ECONOMIA

Temer diz que colocou o Brasil "nos trilhos"... em qual deles?

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Presidente escreveu artigo no jornal O Estado de S.Paulo defendendo suas reformas, enquanto enfrenta uma rebelião dentro do próprio governo. Dados comprovam que, apesar de efeitos atenuados da crise, o país não anda bem em suas mãos.

Temer diz que colocou o Brasil "nos trilhos"... em qual deles?

(Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/Fotos Públicas)

Muita publicidade na maioria das vezes não é sinal de boa coisa. E este é exatamente o caso do governo federal em seu final de mandato buscando salvar a própria reputação. Fazem isso utilizando a grande mídia que foi muito bem financiada por ele.

Temer diz que colocou o Brasil "nos trilhos"... em qual deles?

(Foto: Beto Barata/PR/Fotos Públicas)

O presidente Michel Temer publicou no dia 14 de novembro um artigo no jornal O Estado de S.Paulo. Nele, o governante faz uma defesa de sua gestão já no título, chamando-o de "O Brasil voltou aos trilhos". Em qual deles? E de que forma?

Temer diz que colocou o Brasil "nos trilhos"... em qual deles?

(Foto: EBC)

Temer defende no texto sobretudo suas medidas econômicas e a necessidade da Reforma Trabalhista, que enfrenta obstáculos mesmo com as acusações de venda de emendas bilionárias para deputados, estimadas em R$ 32,1 bi pelo próprio Estadão. "Há pouco mais de um ano e meio, assumi o governo com a tarefa de enfrentar a mais grave crise econômica da nossa história e seus profundos impactos sociais para o país. Em face desse desafio, propus o mais amplo conjunto de reformas estruturantes dos últimos 30 anos, tendo como pilares o equilíbrio fiscal, a responsabilidade social e o aumento da produtividade", diz o presidente no começo do texto.

Ele se vangloria da criação de 163 mil vagas de trabalho num país com desemprego estimado em 14 milhões, alega que cortou "despesas administrativas" no Farmácia Popular e diz que zerou a fila de espera do Bolsa Família, supostamente otimizando os programas sociais. 

"Os resultados estão aí e são inquestionáveis. A nossa economia já cresce por dois trimestres consecutivos. Analistas preveem aumento próximo de 1% do produto interno bruto (PIB) em 2017. A inflação, próxima de 10% em maio de 2016, está abaixo do centro da meta: 2,54% em setembro. O poder de compra melhorou com o aumento de mais de 6% no rendimento real dos salários. A taxa básica de juros, que em maio de 2016 era de 14,25%, cai de forma sustentada. A Selic é hoje de 7,5%, o menor nível em quatro anos, e o spread bancário recuou substancialmente. Apenas a queda responsável da taxa de juros garantiu R$ 80 bilhões aos cofres públicos", frisa Temer, sem dar margem para outras interpretações dos mesmos dados.

O presidente também afirma que o Índice de Confiança Empresarial  da FGV alcançou 90,3 pontos em outubro, o maior nível desde julho de 2014, quando Dilma ainda era a presidente no primeiro mandato. Michel Temer ainda ressalta que o risco Brasil (Embi) caiu de 544 pontos-base (janeiro de 2016) para 239 (outubro de 2017), uma redução de 56,1%. Depois, o presidente traz dados que agradam os traders do mercado financeiro: o Ibovespa ultrapassou 76 mil pontos em setembro de 2017, após ter ficado abaixo dos 38 mil pontos em janeiro de 2016.  Ele ressalta que os leilões de energia realizados sob o novo modelo regulatório, inclusive do pré-sal, arrecadaram-se mais de R$ 22 bilhões. Apenas no setor são esperados investimentos de R$ 444 bilhões nos próximos anos e a criação de até 500 mil empregos.

Dados positivos, mas cadê a realidade deles?

A inflação caiu, empregos estão sendo criados e o governo Temer grita vitória num artigo triunfalista em um dos maiores jornais paulistas. A taxa básica de juros, a Selic, caiu para o menor patamar em quatro anos e está em 7,5%, muito abaixo dos mais de 10% do governo Dilma. No entanto, para o setor empresarial, a Fiesp e o político Paulo Skaf os cortes na Selic ainda estão tímidos, enquanto economistas mais progressistas como Luiz Carlos Bresser-Pereira afirmam que Dilma Rousseff fez vigorosos cortes nos juros como fez Michel Temer.

No entanto, as projeções dos institutos Focus e Goldman Sachs para o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil não estão tão otimistas quanto as de Temer. O primeiro prevê crescimento de 0,7%, enquanto o segundo já estima 0,9%. O crescimento de 1,9% de Dilma já era descrito como "pibinho" em 2012. O Goldman Sachs prevê que Temer entregará um crescimento de 2,7% em 2018 e que essa expansão pode ser "estragada" por um novo presidente "populista". Não está claro ainda se o mercado financeiro e os bancos vão penalizar Lula ou Bolsonaro na disputa pelo Planalto, mas ambos são vistos como ameaças, por razões diferentes tanto na esquerda quanto na direita.

Apesar de alguns bons números questionáveis, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que, entre julho de 2006 e setembro de 2017, a inflação pesou no bolso da população menor renda do Brasil. O quadro macro nacional apresenta melhoras, mas os investimentos públicos e as ações sociais para a classe baixa sofreram abalos com Temer no comando.

Nas pesquisas de opinião pública, tanto Vox Populi quanto Ibope e Datafolha apontam que Temer tem entre 3% e 5% de aprovação, o que é o menor índice entre os presidentes - colocando-o ao lado do controverso coronel José Sarney. Ao seu texto no Estadão, a revista Carta Capital de Mino Carta colocou um trem desgovernado para representar o Brasil de Michel Temer.

Temer diz que colocou o Brasil "nos trilhos"... em qual deles?

Um trem desgovernado

Acuado por acusações de corrupção no escândalo da JBS e na Operação Lava Jato, Michel Temer tenta vender o peixe do seu governo para fazer um sucessor e continuar livre. A defesa da economia não se sustenta numa análise mais atenta dos dados, embora a crise econômica no Brasil de fato tenha atenuado seus efeitos. No entanto, fica realmente a questão se Temer ou a própria Dilma tirariam o país do atoleiro em quatro anos de sofrimento nacional.

O trem do país que Temer imagina não está nos trilhos. Está como o trem da fotografia presente no início deste texto. Trata-se de uma composição da CPTM no Itaim Paulista que descarrilhou. A retomada vai demorar e, felizmente, não depende apenas do presidente.