CURIOSIDADES

O Tio Toninho

Michele Chaluppe
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Michele Chaluppe

Um dia, ele apareceu na casa da minha Avó, em Cabreúva, com um presente gigante. Era Natal e minhas irmãs e eu, então com 4, 7 e 9 anos, já esperávamos ganhar algumas coisinhas, mas não uma caixa daquele tamanho. Era o Tio Toninho trazendo lá do quarto dele – sempre o último do corredor – aquele trambolho que tomou conta da sala inteira. Três boquinhas abertas, incrédulas com o que estávamos ganhando. Dois adultos (nossos pais) sorrindo por dentro e por fora, por verem as filhas tão encantadas e por saberem que eram bem cuidadas por aquele único Tio da família da minha Mãe.

São cinco irmãos. Quatro mulheres e o Tio Toninho. Ele foi o penúltimo a nascer e, como minha Mãe tinha sido a segunda, ela sempre sentiu uma coisa meio maternal por ele. Dizem que, ainda bebê – sem poder se defender – ele era vítima do talento dela de fazer maria-chiquinhas, mas isso ninguém confirma. A verdade é que, além de irmãos, eles sempre foram amigos. Minha Mãe gosta muito de pessoas bem-humoradas e o Tio Toninho tem aquele humor fino, por vezes sarcástico, que arranca risadas com tiradas nada óbvias, que antevê as situações, que cria fatos em cima de argumentos.

A afinidade deles passou pra gente. Não fomos as primeiras sobrinhas, já que Lilian e Alexandre nasceram primeiro. Mas, como morávamos em outra cidade, fomos as que tiveram convívio mais intenso. Eram férias inteiras na casa da minha Avó, com ele – ainda solteiro – perambulando por lá. Hoje, penso que tirávamos completamente a rotina dele. Lembro dele indo trabalhar no meio das nossas férias. Voltando cansado e a gente querendo atenção. De irmos vê-lo na Caixa Econômica, durante o expediente. Pensávamos: por que ele não sai daí e vem tomar sorvete com a gente? Porque sorvete ele pagava! Com refrigerante e chocolate, tudo junto!!

Falo do Tio Toninho porque nesta semana, ele mandou duas fotos pra mim. Tenho certeza de que o humor sarcástico dele estava embutido em uma delas. Éramos nós três naquela fase da adolescência em que nada dá certo: cabelo muito comprido, óculos fundo de garrafa, Mari com aparelho nos dentes, Milena com a franja torta, narizes imensos, olhos caídos, pele em tons esquisitos. Horrorosas, para resumir. Quando eu respondi, reclamando daquela aberração, ele mandou: “Com diz minha irmã e sua mãe: “o fotógrafo não era bom!” e naquela época não existia photoshop.” E mandou outra, muito fofa, que é o retrato das nossas lembranças, a foto que ilustra esse texto.

A ideia era falar dos desenhos que ele fazia. Com um talento mais do que especial, desenhava tudo e qualquer coisa. Inclusive as sobrinhas. Eu, ainda bebê, era caracterizada como uma princesa, com vestido de babado, joias e coroa. Milena – que era maior e já entendia um pouco melhor – era uma mendiga toda suja, rasgada, esfolada. E ela chorava!! E ele se matava de rir!! Depois, desenhava Milena com várias chupetas penduradas no pescoço. Ela usava mesmo, mas não queria ser a menina das chupetas. Então chorava de novo. Muito. E ele, num ato de generosidade extrema, “transformava” as chupetas em medalhas. E ela vibrava. Subia no sofá como se fosse um pódio.

Mas, a minha memória mais marcante da nossa infância com o Tio Toninho foi aquele presentão do Natal. Ele só deixaria abrir se adivinhássemos o que era. Não tínhamos nem palpites. Alguém soltou “uma boneca gigante!!”. Errou!! “Uma vassoura”. Não, vassoura não era presente. Liberadas por ele, avançamos para abrir o pacotão. A caixa embaixo do embrulho também não dava muitas pistas para nossa imaginação infantil. Mas era mesmo incrível!! Era uma PISCINA. Grandona. De plástico. Dessas que a gente montava no quintal de casa. E nós tínhamos um quintal enorme para ela. Era um sonho realizado ter uma piscina em casa.

Foi tão, tão divertido passar aqueles anos todos tendo uma piscina no quintal. Foi tão, tão mais legal viver a infância com um tio como o Tio Toninho. Que não nos bajulava gratuitamente. Que nos tratava como adultas, muitas vezes. Que devia ser um jovem cheio de coisa para fazer, mas que tinha tanto amor por nós. Hoje, quando a gente se encontra, ainda é uma diversão imensa. Ele continua com aquele humor sarcástico. Continua sacaneando uma e outra. Nem deve nem suspeitar como marcou nossa infância. Como foi e é importante nas nossas lembranças. Como ajudou a criar o imaginário de três meninas felizes, que eram ainda mais felizes quando abriam a porta da casa da avó e encontravam ele. O Tio Toninho!!

O Tio Toninho