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'Quadro em Branco' e 'Meteoro': O YouTube brasileiro além de treta e amoeba

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Já abriu a página “Em alta” do YouTube esses dias? Nem tenta… É meio complicado. Dei uma olhadinha agora e posso dizer que tem desafios bizarros, melhores momentos de jogos de futebol que passaram na TV (sem os direitos autorais necessários), algum Minecraft (ainda), o Nando Moura falando alguma groselha para pré-adolescentes desavisados e tiozões que chamam o golpe militar de “revolução” e vídeos dos Irmãos Neto espalhados aqui e ali, inclusive alguns falando mal deles ou colocando-os na thumbnail para atrair cliques. Essa abaixo é a thumbnail que eu vou usar no post, e não deve atrair muitos cliques, apesar de Nietzsche estar fumando unzinho com boné da Obey. Mas tem tudo a ver com o que vou falar, acredite. 

'Quadro em Branco' e 'Meteoro': O YouTube brasileiro além de treta e amoeba

Não tem absolutamente nada errado em se divertir sem preocupação nenhuma. Mas não tem só isso no YouTube. Tente pensar no YouTube como uma livraria. O que vende mais atualmente está sempre na vitrine, mas nunca serão os melhores livros do acervo. Eu sei que está cada vez mais difícil achar uma livraria, mas a metáfora se sustenta no plano das ideias, vai…

Se você quer do YouTube mais do que essa máquina devastadora de escapismo, pelo menos dois canais ainda na faixa dos 100 mil inscritos merecem seu clique. Ambos usam produtos culturais - livros, discos, músicas, filmes, quadrinhos, animações… - para reflexões e interpretações cruzadas. Parece chato, né? Não é. Juro que não.

QUADRO EM BRANCO

Lembra do Nietzsche pronto pro baile ali em cima? Há algum tempo nos cafundós do Twitter algumas vozes roucas repetem elogios aos vídeos do Quadro em Branco, canal de Henrique Jacks e Otavio Oliveira. Eles têm 150 mil inscritos e muitos, muitos fãs devotados. Não é à toa. Quem, em um mesmo vídeo, conseguiu estabelecer uma discussão coerente sobre autoestima misturando o rapper Frank Ocean, o Goku do desenho Dragon Ball, um desfile da Fashion Week, o mangá Helter Skelter e o filme Demônio de Neon, tudo em pouco mais de cinco minutos? Eles conseguiram, aqui:

Eles falam muito rápido e às vezes é preciso voltar um pouquinho para entender uma frase? Sim. Mas é o de menos. São inúmeros os exemplos de vídeos assim, entrelaçando produtos culturais para construir uma ideia. Outro vídeo deles que vale menção é sobre o amor na era digital, unindo ideias dos filósofos Goethe e Zygmunt Bauman, ilustradas com imagens de filmes como Her, Azul é a cor mais quente e até Aladdin, o desenho da Disney.

METEORO

O Meteoro, com 50 mil inscritos, também faz pensar, mas é um pouco diferente. Tem uma linguagem infantil na narrativa, mas fala de coisas sérias, fazendo com que pais e filhos possam aprender juntos. O vídeo mais incrível relaciona o seriado Chaves com o filósofo Diógenes. Fala sobre o cinismo usando um dos episódios mais profundos da historinha de Roberto Bolaños, quando Seu Madruga vai vender os churros que Dona Florinda preparou.

O canal nasceu em abril deste ano e os responsáveis decidiram não mostrar o rosto nem divulgar suas identidades. Sobra apenas a informação, agregando ciência e filosofia a conteúdos que crianças consomem e/ou adultos consumiram quando criança. É muito bonito o vídeo que usa um episódio do desenho Thundercats, que fez parte das crianças dos anos 1980 e foi reeditado para as de hoje em dia, para falar sobre a morte, um tema bastante espinhoso. Eles, quem quer que sejam, deram uma aula de delicadeza.