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Treta entre estrelas da Twitch brasileira faz lembrar o pior do YouTube

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Eu estava pronto para escrever sobre a pujança criativa da comunidade brasileira de criadores de conteúdo da Twitch, a empresa de stream da Amazon que venceu a guerra do ramo contra a Azubu e agora enfrenta o YouTube Gaming olhando pelo retrovisor. O gancho que parecia perfeito foi a stream em que Neymar Jr., o craque da Seleção Brasileira, nossa grande esperança do hexa na Rússia em junho, participou com o "parça" Cris Guedes (dono do canal) jogando PlayerUnknown’s Battlegrounds, o jogo de tiro mais famoso do momento. Foi uma festa! Mas depois veio o pesadelo.

Treta entre estrelas da Twitch brasileira faz lembrar o pior do YouTube

Tenham apenas em mente que este virou um post sobre negócios, e não especificamente sobre a treta que envolveu alguns dos gigantes da plataforma depois de tempos de bonança. De repente, a Twitch entrou na mesma lama de polêmicas estúpidas do YouTube brasileiro, logo quando se tornava a opção “do bem”.

A stream com Neymar marcou a ferro e fogo um dia histórico na Twitch BR. Depois do burburinho de que o jogador de futebol mais valioso do mundo estava online, Tiago “SkipNhO” Lannes, Bruno “aXt” Habitzreuter e Joseph “Tecnosh” Touma (vou dizer os nomes dos envolvidos direta e indiretamente apenas uma vez, a partir daí vou usar apenas os nicks: quem conhece, sabe; quem não conhece, não liga), três gigantes brasileiros da plataforma de games, fizeram partidas fechadas de PUBg para que todo mundo online no momento pudesse jogar com Neymar. E ninguém é bobo diante de uma oportunidade dessas: de repente, muitos dos grandes nomes da Twitch começaram a pipocar online. Estavam certíssimos. É um sonho jogar com Neymar, o grande ídolo brasileiro no esporte. Mas também é ótimo para os negócios. Lembra que este virou um post sobre negócios?

Treta entre estrelas da Twitch brasileira faz lembrar o pior do YouTube

No time de Neymar, que jogou com o nick 3n3J0Ta10 (ene jota 10, Neymar Jr. 10), estavam, além de seus "parças", os ídolos da Twitch brasileira SkipNhO, aXt (de quem já falei AQUI) e Tecnosh (os três alternaram-se em montar as partidas personalizadas) e LulaDoPUB (imitador anônimo do ex-presidente, de quem já falei AQUI). Fecharam um time de 10 membros, e outros grandes nomes da Twitch brasileira que chegaram depois só puderam entrar em times contra, apesar de darem um “alô” na chamada de voz coletiva: SilvioSantosDoCS (imitador anônimo do apresentador, de quem já falei AQUI), Bernardo “BiDa” Moura (principal narrador de Counter Strike no Brasil) e Guilherme “Tixinha” Cheida (comentarista profissional de League of Legends), entre outros.

Aquelas partidas em uma segunda-feira, dia 8 de janeiro de 2018, pareciam o indício de que o ano seria glorioso para alguns dos maiores nomes da Twitch, o mesmo ano que começava com a polêmica de Logan Paul no YouTube e uma discussão sobre o quanto a “outra plataforma” acabava dando valor às tretas em busca de maior alcance (falei sobre isso AQUI). Quase todos os envolvidos fizeram vídeos hilários das partidas no YouTube, capitalizando e tirando aquela onda merecida por terem jogado com o "menino Ney". Durante o jogo na Twitch, aliás, todos os canais que transmitiam ao vivo bateram seus recordes de espectadores simultâneos, passando inclusive estrelas mundiais da plataforma que estavam online ao mesmo tempo, como o canadense Michael “Shroud” Grzesiek, ex-jogador de Counter Strike da equipe americana Cloud9 que virou streamer.

O impacto poderia inclusive render bons negócios futuros com patrocinadores. Que marca não gostaria de ter tirado uma casquinha de um episódio tão divertido, com um astro mundial do esporte mais popular do mundo? No dia seguinte, Neymar pediu à empresa que faz o PlayerUnknown’s Battlegrounds que lhe desse um servidor. Ou seja, tudo indicava que as peladas online de PUBg estavam só no começo.

Para se ter uma ideia da festa que parou a Twitch brasileira, os melhores vídeos são do Tecnosh…

… e do SkipNhO.

Dias depois, os recordes de visualização de pelo menos quatro dos canais envolvidos bateriam novos recordes de espectadores simultâneos, mas dessa vez por um péssimo motivo. Toda aquela paz e harmonia do dia 8 de janeiro virou uma vergonhosa briga generalizada virtual. Tão vergonhosa que virou tema de vídeos do Treta News, canal do YouTube especializado em chafurdar nas polêmicas e brigas dos youtubers brasileiros. Encontrou adubo e lama suficientes entre os streamers.

