POLíTICA

Não estou interessado em nenhuma teoria

Author

 

De todos os esforços da defesa de MIchel Temer para tentar inocentá-lo, o mais patético é justamente o que gira em torno de tentar desqualificar o áudio que prova a relação promíscua entre ele e um dos mais poderosos empresários do País, o dono da JBS Joesley Batista. E isso por uma razão muito simples: desde que as gravações ganharam publicidade, deixando aliados e opositores perplexos, Temer nunca, jamais, rejeitou seu conteúdo.

 Tenha ou não o áudio adulterações ou edições - em busca das quais a cleptocracia instalada no Planalto foi atrás do perito que tentou provar, em 2010, que uma bolinha de papel lançada contra o candidato presidencial derrotado, José Serra, era um projétil quase mortífero -, Temer declarou várias vezes que, sim, recebeu Joesley nos porões de sua residência oficial, na calada da noite e ouviu dele a cândida admissão de que estava negociando o suborno de juízes, promotores e outros funcionários públicos. Em declarações públicas e entrevistas, Temer nunca contestou o que estava gravado nem disse que não tinha dito o que disse. Limitou-se a afirmar que não acreditou nas “bravatas” de Joesley, a quem qualificou de “falastrão”.

 Temer nunca disse que desestimulou Joesley a realizar novos encontros nos subterrâneos, como aquele. E assentiu ao ouvir a sugestão de que seu interlocutor voltasse ao mesmo porão palaciano em ocasiões futuras, entrando pela garagem, “as 11 da noite, 11 e meia” - um esquema que tinha “funcionado bem” naquela noite.

 Seria lógica a desqualificação do áudio se Temer tivesse afirmado, logo depois da deflagração do escândalo, que tinha reprovado com veemência as afirmações de Joesley - e a parte da conversa em que ele teria dito “considere-se preso, caro cidadão” tivesse sido suprimida pela edição do áudio. Mas isso não aconteceu.  

 Por isso o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirma que, diante das seguidas “confissões” de que Temer manteve reunião secreta com Joesley Batista, o resultado da perícia da gravação é absolutamente irrelevante. E pede que Temer seja submetido a depoimento. Pela lógica, Janot está coberto de razão.