'TE GUSTA FIDEL?'

'TE GUSTA FIDEL?'

Cuba
Collection Cuba

Entre pousar em Havana e sair do aeroporto José Martí, um episódio, digamos, interessante. Tomei a vacina de febre amarela no Brasil, mas fui viajar sem o certificado internacional da Anvisa. A médica cubana que me recebeu na imigração, depois de ouvir que eu não tinha o documento, já se utilizou de algo que até aquele momento eu chamaria de jeitinho brasileiro, mas que acabou virando jeitinho latino mesmo. Afinal, a raíz é a mesma, né? “Eu vou escrever aqui que você tem a vacina e se qualquer pessoa nesse país perguntar se você tomou, você diga que sim e que perdeu o papel da Anvisa. Tá me entendendo!? Caso contrário, você acaba com o meu trabalho”. Ok, era pra ser, era a minha vez de estar em Cuba. Passei, aliviada. Mas não completamente até a companheira, que também não tinha o documento, receber a segunda dose do jeitinho latino.

O carro que nos levou até a cidade era amarelo, antigo, meio sujo, sem cinto de segurança e pegava só no tranco mesmo. Ainda não podíamos dizer que aquilo já era “a cara de Cuba”, pois não conhecíamos nada. Mas, a hora que o Pedro, motorista, ligou o som, sim... estávamos em Cuba. A Rumba tocando alto ao longo de todo o caminho acompanhou uma paisagem que, até então, pensávamos ser coisa de filme, ou pelo menos não tão caracterizada, como antes da abertura diplomática. Grande engano. Outdoors em homenagem à revolução, grafites socialistas nos muros, bandeiras cubanas por todos os lugares, os rostos de Fidel e Chê estampados em grande escala na maioria das construções. Para cada quilômetro a mais no trânsito, um ano a menos na nossa impressão de tempo.

O apartamento da Dona Lisette, no Vedado, era bacana. No quarto andar de um prédio que, como todos os outros, não tem elevador, e sim uma longa escada em caracol para subir com as malas. Abrimos a janela do quarto e lá de cima, a vista era dos topos dos prédios envelhecidos, os emaranhados infinitos de fios elétricos, a barulheira dos carros antigos e muita, mas muita fumaça de diesel saindo dos escapamentos. Havana não mudou nada, apesar de estarmos lá pela primeira vez e portanto não termos outro referencial. Na verdade, era o imaginário que se cumpria.

Com o passar dos dias, as contradições dessa sociedade segregada do resto do mundo, gritavam. Cada encanto era imediatamente invadido por algum estranhamento: a história viva pela decadência; o forte idealismo pela pobreza generalizada; o acolhimento pela exploração do turista; o acesso à educação e saúde pela enorme falta de higiene; o amor ao próprio país pela falta de algumas liberdades; a dedicação ao socialismo pela falta de cuidado com o patrimônio da revolução; o viver bem com o mínimo pelo não viver tão bem assim com o mínimo; a ausência de violência pelo assédio em absolutamente todos os lugares; moradia para todos pelas construções literalmente caindo aos pedaços.

A ausência de violência pra nós, tão acostumados e acomodados com a presença dela, era quase que um incômodo! Pessoas que te abordam na rua para saber quem você é, inicialmente te assustam, mas na verdade, elas querem mesmo saber de onde você vem, se está gostando de Cuba – preocupação unânime – quanto tempo passará no país, e o mais importante, quando você volta. Eles esperam que você retorne à casa deles, para que possam te oferecer um almoço, a típica comida cubana. O turista é uma porta de acesso ao mundo que eles ainda não podem sonhar em conhecer. Sair do país? Só a convite formal de um cidadão estrangeiro, ou casando com um gringo. Apesar de tudo isso, do jeito deles, os cubanos adoram o Brasil, pelas novelas, pela música, pelo futebol, e por nós mesmos que vamos visitá-los e nos mostramos interessados por aquela realidade. Pode apontar a câmera na cara de qualquer um, eles não te pedirão que lhes envie as fotos, mas apenas que mostre como ficou... é suficientemente divertido e simples, como jogar dominó na rua com os amigos. A rua, que é uma extensão da casa de cada um, aonde se compartilha do mesmo tempo, da mesma comida, da TV, do rádio e do papo.