Apesar da análise do Treta News ser totalmente parcial e limitada, não vou entrar aqui em muitos detalhes extras. Ainda no ano passado, Mateus “yeTz” Vieira, jogador de League of Legends que largou o competitivo para virar streamer, tinha o contato de uma equipe estrangeira chamada Luminosity Gaming e viu a oportunidade de montar um time de streamers brasileiros para jogar PlayerUnknown’s Battlegrounds. O contrato não era focado no cenário competitivo, já que a LG já tem um time oficial do jogo nos Estados Unidos, que viaja para as competições internacionais. A LG BR ia, no máximo, brincar nos campeonatos nacionais e divertir a galera, uma fanbase combinada bem grande. Em troca, a LG ofereceria um contrato de minutagem, dinheiro que repassaria aos streamers.

Para participar, yeTz chamou aXt, que mora com ele, e dois streamers que ainda não tinham contrato de minutagem: Tecnosh e Sérvulo “Sheviii” Júnior. Os três acabaram se desentendendo com Sheviii e substituíram-no por SkipNhO, outro ainda sem um bom contrato. Daí - olha como eu vou correr com isso agora… - apareceu um qualificatório de PUBg para brasileiros agora em janeiro, SkipNhO achou que eles iam jogar como LG, yeTz, que montou o time de streamers, sequer jogava PUBg mais (tinha voltado para as streams de League of Legends), aXt e Tecnosh montaram um time com outros dois amigos para participar do qualificatório, deixaram SkipNhO 12 horas sem notícia, SkipNhO entrou na call de aXt enquanto ambos streamavam e bateram boca ao vivo, Sheviii acabou tomando partido de SkipNhO… Explodiu a polêmica. Um mal entendido que ficou sério demais e acabou envolvendo até namoradas/esposas dos streamers, uma covardia que não tem nem nome (ou é tão feio que eu não publicaria). E o público da Twitch, que assistia todo mundo na boa, dividiu-se como o Mar Vermelho. Moisés, no caso, foi a treta. Na metáfora, gente... Não tem nenhum Moisés streamer. Eu acho.

Treta entre estrelas da Twitch brasileira faz lembrar o pior do YouTube

Nesse ponto é a hora certa de dizer que os quatro principais envolvidos, aXt e Tecnosh de um lado, SkipNhO e Sheviii do outro, são comunicadores fantásticos, e de estilos completamente diferentes. Dão, até pelas diferenças, um tempero todo especial à Twitch brasileira.

Um a um: aXt tem um jeito cantado de falar típico de Santa Catarina, onde nasceu e cresceu, e tem um humor ácido que às vezes flerta com o politicamente incorreto, para delírio da molecada, que repete seus bordões (“xesquedele”, “dereguejonhson”...) como quem canta um refrão pop chiclete; Tecnosh é um jovem adulto que fazia stream de LoL mas descobriu-se bom mesmo quando passou a absorver com humor as piadas de “gordo” e “viado” de seu chat e começou a acertar umas balas inacreditáveis em jogos de tiro como H1Z1 e, principalmente, PlayerUnknown’s Battlegrounds; SkipNhO tem o sotaque e a marra do carioca combinados perfeitamente com o fascínio quase infantil e contagiante de um moleque que adora jogar videogame e se empolga com isso; Sheviii, o último dos quatro a conquistar o sucesso - muito com a ajuda de aXt no começo, diga-se -, é um premiado fisioculturista que "inventou" seu próprio inglês para sacanear os gringos nos games e faz a molecada dobrar ao meio de rir com os rages que dá, os sustos que toma e as lives que faz no bar, no cabeleireiro e, claro, na academia.

Sou muito fã dos quatro.

Tudo muito bom, mas nesse ponto é hora de dizer que eles, cada um do seu jeito, "cagaram no pau", como se diz no popular. Criaram um clima de animosidade que contagiou até o chat de quem nem teve nada a ver com isso - contudo, é bom lembrar que teve muito streamer malandro de fora da treta que passou a pagar de “santinho” para crescer em terras devastadas e, volta e meia, fazer piadinha a respeito, para não deixar ninguém esquecer. Mas este não é um post de treta, é um post de negócios, lembra? Até eu comecei a me esquecer disso. É tentador. E eu já expliquei por quê.

