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As novas favelas de sulafricanos brancos, 20 anos após apartheid

Alexandre Ribeiro
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Alexandre Ribeiro

O que acontece quando verdadeiramente chega ao fim um regime de apartheid, como o visto na África do Sul de 1948 a 1994 e que constitucionalmente colocando um grupo de pessoas como cidadãos de segunda classe? Preste bem atenção na pergunta porque ela não é hipócrita: o que acontece quando verdadeiramente chega ao fim um regime de apartheid?

A pergunta se responde sozinha na atualidade, no país do extremo sul da África.

Um quarto de século atrás, negros sul-africanos viviam na miséria completa, enquanto a quase totalidade dos brancos (minoria em número, maioria em poder) era agraciado por um sistema social de repartilhamento da produção em que garantia aos descedentes de famílias europeias uma vida confortável no país, durante os anos do apartheid, que teve fim em 1994, quando Nelson Mandela chegou à presidência.

Hoje em dia há uma estranha forma de igualdade: a pobreza.

Enquanto cidadãos negros conseguiram conquistar postos de trabalho avançados e salários compatíveis com os cidadãos brancos, “colorindo” a classe média sulafricana, hoje muitos brancos perderam o padrão de vida, que era garantido por lei pelo Estado do apartheid, e vivem em favelas tão miseráveis quanto as que as antigas pessoas de segunda classe viviam.

Curioso como as políticas públicas, quando estabelecem igualdade de chances, a partir de sólidas bases educacionais gratuitas para a população (como as implantadas por Mandela) modificam severamente o cenário em uma sociedade capitalista.

O fotógrafo sulafricano Jacques Nelles captou a vida de uma comunidade branca pobre com essas imagens tiradas no município Munsieville, a oeste de Joanesburgo. O local é habitado por parte dos 42 mil cidadãos de origem europeia que estão em situação de pobreza, algo em torno de apenas 0,9% dos 4,5 milhões de sulafricanos brancos. Esse, no entanto, é só o início de uma realidade que começa a se igualar economicamente. Infelizmente, a África do Sul não é um país com uma economia forte, ainda que muito tenha avançado nas últimas décadas. Não é possível construir ainda um país onde todos sejam classe média e, infelizmente, a realidade para os negros ainda é acachapante. Cerca de 63% dos 43 milhões de sulafricanos negros do país também vivem na miséria, juntamente com cerca de 37% dos mulatos (mistura étnica entre negros e brancos).

A favela em Munsieville é uma das 80 em toda a África do Sul. Construída sobre um lixão, é o lar de cerca de 300 pessoas, das quais um quarto é de crianças. Aqueles que vivem aqui sobrevivem com cerca de 700 rand (R$ 165) por mês. A maioria das pessoas fala o idioma africâner, uma mistura entre dialetos africanos e o holandês, fruto da chegada de colonos holandeses que desembarcaram no Cabo da Boa Esperança, no século XVII. 

Cerca de 60% dos brancos sulafricanos falam o idioma. Pouco mais de um século atrás, seus avós ou bisavós, conhecidos como Boers, estavam envolvidos em uma guerra sangrenta com o Império Britânico.

A palavra Boer significa 'agricultor' em holandês e enquanto alguns dos moradores da favela em Munsieville chegaram no local depois de abandonarem fazendas na zona rural de cidades como Joanesburgo e Pretória.

A comunidade é fora da cidade de Munsieville, onde os habitantes são quase majoritariamente negros. Não há saneamento básico, água corrente, não há estruturas seguras, eletricidade e a comida é escassa. As casas são normalmente construídas com pisos de terra batida, que sofreu inúmeras inundações e foi contaminada por resíduos sólidos ao longo dos anos. Por isso, os hospitais costumam recusar atender os habitantes e muitos não conseguem um emprego na cidade.

Na era do apartheid, a população branca que deixou as zonas rurais para compor as classes mais baixas das grandes cidades acabaram conseguindo emprego na polícia e forças armadas. Eram brutais com os negros e manifestantes da causa contra o regime separatista. Os que compuseram os quadros militares foram mandados para guerras contra angolanos e Namíbia. Essas tropas que somavam mais de 80 mil homens, treinados pelo sistema para odiar o inimigo negro, foram dissolvidas com o fim do apartheid. Muitos deles migraram para Austrália e Nova Zelândia nas duas últimas décadas.

O triste disso tudo é que muitas dessas pessoas, que conversaram com o fotógrafo Jacques Nelles, confessaram que se sentem completamente responsáveis pela situação de miséria em que vivem e que pouco vislumbram uma saída para a vida que levam. Muitos vivem de caridade e fundos de ajuda do governo.

E se você pensa que essas 300 pessoas se sentem completamente infelizes pelas condições tão diversas dos avós, engana-se: muitos contaram ao fotógrafo que se sentem tranquilos com as circunstâncias e acabaram por desenvolver um senso de comunidade pela proximidade da realidade em que vivem.

O trabalho de fotojornalismo de Jacques Nelles é realmente incrível e vale a pena ser conhecido. Para conhecer outras obras, dê uma passada lá no blog dele:

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