Um homem, em uma rua de Habana Vieja, veio conversar depois que pedi licença para tirar uma foto dele com os amigos na mesa de dominó. A foto era tão incrível que ele podia me perguntar o que quisesse. Mas na verdade, ele só queria saber o básico e fui eu quem aproveitou para praticamente interrogar o senhorzinho. “Te gusta Fidel?” Que dúvida a minha... Ele abriu os braços como se a resposta fosse óbvia. “Claro! Me gusta mucho, nascí com Fidel, cresci con el”. Ele e o Fidel nasceram na mesma cidade, e de acordo com ele, foi o comandante que lhe permitiu ter todas as condições de vida que tem. Não são muitas, é verdade, mas ele era claramente feliz ali. “Tienes que ir a Brasil”, falei pra ele. Ele concordou, mas falou também que se não puder, não tem problema, porque ele gosta da vida que leva e sabe que os brasileiros estarão sempre em Cuba. É, a raíz do conceito de felicidade é outra, quem sou eu pra achar que a vida dele é restrita demais? Qualquer pensamento a esse respeito acaba virando apropriação de uma vida que não tem nada a ver com a minha.

Sair de perto dele para continuar caminhando era difícil. E das crianças que nos rodeavam, então, nem se fala. Elas pediram “caramelitos”, mas a gente infelizmente não tinha, então todos os chicletes que estavam dentro da nossa mochila, ficaram com eles. Era uma forma de retribuir aquele momento, que nos invadiu com amor e uma certa dose de pureza e ingenuidade.

E aí vem uma contradição, que nos acompanhou durante toda a viagem. Algumas abordagens tinham outro perfil, o do assédio, constante e difícil de engolir. As cantadas, proposições, assobios e outros tipos de som que evitemos classificar, se acumulavam dentro da gente. E só tendo uma companheira do lado para poder botar pra fora esse sentimento. Famosos “esquerdo-machos”, como chamamos hoje. Entre as reflexões sobre assédio, surgiu uma questão entre nós duas: o comportamento de Che Guevara em relação às mulheres. Por um lado, não queríamos pensar naquela figura tão simbólica como um possível machista. Mas pelo contexto político e pela época, era de se pensar que sim... Apesar de muito bonito, charmoso e politicamente atraente, o comandante tendia a ser homem demais. Ele andou conosco em formato de livro e nos confirmou essa informação. Mas, para quem viveu só até 1967 – importante lembrar que contra a própria vontade -, é, se não totalmente compreensível, ao menos justificável.

Voltando à ausência de uma violência mais “genérica”, que atingiria homens e mulheres, com roubos, sequestros e afins, ela não está em Cuba por duas razões: igualdade social e cultura. O cubano tem orgulho de cultivar uma sociedade pacífica e não precisa tirar nada de ninguém. O básico, para viver em condições minimamente dignas, é um direito bem atendido pelo Estado: comida, educação, saúde, trabalho, moradia, transporte e acesso à cultura.

“Não fale de Cuba sem conhecê-la”. Eu disse isso para algumas pessoas depois que cheguei no Brasil, e acho que pode ter soado arrogante. Mas, é sincero. Não no sentido de que você não pode falar sobre o assunto, imaginar como é. Talvez seja melhor dizer que seria injusto fazer qualquer julgamento sobre o país e seu sistema, sem antes pisar nele, desfazer qualquer conceito pré-estabelecido e começar e refletir, do zero.

As fotos do nosso quarto na casa do Sr. Octavio, onde nos hospedamos em Trinidad, não agradam aos olhos. E não é muito diferente ao vivo. Mas esse senhor, com seus 60 e poucos anos, estava nos esperando na rodoviária, quando chegamos. Os nossos nomes, escritos à caneta Bic cubana num sulfite, “Bruna e Silvia, do Brasil”, nos livraram de barganhar um táxi em meio a mais de 20 motoristas fazendo qualquer coisa para fechar uma corrida em pesos conversíveis. Andamos até a casa dele, pelas ruazinhas de pedra e terra, entre as casas coloridas do período colonial. Trinidad é patrimônio histórico.