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Já falei em outros textos aqui no Storia sobre o encanto inato que o ser humano tem com a treta. Basta ver o burburinho que se forma quando há uma briga no colégio, uma fechada que deu em batida no trânsito, um tropeço de uma diva pop no palco… Mas isso é papel do público, e um aspecto negativo da audiência que pode ser facilmente controlado por um bom comunicador. E o papel do comunicador é ser profissional, a não ser que conte com o dinheiro de outra profissão. Os quatro, seja por perder a cabeça, seja deliberadamente, passaram longe disso. Imagina o diretor de marketing de uma marca olhando para isso tudo? Aliás, essa frase merece um parágrafo só para ela…

O que estaria pensando o diretor de marketing de uma possível patrocinadora olhando para tudo isso? Vendo streamer dizer que não fala mais do assunto mas inventar apelido para os envolvidos e rir de donates, citando-os todos? Vendo streamer dizer que não fala mais do assunto mas toda hora explicar em detalhes o que aconteceu para quem pergunta, jogando gasolina em um chat já inflamado? Vendo streamer dizer que não fala mais do assunto e toda hora dar a “explicação definitiva” sobre o caso, dando ainda mais argumento para a “explicação definitiva” do outro, e assim para sempre? Vendo streamer simplesmente sumir?

O público da Twitch é formado por uma grande maioria de crianças e adolescentes que gostam de games, e gostam de assistir gente jogando, seja pelo streamer ser bom naquilo, ser divertido ou ambos, sempre o melhor dos casos. E crianças e adolescentes não costumam ter maturidade, por motivos óbvios. São crianças e adolescentes. O chat da Twitch tem ficado insuportável até para quem não tem nada a ver com isso, e somos a maioria. Transmissões de outros gigantes da plataforma como Felipe “YoDa” Noronha (o "Whindersson" da Twitch hoje em dia) e Alan “Alanzoka” Ferreira, só para citar dois exemplos, viram um mar de esgoto quando o nome de qualquer um dos envolvidos é citado. Uma turma chama de “GOD”, outra chama de “LIXO”, e pronto… Fim de janeiro e essa escrotice ainda continua.

Treta entre estrelas da Twitch brasileira faz lembrar o pior do YouTube

Nessa briga, até conversas particulares com contratantes e detalhes de contratos com empresas foram revelados por ambos os lados para justificar este ou aquele ponto. Isso é muito, muito grave, e não pode ser repetido. Mas o mais urgente agora seria resolverem o que tenham para resolver como profissionais, fora do ar, sem pretensão nenhuma de transformar treta em espetáculo. Já tem gente o bastante de fora tentando fazer exatamente isso. Usando a metáfora do jogo do momento na Twitch, Sea of Thieves, de piratas, o barco da Twitch é um só. Quando existe alguma merda no YouTube, e ela se espalha entre os principais canais, é o YouTube e sua “molecada” que perdem a confiança dos patrocinadores e anunciantes. O mesmo pode acontecer com “essa molecada da Twitch”.

Criança vai sempre falar merda no chat (ou nos comentários, no caso do YouTube), até porque quem quer destruir e machucar sempre tem mais motivação para escrever do que quem quer demonstrar afeto e fazer elogios. O ódio pede uma acusação, um desabafo; o amor é, muitas vezes, apenas contemplativo e silencioso. E não tem nenhum lado com tanta razão assim para fazer odiar o lado contrário, o que deixa claro que o caos dos chats é coisa que criança querendo ver o circo pegar fogo e aparecer. Aliás, audiência construída na treta é etérea. As crianças crescem e amadurecem, afinal.

Como eu não tenho dinheiro para patrocinar ninguém, vou falar também como consumidor. Gosto de ligar uma stream para relaxar, dar risada, ver uma jogada mítica… já falei “dar risada”? E esse assunto pipocando toda hora faz a experiência ficar insuportável. Essa parte do público, silenciosa, existe e, acreditem, é a grande maioria. Só não fica comentando. É mais ou menos o público que fala quando o chat está em submode. Não fica uma beleza? Tem muita gente assim, mas que não deu sub ainda, ou não tem esse hábito. A gritaria acaba virando uma curvinha de nada no gráfico de seguidores, mas recebe toda a atenção de quem não saber ler estatísticas, parte do que é ser profissional.

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Quem grita é a minoria, e tudo volta ao normal

Saudade daquele dia 8 de janeiro, que foi há 20 dias mas parece bem mais. Sei que os quatro não vão dar as mãos em direção ao Sol, como no fim de uma comédia romântica, até porque algumas das cicatrizes são mais antigas (tudo, repito, coisa boba demais para virar ódio e, principalmente, estimular o ódio do público, muito menos para fazer piada babaca e preconceituosa). É uma ilusão confortável ouvir ou ler tanta gente do “seu lado” e achar que só você está com a razão, ainda mais quando está todo mundo um pouquinho errado. Aproveitando mais uma vez o sucesso do beta aberto de Sea of Thieves na Twitch, é com essa turba que o navio afunda e leva todo mundo junto. Com o tamanho da merda dita - aquela mesmo, que não volta para a boca - não vai ser fácil, mas é muito importante que todo mundo sente para resolver isso de uma vez. E vida que segue.