COMUNICAÇÃO

Qual a sua graça?

Author

O nome é uma marca particular, que recebemos ao nascer e depois somos obrigados a levar conosco para o resto da vida.

O pior é que invariavelmente é escolhida sem nossa participação. E a decisão é tão definitiva, que fazem questão até de registrar em cartório!

Quer exemplo mais antidemocrático do que esse para se receber uma criança?

Meu nome, por exemplo, é Waltely. Waltely Longo. Ninguém que se chama Waltely pode deixar de ter muitas histórias a respeito de nomes.

Durante um bom tempo cheguei a colecionar correspondências que chegavam trazendo variações sobre o destinatário.

Foi quando comecei a constatar a riqueza dessas variações e percebi que eram geradas de forma espontânea, mas se agrupavam em blocos de erros similares.

Percebi que havia uma disputa acirrada ente Waldeli e Walter Lee, com Walter Eli correndo por fora e Waldecir marcando presença constante. Além disso, algumas formas que não apareciam com tanta frequência mereciam também algum destaque, como era o caso de Walberly, Walcelir ou mesmo Walkly.

Acredito que seja fácil compreender que alguém que se chama Waltely, e tenha passado toda a vida estudantil respondendo chamada oral, sinta um certo desconforto ao tentar tomar um simples cafezinho no Starbucks, e tenha que escutar a famigerada pergunta:

"- Seu nome por favor?".

O pior, não é a mocinha do caixa escrever Valterlino no seu copo. O dramático mesmo é fugir dos olhares quando o rapaz que serve os pedidos grita de lá: "espresso doppio: Valtercino Bill (... que Bill?).

Qual a sua graça?

Mas falando em nomes, não posso deixar de comentar a experiência inusitada que tive um tempo atrás quando fui fazer a primeira visita a um prospect num edifício da Vila Olímpia.

Ao chegar na recepção do edifício, o porteiro que claramente estava substituindo alguém naquela função de cadastramento, foi logo perguntando se era minha primeira visita àquele edifício.

Perante minha confirmação, ele sacou uma ficha em branco, e empunhando uma Bic amarrada por uma correntinha, perguntou com firmeza e já concentrado na sua missão:

- "Nome?"

Como costumo fazer, disse meu nome e, em seguida, já comecei a soletrar: - "Waltely...dábliu...a....ele....t, de tatú...e, de elefante...ele de lápis e ipsilon de yankee."

De forma cadenciada, o porteiro foi acompanhando precisamente cada letra que eu ia dizendo e assim conseguiu completar, sem qualquer erro, o registro do meu nome.

Sem desviar o olhar da ficha que preenchia, perguntou com a mesma firmeza:

- "Sobrenome?"

Já aliviado por haver cumprido a primeira etapa com sucesso, fui mais objetivo e respondi:

- "É Longo"

E ele, concentrado, sem desviar o olhar da ficha, com a Bic parada no ar, completou:

- "Pode dizer..."