POLÍTICA

Entre unicórnios e propaganda

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Por Roberto Lameirinhas

Entre unicórnios e propaganda

Kim Jong-un é um ditador sanguinário, a exemplo do que foram o pai e o avô, capaz de manter seu povo sob situação similar à de tortura, com comida escassa, vigiado constantemente e impedido de qualquer crítica ou tentativa de deixar o país. É muito provável que tenha realmente ordenado o assassinato do irmão mais velho, Kim Jong-nam, que caiu em desgraça no começo deste século ao ser flagrado com um passaporte falso com o qual tentava viajar para os EUA e visitar a Disneylândia.

 Mas uma dose extra de cautela é necessária em relação a todas as notícias que chegam da Península Coreana sobre a  Coreia do Norte. Pyongyang e Seul se mantêm tecnicamente em guerra - um armistício está em vigor há mais de seis décadas, mas nunca houve um acordo de paz entre as duas partes - e quase sempre os relatos de veículos de mídia da Coreia do Sul frequentemente merecem credibilidade parecida com a do Norte.

 Pouco depois de Kim Jong-un ter chegado ao poder, veículos sul-coreanos, como a agência de notícias Yonhap, apressaram-se a difundir informações que explicitavam a crueldade do novo líder. Uma dessas notícias era de que Kim tinha ordenado a morte de um irmão de sua mãe, lançando-o num covil de cães ferozes, que teriam devorado o cadáver. O líder teria ameaçado a própria mãe com o mesmo destino.

  Outra informação da Yonhap - amplificadas por jornais pouco confiáveis da região - era a de que o então novo líder tinha também sentenciado à morte uma ex-namorada de infância que o rejeitara anos antes. As notícias foram negadas por algumas fontes diplomáticas da Coreia do Norte no exterior, mas acabaram tomadas como líquidas e certas por veículos alinhados à propaganda sul-coreana ao redor do planeta.

 Agora, a informação é de que Kim Jong-nam teria sido morto em razão de sua militância por reformas no governo do irmão na Coreia do Norte. Se esse ativismo reformista existia, pouco foi dito a respeito dele.

 Quando ainda era o favorito para suceder ao pai na chefia do regime, Kim Jong-nam era retratado apenas como um playboy frívolo, apaixonado por carros importados e pela cultura do inimigo americano - como, aliás, também era retratado o Kim Jong-un.

 O problema é que a Coreia do Norte não é apenas um país miserável, governado por uma dinastia despótica que apresenta a seus cidadãos descobertas arqueológicas como fósseis de unicórnio e resultados esportivos como a edição de partidas da Copa do Mundo em que goleiam o Brasil. Mas se trata de um país nuclear que representa ameaça real principalmente a seus vizinhos.

  É provável que as geringonças atômicas que Pyongyang desenvolve sejam o exemplo mais acabado de força sem controle, capazes de explodir no colo de quem o transporte. Mas aquilo que, de fato, ocorre no interior do país só pode ser verificado, comprovado e eventualmente controlado pelo principal aliado da Coreia do Norte: a China. Boatos e propaganda barata só servem, neste caso, para distrair a opinião pública.