TV

Achar Better Call Saul pior que Breaking Bad porque 'nada acontece' é burrice

BingeWatchMe
Author
BingeWatchMe

por Sheila Vieira

O problema de “Breaking Bad” ter virado um fenômeno apenas nas temporadas finais, e a maioria de seus fãs ter feito ‘maratona’ das primeiras temporadas, é que eles começaram a acompanhar “Better Call Saul” esperando episódios como “Ozymandias” ou “Felina” quase toda semana. Mas não.

O seriado sobre Jimmy McGill é exatamente como o de Walter White em suas temporadas iniciais.

Achar Better Call Saul pior que Breaking Bad porque 'nada acontece' é burrice

Você se lembra do ritmo da primeira temporada de Breaking Bad? Walt demorou três episódios para matar o cara que ele confrontou no piloto. Depois foram mais três capítulos até ele e Jesse conseguirem um esquema de distribuição com Tuco. E a season finale foi um encontro com Tuco, no qual o traficante mata um associado na frente de Walt e Jesse. 

O supervilão Gus Fring só aparece pela primeira vez no antipenúltimo episódio da segunda temporada! Skyler descobre o que seu marido realmente faz no começo da terceira, ou seja, quase na metade do programa.

Por que Vince Gilligan e Peter Gould não têm pressa para mover a trama freneticamente?

Porque eles fazem televisão DE QUALIDADE. Televisão em que cada cena toma o seu tempo e tem um propósito. E este propósito não é explícito ou explicado por alguém. O motivo pode aparecer depois ou pode ser apenas uma maneira de conhecer o que está por trás da motivação de um personagem.

Vários dos “cold opens” (as cenas antes da abertura) de Better Call Sall são flashbacks que, de forma sutil, colocam luzes em várias situações e dinâmicas que vemos entre Chuck e Jimmy no tempo “real”.

Gilligan e Gould não tratam o espectador como burro. Mas estamos vendo por aí que uma boa parte é.

Você tem uma temporada inteira de Mike conhecendo a extensão do cartel além de Nacho e achando que está por cima da história. Até que, em sua cena final, ele descobre que há alguém superior vendo tudo. Eles poderiam ter feito isso em dois episódios? Com certeza. Mas isso seria um insulto à inteligência de Mike e à do personagem misterioso, que provavelmente é Gus Fring.

Nem acredito que estou escrevendo isso, mas houve quem criticasse a personagem Kim Wexler. Ela seria “sem graça”. Porque é uma mulher competente, independente, que faz suas próprias escolhas, e é tão ou mais inteligente quanto o todos os homens ao seu redor, que às vezes tentam manipulá-la.

Mas sabe como é. As pessoas estão tão acostumadas a ver a fantasia da estagiária que dá para o chefe na TV, que se assustam quando uma mulher real é representada.

(Skyler também era uma mulher de verdade, sem a integridade moral de Kim, mas odiada pelo público porque não era totalmente submissa a Walter.)

Espero que a AMC leve isso em conta antes de exigir que Gilligan e Gould mudem a direção que eles imaginam para a série ou a edição (aliás, que alívio ver uma edição que não corta a cada quatro segundos). Para quem curte uma reviravolta ou morte sem sentido só para chocar a cada episódio, há diversas opções por aí na televisão.

Breaking Bad fez história porque sempre priorizou uma narrativa bem desenvolvida, com roteiro, direção e atuações impecáveis. Vejo tudo isso em Better Call Saul. Não vai ser melhor do que a série original? Claro que não. Mas nenhum seriado será.

#bettercallsaul #breakingbad #TVshows