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O que é conservadorismo (ou por que ele vem ressurgindo)?

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Nestes tempos de debate político acalorado, e cheio de espinhos, chamar alguém de conservador é quase uma injúria, mas a história desta corrente de pensamento e até mesmo a história do Brasil nos falam o contrário.

O que é conservadorismo? O conservadorismo não é uma ideologia, mas sim uma maneira de ver e conceber o mundo. Ser conservador não significa sonhar com o retorno dos dias de glória do passado, mas usá-los como uma boa base teórica e de experiências adquiridas pela sociedade como um tal, a fim de poder melhor construir um futuro tão glorioso como o passado.

O conservador é uma pessoa que acredita que há na história da humanidade e na sociedade humana algo digno de ser salvo - de ser conservado - a fim de que estabeleçam pontes entre o passado e o por vir. E é esta a missão do conservador: estabelecer pontes seguras e bem firmes entre a sabedoria do passado e as ações que constroem o futuro.

Além disso, o conservador acredita que diversidades e diferenças são inerentes à natureza humana, de modo que justiça significa que todo homem e mulher tenham direito ao que lhe é próprio de acordo com suas características e natureza. Para o conservador, a liberdade é essencial aspecto da humanidade e sem ela somos fantoches do estado onipotente e onipresente que retira do cidadão o poder de se expressar e ser como bem querer.

Por que no ser conservador no Brasil é sinal de atraso ou de apego a um passado longínquo? Bom, primeiro pelos sentidos que a palavra evoca, e pelo apego que os conservadores têm à tradição. Conservadorismo não é sinônimo de retrocesso. O conservador é um cético por natureza, e o é em especial com relação ao homem e à sociedade - aquele que possui tal visão de mundo não confia cegamente no ser humano e na sua capacidade de buscar o bem comum e a verdade, e desconfia com mais intensidade ainda de quem diz lutar por um mundo melhor e por uma sociedade mais igual - e dessa forma, ele é visto como um pessimista ou um chato.

Nós, conservadores, somos chatos. Mas também estamos certos! - Roger Scruton

Além disto, o conservador é visto com maus olhos no Brasil por conta da ditadura. O que une essas duas coisas? É que no senso comum - ou na "história oficial", como se diz em análise do discurso - ambos são de direita. Em nosso tempo, o sentido de esquerda e direita foi perdido e praticamente não há mais uma completa coerência entre estas correntes, de tal forma que uma nomenclatura mais objetiva e correta facilita o debate político e a compreensão dos fatos. Desta forma, o conservadorismo surge como uma face do espectro político, assim como o liberalismo, o progressismo e o revolucionarismo.

O senso comum é difícil de ser alterado pois requer cerceamento dos sentidos e uma condução ao pensamento que se quer - tarefa que exercem os meios de comunicação, a escola, o Estado. E os conservadores não possuem quórum para reconfigurar a história oficial e o pensamento da massa, que hoje em sua maioria considera conservadorismo e retrocesso sinônimos de igual valor e tratam-os com o mesmo desprezo.

É preciso lembrar que no começo deste país, quando ainda éramos império junto com portugal e comandados pelo rei D. João VI - e depois por D. Pedro I e D. Pedro II -, havia apenas dois partidos que atuavam na política nacional e eram eles os liberais e os conservadores. No caminho até aqui nos esquecemos destas duas correntes de pensamento que formaram a história e a identidade política e social desta terra, e nos entregamos nas mãos de uma ideologia farsante e falaciosa.

Por que o conservadorismo e o liberalismo estão ressurgindo agora no Brasil? Existem dois modos de se pensar esse movimento "de direita" que tem surgido no Brasil:

Primeiro: assim como a economia, a política é movida por ciclos, que se delineiam aos poucos de acordo com a situação do país. Quando em 2002 o Partido dos Trabalhadores subiu ao poder, foi com o discurso de que votar no PT seria a quebra do establishment - a quebra do poder daqueles estabelecidos em cargos políticos e de suas ideologias e sistemas. Algo semelhante ocorre hoje, com Jair Bolsonaro (PSL) e João Amoêdo (Novo) e o ex-pré-candidato Flávio Rocha (PRB), todos estes trabalham seus discursos com base na ideia de rompimento com a hegemonia política progressista e revolucionária que havia se apossado do país e também trabalham suas falas incutindo e reforçando no imaginário do público que os ouve que são alternativas para a quebra desse estabelecimento que se apodera da política nacional.

Segundo: há pouco tempo saíamos de um período de regime militar, que o senso comum chama ditadura, e que reconhece como sendo de direita - o que englobaria liberais e conservadores. Tal movimento histórico deixou marcas no imaginário coletivo do povo brasileiro de tal forma que hoje os que se dizem abertamente conservadores ou liberais são poucos, vozes normalmente cansadas na luta por espaço e voz na sociedade, que é tomada por pessoas de mentalidade revolucionária ou progressista.

Somados os dois, temos um ambiente fecundo para a formação desta corrente que tem enriquecido a democracia brasileira e favorecido esta época marcada por debates e discussões sobre as melhores formas de se governar e os melhores programas políticos.

Para maiores informações sobre o conservadorismo, clique aqui.

Vinícius de Carvalho Duarte | duarte.viniciusunisul.br