POLÍTICA

À noite tenho um compromisso e não posso faltar

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A história de um sequestro-relâmpago que atrasou a reportagem mais importante da Venezuela em 2011

À noite tenho um compromisso e não posso faltar

Além dos efeitos mais imediatos da crise econômica - inflação, recessão, desemprego, escassez de produtos, descontrole cambial -, um principais combustíveis da queda de popularidade de Nicolás Maduro na Venezuela tem sido o incontrolável aumento da criminalidade. O governo não divulga índices sobre o tema há anos, mas, em 2016, a ONG Observatório Venezuelano da Violência registrou 28.479 homicídios - 91,8 por grupo de 100 mil habitantes -, que convertem o país no segundo mais violento do mundo, atrás apenas de El Salvador, que registrou 103 homicídios por 100 mil habitantes. O Brasil, que não é nenhum exemplo nessa área, registrou 24 assassinatos para cada 100 mil habitantes em 2014, último dado disponível.

 Gangues de assaltantes, em busca, principalmente, de celulares e dólares, transformaram algumas áreas de Caracas em terra sem lei. O quase colapso do sistema elétrico causa interrupções na iluminação pública, agravando ainda mais o problema.

 Constatei pessoalmente esse drama venezuelano em 2011. Estava chegando ao país para a cobertura das celebrações do bicentenário da independência, que se teriam seu auge em 5 de julho. Cheguei ao Aeroporto de Maiquetía perto do anoitecer e, próximo ao balcão do serviço de táxi, fui abordado por um homem uniformizado, na faixa dos 60 anos, com o crachá do sistema de transportes. Perguntou se eu ia a Caracas e respondi afirmativamente. Cerca de 30 quilômetros separam o aeroporto da capital venezuelana, pela autoestrada que atravessa a área de La Guaira, ladeada por abismos e favelas superpovoadas.

 Percebi que havia algo errado quando vi outra pessoa ao volante da Meriva preta - a cor oficial dos táxis que saem do aeroporto. Sentei no banco traseiro e os dois motoristas iniciaram a viagem. A sensação de perigo ficou mais intensa quando notei que as maçanetas das portas traseiras tinham sido removidas. Foi o tempo de sairmos da delimitação da área de segurança do aeroporto para que os dois mostrassem suas armas e anunciassem o assalto.

 Disseram que queriam dólares apenas. Não se interessariam nem pelos celulares nem pelo notebook que eu levava, apenas os dólares. O ladrão mais velho passou para o banco de trás, me revistou e revirou minha bagagem. Encontrou alguns bolívares que sobraram da viagem anterior e US$ 1.800 na minha carteira e nos meus bolsos, mas me acusava de estar escondendo mais dinheiro. Rodaram comigo por cerca de 90 minutos, em meio a uma conversa tensa e recheada de ameaças. Finalmente, com a mala e a mochila do notebook, me deixaram em Caracas, perto do hotel onde eu tinha reserva.

 Liguei para o jornal, quase no fim da noite no Brasil, para relatar o incidente. Falei com o responsável pela edição, o subeditor Rodrigo Cavalheiro, que esperava ansioso meu telefonema. Mas não pela questão da segurança:  naquela mesma noite, Hugo Chávez tinha anunciado em rede nacional de TV que tinha câncer e eu tinha praticamente perdido toda a apuração da notícia mais importante do ano na Venezuela.

  

(O título deste texto é um trecho da canção “Apenas um rapaz latino-americano”, de Belchior, que morreu em 30 de abril)