'Salaam, Kabul'

'Salaam, Kabul'

Luz e sombra
Coleção Luz e sombra

A paisagem estéril e montanhosa em nada parece acabrunhar o povo que ali vive. O vento seco que corta o interior das narinas não intimida os jovens, que se divertem em parques artificiais da capital, que representa a punjante esperança para o restante do reino. Falam e cantam em língua estranha, ocasionalmente metendo algumas palavras em inglês para efeito de conversa. Moças elegantemente trajadas em tubos bem geométricos de tramas grossas conversam animadamente com colegas sobre revistas de moda, relacionamentos e as aulas que acabaram de ter na universidade. Retocam o batom vez ou outra, aquietam os cabelos laqueados sacudidos por um vento fortuito e algumas registram na rolleiflex o idílico que toma a cena, ornada por edifícios cubistas tal qual expoentes do modernismo como Niemeyer costumavam arquitetar.

Feirantes de turbantes povoam as ruas menores, com quitandas abarrotadas de frutas secas e legumes frescos, que parecem ter brotado por milagre de terra tão infértil. O cheiro de especiarias se eleva e se mistura com a nuvem de poeira que rajadas ocasionais de vento trazem dos arredores e levantam do asfalto meio bege. Fuscas, Kombis e Cadillacs disputam espaço com carroças em novas avenidas e calçamentos. Enquanto o imponente castelo do Xá desponta glorioso próximo ao rio Darya, o inóspito teima em tomar a civilização. O povo nem dá conta. Tudo é luz, música e esperança. Ninguém nota a fatal tempestade de poeira que vem de atrás das montanhas.

Essa é a Cabul de 1960. Parece inacreditável que a cidade tinha tudo para se tornar uma punjante capital, capaz de inspirar todo um país rumo à modernidade. A cultura tradicional do povo mesclada há séculos com a doutrina do profeta Mohammed parecia a combinação perfeita do ideal muçulmano: glória a Alah, razão e evolução eram as bases que o Xá Mohammed Zahir Shah, educado na França, tinha para sua gestão. O que ele não dimensionou foi que a rápida modernização da capital, iniciada por seu pai, o Xá Mohammed Nadir, começou a atrair o povo dos estéreis vales do restante do Afeganistão. A medida que chegavam à cidade, traziam na bagagem a esperança casada com a pobreza. Ela, mãe de todas as mazelas.

Aos desafortunados desatendidos, aos descrentes da política, a bandeira vermelha chegou em 1979, com 10 mil pares de botas marchando sobre Cabul e cobrindo de poeira toda a nação já engasgada com o pó provocado pela desigualdade. O Xá nada pode fazer. Quando acordou do seu sonho, o Afeganistão já havia se perdido no meio da ignóbil e pusilânime ambição bilateral da Guerra Fria.

Aqui no ocidente temos ideia do que foram os anos 60 para os moradores de Cabul.  Uma reportagem do Bored Panda revela da época, sob os olhos do professor americano Bill Podlich, expatriado em Cabul em 1967 a trabalho pela Unesco.

Ao todo, são 20 imagens que traduzem o espírito tranquilo e a desigualdade naquela época em que a modernidade começava a chegar no árido Afeganistão.

#1 Jovem fotógrafa nos Jardins Paghman

Após a guerra civil...

E hoje, restaurado:

#2 Estudantes em aula na Escola de Docência de Cabul

#3 Viagem de ônibus

#4 Sala de aula mista

Hoje:

#5 Colegiais

Hoje:

#6 Dança no jardim de infância

#7 Sala de aula das classes mais pobres (Aulas no jardim)

#8 Um hound

#9 Decorando Bolos

#10 Irmã mais velha

Família classe média baixa atual no mercado

#11 Hora do rush

Hoje:

#12 Compartilhando chá e música

Histórico concerto de rock só para mulheres em Cabul, em 2010, performado por Farhad Darya:

#13 Escola Americana Internacional em Cabul

#14 Comprando scarf

Comprando scarf hoje:

#15 Loira e afegãos

#16 Estacionamento da Escola Americana Internacional em Cabul

#17 Fritando a sobremesa (são bolos tradicionais afegãos)

Pastel!

#18 Desfiladeiro em Cabul

#19 Motorista de ônibus

Atual ônibus municipal em Cabul:

#20 Túnel Salang 

Hoje:

#Bonus: Estudantes universitárias em Cabul

Estudantes universitárias de Cabul hoje:

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