Na terra do pai do Estado Islâmico

Na terra do pai do Estado Islâmico

Por Roberto Lameirinhas

Era janeiro de 2015 e a coalizão liderada pelos EUA já dominava o território iraquiano havia quase dois anos. O Iraque realizaria, poucos dias depois, as primeiras eleições legislativas em décadas sem que estivesse sob o domínio de Saddam Hussein e seu Partido Baath. Partimos, então, eu e o premiadíssimo repórter fotográfico Juca Varella na direção de Bagdá para cobrir o processo pelo “Estadão”. Antes, porém, havia uma escala de alguns poucos dias em Amã, capital da Jordânia, de onde partiria o voo da Royal Jordanian para o Iraque.

 A parada em Amã era necessária para que pegássemos os vistos de entrada no Iraque e para que fizéssemos uma rápida incursão à Zarqa, cidade natal do sanguinário líder radical islâmico Abu Musab al-Zarqawi - chefe do grupo Al-Qaeda da Mesopotâmia e do Levante, que nada mais era do que o embrião do Estado Islâmico.

 Zarqawi chamava a atenção por sua biografia, uma das mais curiosas entre os líderes de facções que espalhavam o terror na região naqueles dias. Ele havia aderido ao Islã radical depois da falência de seu estabelecimento em Zarqa, uma video-locadora. Não deixava de ser interessante a trajetória do fracassado microempresário que alugava fitas K7 até a liderança de uma milícia de inspiração religiosa que punia até com a morte quem promovesse qualquer reprodução da imagem humana - em filmes, fotos, pinturas ou esculturas.

 Zarqa fica a cerca de 30 quilômetros de Amã e Juca conhecia um motorista - vamos chamá-lo pelo nome fictício de Mohamed - que se dispunha a nos levar até lá. Juca tinha conhecido o motorista numa viagem anterior o que nos dava alguma segurança para a viagem.

 Na manhã em que partiríamos para Zarqa, porém, Mohamed apresentou-se no hotel receoso. Queria que desistíssemos da viagem alegando que ela seria muito arriscada. Obviamente, não desistimos. Falando algo parecido com inglês, Mohamed chorou - literalmente - a viagem toda. Dizia que o local estava cheio de agentes da polícia secreta, que ele poderia sofrer consequências depois que fôssemos embora, que poderia ser confundido com um terrorista, que tinha não sei quantos filhos pequenos, etc.

 Nos comprometemos a fazer a apuração no local o mais rápido possível. Na cidade de Zarqawi, conversamos com algumas pessoas que também não queriam falar a respeito do líder jihadista e ficamos sabendo que o edifício onde funcionava a locadora já não existia. Terminada a difícil apuração, retornamos ao carro onde Mohamed seguia chorando.

 E chorando continuou até o retorno a Amã. Mas agora o motivo não era mais o temor da inteligência jordaniana. “Tanto trabalho e o dono da companhia (de táxi) vai ficar com praticamente todo o valor que vocês me pagaram”, queixava-se. Lamentava-se tanto que várias vezes interrompia minha conversa com Juca a respeito da logística do trabalho. Ao chegar ao hotel, pensamos em dar US$ 10 a mais para ele, mas o choro só acabou quando o valor da gorjeta chegou ao US$ 20.

  

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