MÚSICA

Como Beyoncé transformou um álbum sobre traição em celebração da mulher negra

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Como Beyoncé transformou um álbum sobre traição em celebração da mulher negra

Mesmo se você ainda não assistiu (é para assistir, já que é um álbum visual, e as imagens são tão ou mais importantes do que as músicas) ao novo álbum de Beyoncé, “Lemonade”, você já deve ter visto que a cantora decidiu contar ao mundo sobre as traições de Jay-Z. 

Alerta de spoiler: tudo fica bem no final, tá? Ela o aceita de volta.

Mas Beyoncé é uma artista tão inteligente, que sabia que explorar apenas a separação e o perdão não seria profundo o suficiente. Claro, a internet está surtando com esta parte, já que o casal real do pop sempre quis passar a imagem de que tudo era perfeito entre eles (até aquela filmagem do elevador surgir). E a parte mais “viral” de “Lemonade” é a que ela expõe Jay-Z de forma bem explícita. 

Este clipe termina com ela jogando a aliança na câmera.

"Becky do cabelo bom" já virou uma expressão para a história.

Eu sempre achei isso, para ser sincera.

No entanto, “Lemonade” não é mais um grande álbum de uma mulher mostrando suas cicatrizes, como “Back to Black” (Amy Winehouse) ou “21” (Adele). A limonada de Beyoncé é fazer a conexão de sua narrativa pessoal com a de todas as mulheres negras.

Logo no começo, ela comenta o que tentou fazer nos momentos de incerteza:

“Tentei mudar, fechei mais a minha boca, tentei ser mais leve, mais bonita, menos acordada. Parei de comer por 60 dias, vesti branco, evitei espelhos, evitei sexo, aos poucos não falei mais uma palavra”.

No pico de raiva do filme, vem a citação de Malcolm X: “A pessoa mais desrespeitada da América é a mulher negra. A pessoa mais desprotegida da América é a mulher negra. A pessoa mais negligenciada da América é a mulher negra”.

Ela é a “Garota do Destino”, a maior estrela mundial da música, e mesmo assim foi desrespeitada, desprotegida e negligenciada pelo marido. Beyoncé se viu em sua mãe, que também foi traída, e em todas as mulheres negras ao seu redor.

Após “deixar a casa”, Beyoncé volta ao Texas para uma deliciosa música country chamada “Daddy Lessons”, na qual ela fala sobre como seu pai a alertou que isso iria acontecer:

Meu papai me avisou sobre homens como você/ Ele disse 'querida,  ele está te enganando'/ Ele está te enganando/ Quando problemas surgirem na cidade/ E homens como eu aparecerem/ Meu pai disse ‘atire’/ Meu pai disse ‘atire’

Ela também se volta para sua mãe em forma de discurso:

“Mãe querida, deixe-me herdar a terra. Ensine-me como fazê-lo implorar. Deixe-me compensar os anos que ele fez você esperar. Ele distorceu seu reflexo? Ele fez você esquecer seu próprio nome? Ele te convenceu que era um deus? Você se ajoelhava todos os dias? Os olhos dele fechavam como portas? Você é uma escrava da nuca dele? Estou falando do seu marido, ou do seu pai?”

Ouch.

A charada para resolver a situação foi perceber que ela tinha que quebrar o ciclo:

“Avó, a alquimista. Você fez ouro desta vida dura. Conjurou beleza das coisas que ficaram para trás. Encontrou cura onde ela não exisita. Descobriu o antídoto na sua própria cozinha. Quebrou a maldição com suas próprias mãos. Passou as instruções para sua própria filha. E ela passou para a filha dela”.

Vemos a avó de Jay-Z, Hattie White, dizendo em uma festa: “Tive meus altos e baixos, mas sempre encontrei a força para me levantar. Me serviram limões, mas eu fiz uma limonada”.

E tudo fez sentido. Beyoncé explica: “Minha avó disse que nada real pode ser ameaçado. O amor verdadeiro me trouxe salvação. Com cada lágrima, veio redenção. E minha tortura virou meu remédio”.

Beyoncé perdoou, como toda mulher negra tenta perdoar quem tira tantas coisas dela diariamente. As mães dos rapazes assassinados pela polícia que aparecem em “Forward”. Claro que não podemos comparar a dor da cantora por sua traição com o luto dessas mães. Mas nos visuais e sons de “Lemonade”, simplesmente funciona.

Vários artistas podem fazer um álbum sobre como foram traídos. E outros sobre a luta diária que é ser negro em um país (mundo) extremamente racista. Mas as grandes narrativas são as que transformam experiências pessoais em algo universal. Agora, podemos chamá-las de limonada.

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