. Fora isso, o tucano e ex-governador também é acusado de crimes no caso dos cartéis dos trens em São Paulo, o Trensalão, e nas obras do Rodoanel. Ele compartilha da maioria dos problemas jurídicos de Geraldo Alckmin, embora os processos de Serra tragam mais indícios de provas.

Uma reportagem publicada por André Vieira Guilherme no jornal Valor Econômico do dia 9 de janeiro jogou mais fogo no parque de José Serra. O senador e ex-ministro de Relações Exteriores de Michel Temer é acusado de solicitar propinas de R$ 52,4 milhões entre 2002 e 2012 para o PSDB. A montanha de R$ 23,3 milhões foi supostamente paga a Serra somente em 2010.

O valor milionário seria uma contrapartida à liberação em 2009, pelo governo paulista, de R$ 170 milhões em créditos a uma empresa da Odebrecht. A delação premiada que revela o dinheiro da propina é de Pedro Novis, ex-presidente da Odebrecht de 2002 até 2008.

O escândalo não envolveria somente José Serra. Aloysio Nunes e Gilberto Kassab, seus aliados históricos e homens-fortes de Michel Temer, estariam envolvidos no esquema. Sabe-se que as propinas a Kassab teriam o ajudado a criar o PSD e sair do DEM, para usar a legenda de aluguel e se aproximar do governo Dilma Rousseff, que foi derrubado pelo PSDB.

Embora não seja nem acusado criminalmente no esquema de propinas, seja pelo Ministério Público paulista ou o federal, Serra está com a credibilidade definhando em praça pública.

José Serra não comentou as recentes acusações. Silenciou-se.

Decadência sem elegância

De presidente da UNE a exilado político, Serra teria tudo para se consolidar como um nome da centro-esquerda por sua luta contra a ditadura. Ao retornar ao Brasil e fundar o PSDB, José Serra preferiu se alinhar ao projeto privatista de Fernando Henrique Cardoso esperando herdar dele a cadeira da presidência da República. Consolidou-se como o "pai dos genéricos" no Ministério da Saúde.

Encontrou um Lula no meio do caminho e perdeu em 2002. Dificultou a candidatura Alckmin e tentou, novamente em 2010, a corrida para perder para Dilma Rousseff. Tentou atrapalhar Aécio Neves em 2014, mas foi colocado de lado.

Serra sempre teve uma grande influência na grande imprensa, sobretudo na Editora Abril (sua filha Verônica trabalhou no setor de publicidade) e no jornal O Estado de S.Paulo (onde é colunista). Foi assim que ele consolidou o controle do PSDB no governo estadual, financiando veículos amigos. No entanto, apesar do controle nas comunicações, os tucanos só pontuam 8% nas intenções de voto em 2018.

Esta é a herança miserável dos casos de corrupção envolvendo o nome de Serra.