POLÍTICA

O voto do medo

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Por Roberto Lameirinhas

E, como se prognosticava, o confuso ataque do período pré-eleitoral - no qual um cidadão francês de origem muçulmana abriu fogo em Paris, matando um policial e ferindo outro - deu o fôlego necessário para que a extrema direita representada por Marine Le Pen chegasse ao segundo turno da eleição presidencial francesa. Pesquisas indicam que ela não deve chegar ao Palácio do Eliseu, uma vez que o centrista Emmanuel Macron chega à disputa final com maior capacidade de arregimentar o voto de eleitores do restante do espectro político. Mas a votação francesa demonstra, mais uma vez, que ao menos uma parcela significativa da população acredita que estará mais segura com o reforço da vigilância, o fechamento das fronteiras e a acentuação do caráter policial da sociedade.

O voto do medo

 Marine Le Pen politizou, como seu pai já o fizera por décadas, a questão da imigração e a defesa radical da xenofobia. Não são poucos os franceses que atribuem a maior parte de suas mazelas - não só econômicas, mas também de segurança - à integração com a União Europeia e ao viés multiculturalista predominante principalmente nas grandes cidades francesas.

 A novidade, desta vez, é que os dois maiores partidos - o gaullista (ou republicano) e o socialista - estão fora do páreo. Seus líderes mal esperaram a divulgação dos números do primeiro turno para correr para o colo de Macron, um jovem economista que se apresenta como um outsider que agrega elementos da centro-direita à agenda europeísta e moderada em relação às questões de imigração da esquerda.

 O ressentimento dos franceses com os imigrantes e seus descendentes cresceu exponencialmente desde janeiro de 2015 quando uma dupla de jihadistas agindo em nome do Estado Islâmico invadiu a redação do semanário satírico “Charlie-Hebdo”, em Paris, e matou 12 pessoas - cartunistas da publicação, na maioria. Seguiram-se ataques de menor intensidade até novembro daquele ano, quando um comando terrorista deixou mais 130 corpos em ações simultâneas na capital francesa, incluindo na casa de shows Bataclan. No ano seguinte, em pleno 14 de Julho, a data nacional, em Nice, um caminhão atropelou e causou a morte de outras 80 pessoas.

 Apesar de o pai de Marine, Jean-Marie Le Pen, ter chegado ao segundo turno de uma eleição presidencial, em 2002, o radicalismo xenófobo de seu movimento causava grande rejeição entre os eleitores franceses. Principalmente em razão do antissemitismo explícito e da retórica de negacionismo do Holocausto. Ambos, pai e filha, defendem a tese de que o regime de Vichy não exerceu nenhum papel no extermínio de judeus durante a 2.ª Guerra.

 Quando voltaram suas baterias contra a imigração árabe e muçulmana, porém, viram a repulsa às suas posições se reduzir substancialmente. Não ainda a ponto de converter Marine Le Pen em favorita para assumir a presidência francesa, embora Donald Trump e a votação do Brexit, no ano passado, tenha demonstrado que o voto envergonhado, aquele que as pesquisas não registram, nunca deve ser subestimado.