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Você pode até odiar Lena Dunham, mas ela é um gênio

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por Sheila Vieira

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Você pode até odiar Lena Dunham, mas ela é um gênio

Para a tristeza geral de todas as pessoas que gostam de comédias perturbadoras, “Girls” está acabando e, aparentemente, muita gente já deixou o barco desde a bombástica primeira temporada. É preciso ter muita paciência para acompanhar Lena Dunham, dentro e fora do seriado da HBO. Mas quem persistiu ganhou 27 minutos de genialidade, que provam o quanto Lena ainda é extremamente necessária nas nossas telas.

Assistir a “Girls” é um exercício penoso muitas vezes, algo que raramente acontece na TV, já que este meio geralmente tem pavor de perder sua “clientela” semanal. As personagens têm poucas “qualidades que redimem” e você quer dar um empurrão nelas 80% do tempo. Mas elas incomodam porque suas vidas de pessoas inteligentes em grandes cidades com um grande potencial sendo lindamente desperdiçado são exatamente como as nossas. Isso me fez respirar fundo e continuar acordando cada segunda-feira ansiosa para ver qual verdade inconveniente Lena jogaria na minha cara naquela semana.

Há duas semanas, o episódio “American Bitch” retratou o breve e intenso contato entre Hannah (Dunham) e um escritor interpretado pelo ator Matthew Rhys, dentro do apartamento dele. A princípio, ele a questiona sobre o fato de que ela escreveu um artigo sobre as acusações de assédio contra ele, sem saber a versão dele dos fatos. Enfim, uma representação ficcional do conflito “eu admirava muito um cara genial, até descobrir que ele é um FDP”.

Porém, o autor não é um monstro. Ele demonstra respeito por Hannah e sua inteligência, explica de forma cuidadosa que as garotas com quem ele se relacionava adoravam e davam em cima dele. Que ele nunca forçou ninguém a fazer nada. Também descobrimos que ele tem uma filha que toca violino. Hannah mantém a sua posição de que ele de certa forma se aproveitava da idolatria que ele inspirava e que elas tinham direito de se arrepender daquele contato posteriormente. Assim como ela mesma, quando adolescente, se sentia importante e amada quando seu professor massageava seu pescoço, e só quando adulta percebeu a perversão da situação.

Você pode até odiar Lena Dunham, mas ela é um gênio

Eles se entenderam. Começaram a ver os livros que ele tinha na estante de seu quarto. Hannah fala sobre sua admiração por Philip Roth e que, mesmo se dando conta de que o autor é um tanto misógino, tanto que quase deu o nome de “American Bitch” a um de seus livros, ela simplesmente não consegue odiar a sua obra.

Como a maioria das pessoas não deixará de gostar de “Annie Hall”, mesmo sabendo que Woody Allen muito provavelmente abusou da própria filha, ou de “O Pianista”, mesmo que Roman Polanski tenha sido condenado por estuprar uma garota de 13 anos. Como a maioria dos votantes da Academia escolheu Casey Affleck para ganhar o Oscar, com o conhecimento de que ele fez acordo judicial com duas mulheres que o acusavam de assédio sexual. E Johnny Depp, e Michael Jackson, e tantos outros. Como separar a obra da vida pessoal do autor, sendo que as suas experiências de vida certamente influenciaram seus trabalhos? Como encarar estes livros, filmes e músicas da mesma forma? Ou deixar de encarar da mesma forma? E o tal "benefício da dúvida"?

Você pode até odiar Lena Dunham, mas ela é um gênio

De volta a “Girls”. O escritor diz que está cansado e deita em sua cama. Ele chama Hannah para se deitar ao lado dele. Ela vai. Ele se vira para ela e tira o pênis da calça. Ela fica surpresa, mas o coloca nas mãos. Neste momento, ela se assusta e levanta da cama totalmente chocada. Ele olha para ela com um sorriso no rosto. Afinal, ele não a forçou a fazer nada.

Você pode até odiar Lena Dunham, mas ela é um gênio

Ela caiu no jogo dele. Nós, telespectadores, também. Neste momento, a filha do escritor chega no apartamento e decide mostrar ao pai a nova música que ela aprendeu a tocar no violino. Ele e Hannah assistem à apresentação da garota e vemos o genuíno olhar de admiração deste pai. Novamente, ele não é um monstro. Ele é simplesmente um cara aproveitando seu próprio poder e a necessidade que a maioria das mulheres sente de ser admirada (confundindo admiração com desejo sexual) por um “grande homem”. Por fim, Hannah sai do prédio e vemos várias mulheres indo em direção a ele, representando todas as próximas garotas que cairão no mesmo jogo.

Em qual outro programa a gente veria algo assim? Em qual seriado veremos este tipo de assunto sendo tratado com tanta complexidade no futuro? Lena Dunham não é perfeita, mas é uma escritora do seu tempo, em um momento que a maioria dos roteiros parece estar aquém do seu tempo. Que “Girls” não seja o último lugar em que ela possa nos fazer refletir sobre estas questões.

Você pode até odiar Lena Dunham, mas ela é um gênio

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