O Sr. Octavio nos ofereceu o café da manhã - que poderíamos optar por ter e pagar à parte da diária da casa -, passou e repassou a lista do que queríamos, para evitar se esquecer de algum item na manhã seguinte. Nos ensinou até como ligava o ar condicionado e o chuveiro – que só teria água quente se nós não puxássemos a descarga antes de entrar no banho. Xixi? Melhor fazer depois. Era importante também torcer para que ninguém na casa tomasse banho ao mesmo tempo ou resolvesse lavar a louça. Afinal, ensaboar o cabelo poderia não necessariamente ser seguido de um enxágue. De manhã, algum meio de comunicação estava ligado, alto, e à distância soava como se fosse a TV. Mas, na sala, o pai de Sr. Octavio, sentado na cadeira de balanço, ouvia só o rádio mesmo. A TV também estava lá, só que em silêncio.

O interesse para entender como funcionava o sistema de subsídio estatal nos levou a um longo papo com Sr. Octavio durante o primeiro café da manhã. Ele é bombeador de água no sistema de abastecimento e ganha 355 pesos cubanos por mês, equivalente a 14 dólares. Com a camiseta dos 60 anos da revolução pra dentro da calça azul marinho e mocacins nos pés, ele nos mostrou a caderneta de compras do mercado. Nos explicou como funcionavam os preços e quantidades, de uma forma muito objetiva, não tinha enrosco com ele, e nem opinião política no meio. Entender aquilo foi crucial para irmos até um mercado do governo, uma bodega, assim que saímos de casa. Entramos, os atendentes estavam ocupados com as vendas. Tinha uma lousa na parede indicando a relação de preços/quantidade per capita, para cada alimento. A estante de armazenamento estava cheia, mas a conservação das coisas era duvidosa. Um saco enorme de farinha, aberto atrás do balcão, no canto de uma parede. Óleo em garrafas pet, preço escritos à mão em pedaços de sulfite e um quadrado da estante de madeira dedicado à comida gratuita para bebês que nascem desnutridos. Engolir tudo aquilo era quase que literalmente, difícil. Um atendente concluiu a venda e nos perguntou se precisávamos de algo. Era a hora de sair perguntando tudo, para tentar concluir alguma coisa sobre alguma coisa. Chegar a uma conclusão talvez tenha sido o maior desafio dessa viagem. As condições da bodega não nos agradaram, mas a atenção que nos foi dada pelo vendedor que não ganharia nada conosco e a concretização da ideia de que todo cubano realmente tem acesso à comida, nos deixou menos agoniadas com aquele acúmulo de questões internas.

A densa manhã se seguiu por um passeio de bicicleta quase que poético, fílmico. Destino: Península de Ancón, famosa pelas praias cristalinas. As estradas em Cuba não tem margem delineada, nem quase sinalização ou acostamento. O bom senso prevalece dentre todos os tipo de veículos que passam por elas e o fato de não serem muitos, contribui para um funcionamento natural desse trânsito. De um lado, as montanhas, do outro, os mangues sem água por conta da maré ainda baixa. Um sol estalando e completando um visual libertador e ao mesmo tempo ameaçador, meio vazio. Talvez aquele nível de liberdade que não estamos acostumados a ter e que nos amedronta. Ao longo dos 10km de estrada, o equilíbrio entre um pouco de medo e a tal liberdade começou a se desfazer, virou só liberdade mesmo. Nenhum sinal de telefone, nenhum comércio local, era perfeito pro desligamento completo. Claro que não poderia faltar um lembrete de que estávamos na terra de Fidel, no meio do caminho. O maior outdoor que vimos em Cuba, com a frase “Patria o Muerte” e o rosto do comandante.

