VIAGEM

Fuga para Inhotim (2013)

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Belo Horizonte, 31 de julho de 2013.

Desde o começo das férias eu queria. Pesquisei na internet depois da recomendação do Bessa (com SS) e falei “vou”.

O plano era enganchar no roteiro que já incluía SP. Saindo de lá, de carro, em grupo, ficaria mais em conta, além de estar muito bem acompanhado. Não deu.

Passados 14 dias em SP, voltei para Goiânia obstinado. Sozinho, porém, e com percurso maior, o valor não compensava. Ou assim parecia. Pensava “e a estrada? O cansaço? O hotel?”. E mais pesquisas na internet só mostravam que não dava, o jeito era não ir.

Descobri que não há ônibus saindo de Goiânia para Brumadinho (a 4 km do Inhotim). Coincidentemente, porém, o ônibus que sai de Goiânia para Belo Horizonte chegava em tempo de pegar um outro direto para o Inhotim por R$15,00.

Plano maluco: mochila nas costas, duas “mudas” de roupa, lanchinho, apetrechos de higiene, câmera, mp3 player... sairia de Goiânia à noite, chegaria em BH cedinho, passaria o dia no museu e voltaria para GYN no final do mesmo dia. “Dane-se: eu vou!”.

Comprei as passagens e a entrada para o museu pela internet, imprimi os vouchers, fiz a mochila, fui para a rodoviária, Joni Mitchell na orelha, me receba BH!

Já há algum tempo não fazia viagens longas de bus, só avião. Thanks Plano Real e governos PT. Tinha me esquecido, então, o quanto a estrada, o solavanco, as pessoas sem pressa, as paradas, enfim, o quanto essa situação me toca. Logo, pude viver a mutante malha viária, sentir a paisagem pulsando vida, o clima se alterar, as pessoas com outras caras, outras vidas. E por tudo isso ser absorvido, remixado, filtrado.

Não vinha a BH há 25 anos. Não me lembrava de muita coisa – logo eu que tenho memória de elefante, veja só. Daí rolam uns flashes do pouco que resgato: dezenas de meninos de rua (na minha infância em GYN havia muitos, mas em grupos bem menores – eu morria de medo), imagens que eu tinha das fachadas urbanas feias, terrivelmente mal estruturadas (isso não mudou), tudo parecendo muito diferente da visão caótica-harmônica que tenho do centro de SP, por exemplo.

Rodoviária de Belo Horizonte-MG
Rodoviária de Belo Horizonte-MG

Vir de ônibus (13 horas via Gontijo) fez bem também. Primeiro como purgação: consigo, no máximo, cochilar por uns minutos. Aquele estado de limbo, “nem”. Quase um torpor. E de madrugada a temperatura chegou a 9°. Fiz bem em trazer uma blusa na mochila (+ um pacote de bolacha de grãos, + 1 pacote de Hall’s preto, + 1 chocolate, + 1 água) fazendo jus à piada de que sou de fato neto da minha sempre precavida avó paterna. Ela se preparava assim em viagens e passeios, dizem. Eu não sei. Não a conheci pois morreu quando eu tinha dois anos. Não tem memória de elefante que ajude.

O ônibus e a madrugada, contudo, me fizeram recordar minha outra avó. Foi com ela que vim a BH a última vez. Conto assim: era alta madrugada aquela época. Eu na poltrona da janela. Minha avó se cansara da conversa animada com a senhora da poltrona ao lado da dela no corredor e adormecera. Deu-me uma puta vontade de ir ao banheiro e eu, para não acordá-la, dei um jeito de me esgueirar por debaixo de suas pernas. Muita acrobacia, me lembro. Trabalhoso mas funcionou... ou será que foi o alívio?

Perdi minha avó anos depois, quando eu estava com 16 anos. Foi atropelada na esquina de sua casa. Sarcasticamente, a pobrezinha – mesmo – que ia a pé/de bus para tudo quanto era canto da promissora Goiânia dos anos 90.

Brumadinho eu não vi. Ou vi e não dei atenção. Inconscientemente. Acho que me distraí com as pessoas que estavam no ônibus. Grupos, casais, gringos, estudantes, famílias. Fiquei imaginando suas vidas, seu passado, o que as levou a decidirem ir ao Inhotim justo naquele dia, e como todos reagiríamos ao chegar lá.

Alguém falou alto sobre estarem hospedados na Casa das Freiras. O que será? Tenho uma coisa com freiras, sabe? Uma vez fiquei em êxtase ao ver uma freira lanchando num McDonald’s. Fotografei às escondidas, inclusive.

Freiras, símbolos, arquitetura e tradições. Antagonicamente, o catolicismo me causa repulsa por sua história de manipulação, controle, riqueza, poder e sangue da inquisição. Mas/Pois sou kardecista e “devoto” de São Francisco (e sua oração) e Santo Expedito. Torço para que isso seja uma heresia.

