CURIOSIDADES

O tênis da Lucy

Michele Chaluppe
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Michele Chaluppe

Hoje eu ganhei um tênis de corrida de presente. Lindo. Meio roxo, meio azul turquesa, meio verde, meio rosa, uma mistura bem bonita. Bem diferente dos outros que eu já tive. Ou que ainda tenho. Mas o que ele – que estou já ansiosa para estrear amanhã – tem a ver com os imigrantes fugitivos de países em guerra, desesperados por um abrigo em um país pacificado? Quase nada. Talvez eu termine esse texto sem conseguir organizar os pensamentos.

Já contei outras vezes que moro em um bairro com muitos imigrantes bolivianos. E me incomoda ver o clima de segregação que eles mesmos se impõem, já que não devem ser mesmo muito bem vistos por uma parcela de brasileiros que acham que eles estão aqui, tirando o que deveria ser nosso. Não vou entrar nos detalhes de que fronteiras são coisas inventadas pelos homens e que generosidade e coração bom independem de onde quer que alguém tenha nascido.

Mas estou juntando fragmentos porque me lembrei que outro dia fui ao Parque em que sempre frequento para correr e, pela primeira vez, vi duas bolivianas correndo também. Era bem cedo, antes das 7h e nós estávamos no nosso esforço matinal para tentar começar o dia melhor. Uma delas usava um tênis. A outra, um sapatinho de passeio. Um calçado totalmente inadequado para a prática de qualquer atividade física, principalmente a corrida, em um solo de terra batida. Interrompi o exercício da moça e perguntei quanto ela calçava: 35, exatamente o meu número. Combinei de levar um tênis que eu não estava usando mais no dia seguinte, no mesmo horário. Foi assim que a Lucy ganhou o primeiro par de tênis no Brasil.

A Lucy mal falava português, mas a gente se entendeu. Eu queria fazer algo por ela e ela aceitou a minha ajuda. Quando duas pessoas querem a mesma coisa, não há barreiras, não há fronteiras. Quando o tênis chegou no meu trabalho, lembrei da Lucy. Imediatamente. Era um retorno tão idêntico e tão rápido, que não podia ser só coincidência. Era a lei do retorno agindo de uma maneira tão automática e precisa, que fiquei emocionada. Fiquei pensando que se a Lucy, um dia, puder comprar outro tênis e entregar aquele meu velho para outra pessoa, o ciclo vai começar a fazer mais sentido. A outra pessoa vai ser generosa também, porque um dia foram com ela. E vai criar uma cadeia de pessoas que sentem vontade de ajudar sem precisar fazer esforço, porque foi assim que elas aprenderam.

Eu nunca fui imigrante e nunca recebi refugiados. Para mim é difícil avançar além do tênis da Lucy. Mas o princípio é tão lógico que não precisa de experiência. A criança que estava no colo do pai que foi chutado pela cinegrafista húngara vai aprender a dar rasteira nas pessoas. E vai fazer isso logo que se sentir incomodada. E vai dar esse exemplo ruim para quem receber a pernada dela. E a partir dali, a cadeia da agressividade, da maldade, da arrogância e do egoísmo vai se formar também. Até que uma hora, esse monte de coisas ruins vai se voltar contra a humanidade. Contra a gente. Contra os nossos filhos.

Realmente não acho que eu tenha feito nada de extraordinário. Não mesmo. Mas quando a lei do retorno se materializa tão rapidamente, a gente para pra pensar. A gente ensina e estimula os sentimentos e, por aí, o caráter das pessoas. Se a humanidade está dando certo ou errado, a responsabilidade é toda nossa. Mais do que ter encontrado um pouco mais de prazer na atividade física, queria a que a Lucy se sentisse confortada, mesmo estando longe de casa. É só isso que tantos outros imigrantes, vindos de países em guerra ou não, também esperam. É pouco. É simples. É fácil. E traz um retorno impressionante É só um prato de comida, um lugar para dormir, uma roupa limpa, um cobertorzinho leve e, talvez, um par de tênis de corrida.

O tênis da Lucy