Em 4 dias na residência do Sr. Octavio, percebemos que o nosso era o melhor quarto da casa. O maior, mais limpo e estruturado. Sr. Octavio tinha uma cama ruim, pouco espaço para dormir e dividir com a esposa – que costurava almofadas sintéticas para vender –, mas ele sabia que deixar os turistas confortáveis fazia parte de manter a fonte de renda paralela ao seu trabalho, recebendo numa moeda que equivale a 24x a sua. O imposto sobre a arrecadação da hospedagem não é pequeno, mas mesmo assim lhe rende uma grana extra.

As noites em Trinidad são agitadas. Tem uma geração jovem que divide a cidade com os idosos e agita os bares e festas, dançando, espalhando talento e conhecimento das músicas pop. Coreografias no meio da pista, pessoas dançando salsa de verdade, um baile à moda antiga e muito mais divertido que as nossas tímidas dancinhas individuais na balada. É uma geração que, inclusive, tem vontade de sair do país para viajar e estudar, mas não pode, o governo não deixa. O futuro de Cuba é imprevisível, mas o presente leva a crer que assim que os revolucionários não estiverem mais vivos para dominar o Estado, as portas do país se abrirão efetivamente com a ânsia da juventude. A que custo? Depende do ponto de vista.

De Trinidad para Santa Clara, era o caminho ao encontro com Chê. Onde ele venceu a Revolução e onde se encontram seus restos mortais e de seus companheiros de guerrilha. A casa da Dona Miriam era uma graça. No topo de uma longa escada, uma sala bem decorada, um corredor que chegava à cozinha e dois quartos. Miriam se vestia como uma cigana, cabelos pretos muito longos, meio presos bem em cima da cabeça, muitos acessórios, unhas enormes pintadas e desenhadas e os olhos fortemente contornados a lápis preto. Baixinha, doce e simpática, nos recebeu muito bem. Durante as poucas 24 horas que ficamos na casa dela, um momento de intimidade ocasionado pela frágil fase emocional que ela vivia. Perdera o pai há menos de 2 anos e ainda chorava por ele. Passou na porta do nosso quarto, lacrimejando, e perguntamos a ela se estava tudo bem. Ela disse que sim, que somente sentia falta do pai que morrera após lutar contra uma doença. A minha companheira perguntou a ela se conhecia a palavra “saudade”, ela disse que não. Explicamos que o que ela sentia naquele momento, na nossa língua, era saudade. Miriam nos levou até a cozinha para mostrar fotos da família em ímãs de geladeira, enquanto nos pedia desculpas por estar chorando. E de certa forma se mostrou aliviada com a nossa tentativa de consolo. Saímos da casa dela em direção ao museu biográfico de Che Guevara, e de lá iríamos para a rodoviária direto. Então, nos despedimos dela e antes de puxarmos a cordinha lá de cima, para abrir porta, ela nos pediu que, quando de volta à Havana, entregássemos à Dona Lisette o cartão com o novo endereço e telefone da casa, porque a amiga ainda não tinha. Mesmo com telefone fixo, celular e email, Miriam nos pediu que levássemos o cartão, impresso em folha sulfite e encapado com contact. Era uma garantia a mais de que Lisette receberia a informação.

