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Tranquilizante para cavalos poderá se transformar em antidepressivo para humanos

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Tranquilizante para cavalos poderá se transformar em antidepressivo para humanos

A que ponto chegamos, minha gente. 

Derivada de remédio veterinário, a droga de maior sucesso dos anos 90, o Special K, está em vias de ser vendido como antidepressivo. A substância base do narcótico, cetamina (ketamine), foi descoberta e utilizada primeiramente como tranquilizante para cavalos (para derrubar um animal daquele peso e tamanho). É tão forte que até para um bicho daquele tamanho recomenda-se parcimônia.

Ganhou as ruas na última década do segundo milênio por ser bem barata do  que outros entorpecentes e dar um barato e tanto: fazia a pessoa alucinar até a décima dimensão enquanto o corpo físico ficava apenas estático, talvez babando um pouco. Agora, a cetamina vai virar um poderoso remédio contra a depressão que promete revolucionar o tratamento da doença.

Ao contrário de drogas como o ecstasy, que são estimulantes, a cetamina é um depressor do sistema nervoso. Os cientistas começaram a prestar atenção no efeito da substância depois que uma galera chegou a curar casos graves de depressão consumindo o Special K ilegalmente. A partir daí, os laboratórios passaram a desenvolver pesquisas para ver se era viável um remédio que tivesse o mesmo benefício sem efeitos colaterais como a droga ilícita (tonturas, vômitos, paralisia muscular que pode levar a óbito e até amnésia irreversível).

O que os cientistas encontraram foi um remédio com efeito imediato, na forma de comprimido. Uma dose é sentida pelos pacientes em minutos e o resultado como antidepressivo pode durar por semanas.

A cetamina tem dois obstáculos importantes a ultrapassar para chegar nas farmácias. Em primeiro lugar, a parte recreativa precisa ir embora. Não tem condições de um alucinógeno ser aprovado como remédio de uso frequente por agências reguladoras (para a tristeza de algumas pessoas). Para isso, alguns laboratórios estão testando a escetamina, um isômero óptico da cetamina que tem os mesmo efeitos antidepressivos, mas sem visões e experiências metafísicas.

Outro problema é comercial. A patente da cetamina caiu anos atrás e qualquer um pode produzir a substância, diminuindo bastante o lucro da empresa farmacêutica que desenvolver um remédio com ela. Mas também tem formas de contornar isso, criando melhorias patenteáveis, como novas formas de administração da droga (que não seja intravenosa, como nos hospitais, nem cheirada em pó, como nas festas).

A verdadeira revolução que o Special K pode provocar, porém, não é a criação de um único remédio novo. O principal mecanismo de ação da droga é completamente diferente dos antidepressivos convencionais como Prozac. Os remédios atuais são inibidores seletivos de recaptação de serotonina. O uso deles se baseia na hipótese de que existe um desequilíbrio químico de serotonina no cérebro que causa a depressão. Aí a produção desse neurotransmissor bomba e as pessoas se sentem melhor. O problema é que o efeito no cérebro é imediato, mas o quadro de depressão em si demora umas duas semanas para aliviar. Isso quando dá certo – o tratamento só funciona para 58% dos pacientes.

Já principal mecanismo de ação da cetamina não tem nada a ver com as monoaminas, grupo de substâncias da qual a serotonina faz parte – o que põe em cheque a hipótese atual sobre o que a depressão de fato faz no cérebro. O estudo da explosão que o Special K causa no cérebro pode então revelar neurotransmissores que ninguém nunca tinha associado com a depressão.

A notícia é boa para os 42% que nunca se acertaram com o Prozac: tem muito mais “pílulas da alegria” vindo por aí.

#ciência #fenomenal