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Como passageiro salvou um motorista de Uber de taxistas mal encarados

Kristina Haddad
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Kristina Haddad

Aconteceu com um conhecido de um conhecido.

A pessoa apanhou o Uber. O motorista era cabra bem trabalhado no ferro, tipo que se garante bem em confrontos físicos, do número de Alexandre Frota. Aparentemente, mais lúcido e bem resolvido do que o astro da Brasileirinhas. O passageiro era homem da literatura, experimentado em redações de impressos, tão ácido quanto os mais cínicos editores de jornais e tão excêntrico quanto certo analista de Bagé.

Como passageiro salvou um motorista de Uber de taxistas mal encarados

Motorista e passageiro iam para o aeroporto Santos Dumont. E quem vive nas grandes metrópoles sabe: aeroportos são um dos maiores conglomerados sindicais de taxistas. É nesses locais que a classe se reúne para mostrar à população e aos visitantes quem de fato manda nas ruas da cidade. E organizar assembleias para estabelecer o preço clandestinamente tabelado e manter autonomias e lideranças. 

Como passageiro salvou um motorista de Uber de taxistas mal encarados

O amigo leitor pode imaginar que exagero. Pode ser. Sou muito extremista nas minhas opiniões que só me representam.

Para quem não tem tanta ideia do que é o Uber para boa parcela desses idôneos motoristas que se organizam na boca do aeroporto....

Como passageiro salvou um motorista de Uber de taxistas mal encarados

Pois bem... voltando à história, eis que o motorista mal havia embicado na rua que levava ao Santos Dumont quando percebeu diferente movimentação dos amarelinhos da cidade. Tenso, se virou para o passageiro e explicou não poder seguir até o portão de embarque:

"Iiiii meu irmão, olha lá. Tem manifestação dos taxistas contra o Uber. Vou ter que deixar você bem antes."

Já atrasado para a ponte aérea, o passageiro pulou o banco da frente e, de passageiro, se fez passar por amigo. Quer dizer... mais do que amigo do "Frota" ao lado:

"Toca em frente. Confia em mim", assegurou.

Pararam o carro na porta do aeroporto, entre muitos taxistas #chateados com o Uber, em piquete contra o aplicativo. Segundo o passageiro, bufavam e mal encaravam o carro preto brilhante (imagino que tenha sido o Uber Black).

Eis que o passageiro arguto salta com cara de choro, enquanto o "Frota" retira a mala de trás do carro.

"Jorginho, me abraça! Vou morrer de saudade", choraminga o passageiro.

O motorista o abraçou. O passageiro grudou a cabeça no peito dele e suspirou:

"Tiamo, gato."

Motorista do Uber entrou no carro, encerrou a corrida e foi embora. Passageiro do Uber pegou a mala e entrou no aeroporto já pensando no portão do embarque. Taxistas, imagino que entre risinhos, continuaram a propagar a intolerância na Cidade Maravilhosa. Ao menos, a intolerância inerente às oligarquias: a do oligopólio.

O passageiro dessa história, conhecido de um conhecido meu, é Tom Cardoso. Jornalista e biógrafo, ele resume no Facebook: "Só o amor salva".

Como passageiro salvou um motorista de Uber de taxistas mal encarados

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Por Pilar Magnavita

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