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Sua fila meu prazer - Uma história de abastecimento em São Paulo

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Quinta-feira, dia 24 de maio. Já haviam três horas e meia quando a gritaria começou. Confesso que já estava monótono ficar torcendo para nenhum motoqueiro arrancar meu retrovisor e nenhum assaltante tentar quebrar o vidro que estava com uma pequena fresta aberta do lado esquerdo traseiro - sim, essa técnica visa ludibriar aqueles que só assaltam quando veem os olhos do motorista e as mãos para evitar o revide, além de permitir renovar o ar dentro do carro.

Esbraveja o indivíduo um “pega a p...ra da fila” enquanto o dois mantêm silêncio. Depois de várias buzinadas e um sortimento de xingamentos admirável - com certeza os linguistas precisam consultar esse cara antes da próxima revisão do Houaiss - o número dois desiste da fila e sai cantando pneu.
Somente nesse momento enxergo a placa com o preço do combustível: “Você pode pagar até R$ 2,464³ no etanol e R$ 3,98³ na gasolina, preço normal etanol R$ 2,57 e gasolina R$ 4,15”. Nessa hora penso “Que pechincha. Tem lugar vendendo um litro de gasolina por R$ 10”. Só faltavam cinco carros.

Durante toda a espera o momento mais tenso ocorria ao andar uma vaga. Tinha que ligar rápido o carro e tomar o espaço vazio para nenhum espertalhão cortar a frente e fazer a espera aumentar mais que o necessário.

Quando faltava apenas um carro para minha sonhada vez, a bomba que ficava disponível para a fila paralela que começava na outra rua ficou sem combustível.

Uma nova confusão se instaurou quando o operador de abastecimento começou a comandar alternadamente as filas para a bomba disponível, sobrando inclusive para a mãe e todos os parentes vivos e mortos dele. Somente hoje que tomei a consciência da importância da profissão do frentista.

Finalmente chegou a minha vez: ”etanol ou gasolina?” Sem titubear, respondo “Coloca o que tiver, pode ser etanol.”
Fico observando a bomba enquanto ele vai orientar o próximo motorista. Vinte litros de etanol saem por mais de 80 reais. Faltei em várias aulas de matemática, mas o valor está saindo por 4 reais. Decido nem reclamar, afinal a possibilidade de um apocalipse zumbi causado por uma greve de caminhoneiros em todo o Brasil junto com a passividade e indecisão do governo está se tornando real e fico imaginando as pessoas desesperadas tentando tomar meu rico combustível. Pago e saio sorrindo para o simpático trabalhador.

Antes de ir embora, ele me interpela “É verdade que vocês estão esperando três horas -” “Não, são cinco horas” respondo com a alegria de quem ganhou na loteria” Meu amigo replica “Ah, nem parece que foi tanto”. Pois é, sua fila meu prazer.