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Glória Perez escreve relato emocionante no aniversário de 25 anos da morte da fi

Bapho Cabeça
Autor
Bapho Cabeça
Glória Perez escreve relato emocionante no aniversário de 25 anos da morte da fi

Hoje faz 25 anos que Daniella Perez foi brutalmente assassinada. Glória Perez, autora de telenovelas da Globo, responsável por títulos de sucesso como O Clone e Caminho das Índias, escreveu em seu Facebook um relato comovente sobre a perda da filha e as ações tomadas para mudar a Lei na época do crime.

É difícil quem não se lembra do caso, mesmo os mais jovens. Como um ponto triste e lamentável na história da TV, Daniella foi muito cedo, comprovando uma faceta muito conhecida mas pouco discutida no meio das celebridades: a rivalidade e falta de ética.

“Filho não se conjuga no passado!”

Em um post comovente no Facebook, Glória fala:

25 anos é menos que 25 dias, que 25 horas, que 25 segundos. Filho não se conjuga no passado!

A EMENDA POPULAR

Em 1992, as leis penais eram ainda mais frouxas. Matar não dava cadeia: assassinos tinham direito de esperar, em liberdade, por um julgamento que podia ser adiado indefinidamente — bastava ter advogados que soubessem explorar as brechas da lei e utilizar o número infinito de recursos disponíveis para atrasar o andamento dos processos. A não ser que o crime cometido estivesse elencado na Lei dos crimes hediondos, promulgada em 1990, que listava crimes que deviam ser levados a sério. Para estes, tidos como os mais graves, a prisão era imediata e não se admitia pagamento de fiança. Matar botos, papagaios, animais que faziam parte do patrimônio, era crime hediondo -matar gente, não. Assassinato não entrou na lista.

Descobri, então, um dispositivo da constituição que permitia à sociedade fazer passar uma lei, desde que a reinvindicação fosse assinada por uma certa porcentagem da população do país. Procurei o dr Biscaia, na época chefe do Ministério Público, e ele considerou que, ao invés de uma nova lei, o que se devia propor era incluir o homicídio qualificado (aquele em que existe a intenção de matar), no rol da Lei dos crimes hediondos.

Redigida a emenda, eu e outras mães na mesma situação, imprimimos um abaixo assinado. A distribuição, numa época sem internet e sem contar com o apoio de nenhum grande órgão de imprensa, era feita de mão em mão. Gente de todo o país escrevia, pedindo as listas, que eram passadas em repartições, escolas, shows, nas ruas mesmo. E chegavam a nos pelo correio.

Nessas condições, inimagináveis para a geração de hoje, conseguimos, em apenas três meses, reunir 1.300.000 assinaturas -a lei só pedia 1.000.000. E as levamos ao Congresso. Lá, não foi fácil o percurso: e na última sessão do ano, tão logo foi anunciada a votação da emenda, assistimos o plenário esvaziar-se, no claro intuito de impedir a votação, por falta de quorum. Senadores saíam de fininho, passavam sem nos encarar, ignorando nossos apelos para que ficassem. Não houve quorum. Mas houve um senador de coragem: Humberto Lucena, então presidente do Senado, enquadrou a emenda como urgência urgentíssima. Assim, o homicídio qualificado foi incluído na Lei dos crimes hediondos.

Foi uma campanha de mães, uma campanha encabeçada por mães que haviam perdido seus filhos: Jocélia Brandão (de Minas, mãe da Miriam Brandão), as mães de Acari, as vítimas de Vigário Geral, a Valéria Velasco, de Brasilia, e tantas outras! a mudança não teria nenhuma interferência no caso dos nossos filhos, uma vez que a lei não retroage para punir. Mas é graças a essa emenda que criminosos como Suzanne Richtofen, o casal Nardoni, e tantos outros, ainda estão na cadeia. Não fosse isso, já estariam rua há muitos anos.

Assim nasceu a primeira emenda popular da História do Brasil. Na prática, o que ela fez foi igualar a vida humana à vida dos botos e dos papagaios. Mas já é alguma coisa!

Glória Perez escreve relato emocionante no aniversário de 25 anos da morte da fi

Relembre o caso

Daniella Perez estava vivendo o auge da carreira quando foi brutalmente assassinada pelo colega de cena da novela “De Corpo e Alma”, da autoria de sua mãe, Glória. O ator Guilherme de Pádua sentiu que estava ficando em segundo lugar na novela e, então, premeditou o assassinato com sua esposa de 19 anos na época, Paula Thomaz. Ambos pararam a atriz num posto de gasolina na Barra da Tijuca, onde espancaram e deferiram 18 golpes com uma tesoura em Daniella.

O corpo foi encontrado no dia seguinte num matagal. Guilherme chegou a consolar o marido e mãe da vítima, até que foi finalmente descoberto. Com um julgamento conturbado que abalou não só a dramaturgia do Brasil, como milhões de pessoas, Guilherme mudou a versão do crime várias vezes e acabou condenado.

Dos 19 anos de condenação, cumpriu apenas 6 e saiu para se transformar em pastor numa Igreja Evangélica.

Desde então Glória já processou o ex-ator algumas vezes, principalmente quando o mesmo tentou lançar um livro contando a versão dele do crime. Hoje ele já se casou três vezes e diz ser um homem de Deus.

Glória Perez escreve relato emocionante no aniversário de 25 anos da morte da fi

A lei e o julgamento das pessoas

Glória reuniu várias mães e mudou a Lei num período onde não existia internet e mobilizar pessoas era um ato muito mais contido. Apesar de ter conseguido transformar homícidio em crime hediondo, a mesma parece nunca ter sentido algo semelhante à justiça, já que Guilherme usou a imagem da mulher que assassinou para se promover várias vezes.

O que nos resta pensar se como a justiça manda, após o tempo de prisão cumprido, uma pessoa está apta para seguir na vida e ter a segunda chance de poder reconstruir. Será que Guilherme realmente merece essa segunda chance após só 6 anos de cárcere e várias tentativas de lucrar com o crime que cometeu?

Sabemos que hoje o Brasil sustenta um dos piores índices de assassinatos violentos de mulheres, e que de certa forma, o show, novelas, a TV de forma geral já contribuiu para isso, dando a entender várias vezes que estupro não é estupro, disseminando machismo e abusos como dramas novelescas para entretenimento.

Seja como for, Daniella marcou toda uma geração com sua história trágica e transformou a lei como conhecemos. Para Glória Perez só desejamos que algum consolo exista, já que ela ajudou várias famílias e pessoas nos últimos 25 anos.