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Entrevista de Bruno à ESPN deixa claro que ele vive em outro planeta

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Entrevista de Bruno à ESPN deixa claro que ele vive em outro planeta

Não vou entrar na questão de achar se é certo ou não o Bruno dar entrevistas, porque eu sinceramente não tenho opinião formada sobre isso. Com certeza, é um absurdo que ele esteja fora da prisão após só sete anos de pena e tenha a possibilidade de jogar por um clube da Série B. 

A respeito da cobertura da imprensa, eu acredito que está tendo um tom correto até o momento, sem minimizar de qualquer forma o tamanho do crime que ele cometeu (destaque para os comentários de André Rizek e Juca Kfouri que vocês já devem ter visto).

O fato é que Bruno concedeu uma entrevista para o Bate-Bola da ESPN nesta quarta-feira e, se alguém ainda acreditava na balela de que ele é um arrependido em busca de uma segunda chance, esta narrativa foi totalmente destruída pelo próprio Bruno.

Quando o apresentador Bruno Vicari pediu que ele comentasse a impressionante frieza que sempre demonstrou diante de toda a situação, ele soltou esta pérola:

"O goleiro, principalmente, minha posição, é uma pessoa centrada e, até certo momento, tem que ser frio."

Acho que eu não preciso explicar para ninguém que frieza na hora de fazer uma defesa e frieza para lidar com o fato de que você ordenou o assassinato brutal de uma mulher por um motivo ridículo são coisas extremamente diferentes. Mas parece que alguém precisa explicar isso para o Bruno.

A respeito dos xingamentos que certamente ouvirá se chegar a disputar uma partida, Bruno acionou a "carta Edmundo":

"Vou citar um caso aqui, que não é surpresa para ninguém, do Edmundo. Que ele passou a carreira dele toda superando."

"Não existe pecadinho, pecadão. Tudo é pecado."

Sim, o Edmundo cometeu um erro extremamente grave e tirou a vida de duas pessoas. Ele passou o resto da carreira "superando", porque isso é o mínimo pelo que alguém pode passar ao matar pessoas após uma bebedeira. Mesmo assim, é simplesmente ridículo comparar um caso de imprudência, por mais grave que tenham sido as consequências, com um assassinato premeditado, extremamente detalhado e com uma longa execução, culminando com a ocultação grotesca do cadáver.

Alexandre Oliveira perguntou a Bruno se ele já pediu desculpas para a sociedade e, principalmente, para a família de Eliza Samudio. Tente ler e não socar a tela:

"O que importa pra mim é o amor de Deus. O que importa pra mim é pedir perdão a Deus. Já tive meu momento único com Deus, momento importante. Eu sinceramente estou focado hoje no meu trabalho. Pretendo recomeçar minha vida e é isso."

Nota-se o uso da religião como uma desculpa de redenção e a completa falta de capacidade de se colocar no lugar de pessoas que perderam uma familiar da maneira mais trágica possível. Bruno não enxerga a dor deles. Só enxerga seus próprios sentimentos. Ele não se arrepende de ter matado Eliza. Ele se arrepende de ter sido pego.

Também teve o momento em que ele tentou se colocar como vítima da situação:

"No mundo que eu me encontrava, obscuro, pessoas tentaram enterrar o meu sonho. Num erro que talvez tenha cometido ou não."

OU NÃO.

"Erros acontecem na vida, principalmente quando você esta próximo de pessoas que... a fama, o dinheiro te cegam e você acaba deixando se levar pro outro lado."

Quem nunca de deslumbrou com a fama e MANDOU MATAR UMA PESSOA?

"Não é que as pessoas falam e não dói. Dói, machuca, mas eu estou acostumado a lidar com pressão."

Sim, a pressão que ele está sentindo agora, para ele, é igual à que ele sentia quando perdia um Fla-Flu.

"Eu não sou bandido, não sou nada disso do que as pessoas disseram. Cometi um erro? Cometi. Grave. Mas isso passou. A gente tem que falar daqui pra frente."

Não. Isso não passou. Eliza se foi, mas o filho de Eliza e Bruno hoje tem 7 anos e é difícil imaginar como será a vida deste rapaz. 

Por que, em crimes contra a mulher, as coisas parecem "passar" para os criminosos, mas não para as vítimas?

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