O próximo destino da viagem era Cayo Santa Maria, uma praia em uma ilhazinha no norte de Cuba. Mais uma das paisagens surreais que visitamos, só que dessa vez na parte exclusivamente turística do país, onde ficamos em um hotel, ao invés de uma habitação local, pois esta opção não existe. Dar entrada em um hotel “all inclusive” após 10 dias imersas na realidade cubana, foi estranho. O alívio estava em ficar à beira dágua, na tentativa de acreditar que a cor daquele mar e daquela areia eram de verdade. O reflexo da paisagem chegava a incomodar os olhos, de tanto que brilhava. E uma caminhada de ponta a ponta da praia, passava por diversos trechos vazios, sem ninguém, nos levando de volta à sensação de liberdade total, como no passeio de bicicleta. O barulho do vento, da água, e o papo entre nós duas, que entre assuntos triviais, nos questionávamos sobre aquela parte da ilha que soava tão fora de contexto. Tão fora, que na primeira noite, na mesa do bar, 3 dançarinos que trabalhavam no hotel se aproximaram pedindo que se sentassem conosco, pois caso contrário não poderiam tomar um café no bar, sem estar junto com os turistas. Claro que sim, por favor, sentem e peçam o que quiserem, pra que além de tudo a gente se sinta menos mal com aquela situação. Uma moça e dois homens, já vestidos e maquiados para o show que fariam naquela noite. “Onde vocês moram?”, perguntamos. E a primeira resposta veio como um soco na boca do estômago: “Em Cuba”. Geograficamente, nós estávamos em Cuba. Mas, socialmente, não. Nem eles, nem nós.

A volta para Havana, para finalizar a viagem onde ela começou, foi absolutamente fantástica. O caminho acompanhou o pôr do sol, que tornou aquela estrada vazia e sem sinalização, muito bonita. A luz no contra das árvores as fez silhuetas no fundo laranja. Parecia que o sol estava mais próximo da gente do que nunca, com contorno absolutamente definido, mais nítido que a Lua no céu escuro. Era nossa última passagem pela estrada e a natureza se encarregou de promover uma linda despedida.

Entramos em Havana à noite e reconfirmamos uma coisa que fez parte dos nossos comentários todos os dias. Ou os amigos que já haviam visitado Cuba romantizaram demais a própria experiência, ou nós que fomos racionais demais ao longo destes 15 dias longos dias. As condições de Havana eram mesmo complexas e nem tudo era tão legal assim. Mas, os dois dias seguintes compensaram qualquer esforço. Pegamos, por sorte, o último dia do Havana World Music, que depois de 18 anos teria Orishas fechando o festival. Que momento! Eram cubanos lotando o parque e a ponte que passava por cima dele, para ver a banda mais famosa do país retornar à terra natal. Bandeiras de Cuba gigantes penduradas na ponte e absolutamente todos as pessoas com seus celulares nas mãos, filmando a entrada do grupo. Cena inclusive, engraçada de se ver, pois além de, no senso comum, o cubano ser taxado como um povo sem tecnologia – o que é, em parte, real –, sabíamos que aqueles vídeos todos eram realmente para a memória deles. Afinal, postar vídeos em redes sociais, com sinal do wi-fi público, era um grande desafio. E eles não são dependentes de mostrar a vida pros outros, como nós...

No dia seguinte, mais música. O show no Calejon de Hamel, reduto afro-cubano em Havana, que acontece todo domingo. O Calejon é uma rua cheia de vida, toda pintada, repleta de adereços culturais, que pulsa em música, dança, raças, cores e emoções, aos domingos. Lá, conhecemos estudantes de artes, viajantes e locais que nos convidaram para uma apresentação de rap, em Regla, comunidade que fica do outro lado da bahia de Havana. O Dominic, que pode ser chamado de um belo promotor de eventos cubanos, insistiu loucamente para irmos à Regla, porque não pagaríamos nada e ainda veríamos um evento dos amigos dele até o dia acabar. “Como chegamos lá, então?”. “É fácil, vocês vão pegar a balsa que cruza pra lá. Descendo, perguntem pra qualquer pessoa sobre aonde encontrar o Alexei. Vão te dizer como chega e lá vocês vão me ver”. “Ah, e você tem o endereço?”. “Não precisa, faz isso que eu te falei que não tem erro”. Bom, depois de duas semanas em Cuba, já podíamos saber que cilada, não era. Só não imaginávamos que as coordenadas se cumpririam tão ao pé da letra. Perguntamos sobre o Alexei a um menino que jogava futebol, ele nos indicou o caminho e lá estávamos nós, no rap. Nós e mais umas 30 pessoas da comunidade, era realmente um evento de vizinhos, que revezavam o microfone e faziam rimas críticas.