Pensando bem, Brumadinho, quando parei para olhar, me lembrou umas cidadezinhas meio desdenhadas do nordeste do país, com pessoas vendendo latas e sacos com frutas a quem passa por ali como mera ponte para uma atração turística. É uma pena, se for mesmo assim. Em nada se parece com nossa Pirenópolis. Não que eu seja bairrista a esse ponto. Até porque Pirenópolis tem mai$ cara de Bra$ília. Eu gosto da Cidade de Goiás (Velho) onde já cogitei ser enterrado em cova simples, com terno doado. Uma bisavó minha nasceu lá. Em Goiás, digo.

Enfim, Inhotim. Das 10:30 às 16:30. “Será que dá tempo?”. Tem que dar.

Inhotim e seus jardins babilônicos
Inhotim e seus jardins babilônicos

Sai caipiramente desembestado pelos caminhos de infinita margem verde. Grama, plantas, árvores... o sol se derramando num céu sem nuvens. Lagos esverdeados, espelhos d’água azulados. Ou seria o contrário? Creio que nem com uma caixa de crayons caríssima da Faber Castell (daquelas que eu sempre quis ter – e obviamente nunca tive – quando era criança) eu conseguiria reproduzir. Já valia a viagem.

Dai vieram os prédios. E dentro deles, as obras. E os prédios são obras. E há obras fora deles. E algumas obras a gente interage com elas fisicamente. “Como assim? Eu posso pegar? Pisar também? Alterar? Eu sou a obra? Coautor? Sou matéria-prima?”.

Comece a tentar entender/imaginar o que gerou aquilo (aquela ou essa outra), o que significava, o que representava. Uma vanguarda? A desconstrução delas?

Arte, arte, arte por toda parte
Arte, arte, arte por toda parte

Ouvi alguém dizer/definir em outra língua que o Inhotim é um playground/parque de diversões para quem gosta de arte moderna. E de fato, eu estava me divertindo à beça (com Ç).

Tirei tantas fotos que vai ser difícil selecionar, dentre as repetidas, o que compensa manter/descartar. O mais dos registros são sensações, memórias. Não há foto ou texto que descreva o que senti quando me deitei no piso acolchoado da sala onde tocavam mestre Hendrix psicodélico. Ao meu lado, um rapazinho francês e uma moça que falava espanhol davam piruetas e iniciavam uma guerra de almofadas. A essa sala (e outras coisas tantas) eu sorria. E no meu sorriso estampava “isso aqui... que ideia mais boba...”. Logo, que ideia mais boa.

Quando minhas pernas começaram a pedir um descanso, cheguei a uma lanchonete. No cardápio, omeletão ou sanduiche. Gigantes sedutores. Fui com o segundo. Em nada lembravam as reclamações que eu havia lido previamente no Google sobre o preço da comida. Demorou a ficar pronto, contudo.

Omeletão e sanduichaço
Omeletão e sanduichaço

Recheado com o sanduba, fui andar o que me restava do instituto. Ainda um bom pedaço. Encontrei o restaurante caro que as pessoas reclamavam. Ainda bem que vi a lanchonete antes. Comendo e recomendo.

Na maior trilha (e última), uma subida e tanto, conheci uma mulher genial. Com seus quarenta e poucos anos, vestido justo branco com estampo de bichinhos coloridos, meia-calça grossa preta, botas quase na altura dos joelhos, cabelos presos em coque frouxo grego. Ela – com seu sotaque nordestino cantado que eu adoro – contou que depois de passar 15 dias de férias com os filhos de 5 e 7 anos resolveu aproveitar suas milhas e viajar sozinha. SP, na casa de uma amiga por uma semana, Floripa e Minas em seguida, onde ficou na casa de um amigo da amiga de SP. Os filhos ficaram com o ex-marido. “Precisava, sabe? Voltar a trabalhar com energias novas, me modificar”, completou quase que profeticamente. Eu entendo.

Acho que o Inhotim faz bem essa função. Ou se põe muito bem, de maneira exclusiva, a um papel que é da arte. Pois quando paramos em frente (ou dentro!) de uma obra e nos propomos a compreendê-la ou por ela sermos confundidos, ela nos modifica. Podemos não gostar, rejeitar, ou aceitar. A mudança é inevitável.

Antes de ir para o estacionamento para esperar o ônibus, tomei um cappuccino com menta. A moça que serviu alertou “não é bom, mas é bonito”. Era mesmo. Meio ruim também. Estranho. Como tinha que ser. Em um lugar assim, pedir o óbvio seria um crime sem perdão.

Apesar do trânsito, o ônibus veio rápido até a suja rodoviária de BH.

Volto com a impressão de que BH e o Inhotim ficam bem perto de Goiânia. Como se eu pudesse pegar uma mochila, duas camisetas, e vir passear. Se posso, não sei. Fiz

Agora quero Ouro Preto, Araxá, Diamantina. E Minas deixa de ser “apenas” a terra de Milton, Venturini, Lô Borges, Beto Guedes, Clube da Esquina, Takai, Samuel, Flausino (?), Pelé (hein?), Aleijadinho e Tiradentes. Na massa desse pão de queijo (que como quieto) agora tem Inhotim. Faz toda a diferença.

Fuga para Inhotim (2013)