Alguém puxou a barra do meu vestido e me fez olhar pra baixo. Era a pequena Claudia, moradora dali, que me trazia uma florzinha branca, de presente. Pra mim e pra companheira. Ao perceber que estávamos com mais 2 amigos, ela foi a outra árvore e colheu 4 cachos de flores cor-de-rosa. De novo, alguém nos fazia um agrado genuíno. Como retribuir? Eu não tinha mais chicletes na mochila, nem bolachas, nem batatinhas chips, nem nada. Demos a ela uma moeda de 1 real, brasileira, para que guardasse de lembrança. E prometi pra ela que aquela flor rosa secaria dentro do livro que eu estava lendo (e está efetivamente nele). Quando eu abri a carteira para pegar 1 real, ela viu outras moedas em peso cubano conversível. Me pediu, eu dei 1 CUC em 4 moedas de 0,25. No final das contas, ela dividiu com as outras 3 amiguinhas que se juntaram a nós. Durante o tempo que ficamos na Regla, além da diversão, ficou muito claro que em qualquer outro lugar, no Brasil ou outro país, não teríamos seguido uma orientação incerta para chegar em um lugar que não conhecíamos, a convite de um homem qualquer. Mas em Cuba, você pode fazer isso, os convites são feitos a serviço da cultura da não violência. Ali se encerrou a nossa viagem.

O que ficou em nós, além das memórias, foi a certeza da transformação. E alguns adendos pra terminar:

- de entender que, a um certo custo, outros sistemas são possíveis e história e cultura são elementos determinantes de um povo. Difícil dizer com propriedade que todos os cubanos amam o seu país. Acredito que grande parte deles ame mesmo, mas ao mesmo tempo, para a maioria daquela população, nunca houve outro referencial do que Cuba poderia ser aquele. E outro referencial importa? Acho que para as gerações mais jovens, sim.

- é impressionante ver a revolução cubana fazer 60 anos de vida. A URSS caiu há 30 anos e Cuba continuou lutando pelo seu sistema, sozinha. Não sei mais por quanto tempo eles são capazes de se sustentar sob condições de embargo econômico e boicotes políticos, as condições do país são sofríveis.

- comer em Cuba não é fácil. Além do preparo ser tipicamente pesado, as consequências de comer algumas coisas provam que falta higiene ou melhores condições de conservação dos alimentos. 16 dias de viagem, 7 vezes passando mal. Mas, ficar sem comer não é uma opção, pra ninguém. A culpa não é deles se eu não tenho estômago pra digerir o que eles fazem.

- os lindos e charmosos carros antigos são muito bem preservados, pinturas novas brilhando. Mas o diesel sai do escapamento em formato de uma fumaça preta em grande quantidade, que preenche as ruas, principalmente na passagem do farol vermelho para o verde. A partida dos carros tapa a visão e os pulmões de quem está passando por perto. É uma sensação engraçada, ruim na primeira inspiração, depois uma certa nostalgia te invade, pelo visual daqueles veículos coloridos e barulhentos se afastando. Meio cena de filme mesmo.

- relativize mais as coisas, combata mais a intolerância, o ódio, a ignorância consciente. A felicidade do outro não precisa ser sua e o seu conceito de mundo não precisa ser o dele.

- seja capaz de apertar o crtl+alt+del quando pisar em outro lugar.

Obrigada, Cuba, por nos receber pela primeira vez. Espero que não seja a única. Somos pessoas melhores, agora.

Be the first to like it!

Comments

avatar

People also liked

Related stories
1.Have you ever experienced Cyberstalking?
2.Technology cured my Dyslexia
3.Is the art of oil painting dying a slow and painful death?
4.How Julianne made me fall in love with the art of painting?
5.How my role model helped me realize the importance of maintaining health
6.Granny Hacks: How do Life Hacks shared by Grannies always work?
7.Why we all are obsessed with superhero movies?  
8.Easy to pull off pranks to prank your roommate on April Fool’s Day  
9.A Medical Invention you wish you hadn’t heard of!  
10.How Technology Helped Me During My Fresh University Days?
500x500
500x500