Moda, comportamento e tendências
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Moda, comportamento e tendências
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Moda, comportamento e tendências
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Quando a música encontra a moda

Considerado uma orgia virtual psicodélica, o clipe da música Loner do rapper queer Mykki Blanco, presente em Mykki, seu primeiro álbum de estúdio, é uma união selvagem entre música, arte e moda.

Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸
Quando a música encontra a moda

Produzido em colaboração com o site pornô Pornhub e o designer cult Nicola Formichetti, o vídeo foi dirigido por Anthony&Alex e teve animação de Sam Rolfes. O lançamento aconteceu no final de novembro de 2016.

Em Loner, que conta com a participação de Jean Deux, Blanco faz uma crítica à sociedade atual, a qual ele diz bombardeada pela tecnologia e redes sociais. Além disso, ele aborda a sensação universal que as pessoas têm ao não se sentirem boas e suficientemente dignas para determinadas coisas.

Cores, formas, texturas... em aproximadamente 4’40’’, o público é entretido por essa vibe artsy do clipe, que encontra no figurino uma maneira inusitada de estilizar o amor, a sexualidade e o isolamento digital na contemporaneidade.

As roupas vestidas pelo rapper e pelos figurantes são da coleção de Inverno 2016 da Nicopanda, grife de Formichetti (também diretor de criação da Diesel). O estilista surgiu na indústria fashion em 2011, como stylist da cantora americana Lady Gaga, com quem fez parcerias em Bad Romance e Telephone.

Quando a música encontra a moda

Mas o trabalho de Blanco, que busca se auto afirmar cada vez mais ao mostrar sua subjetividade nas canções do novo disco, vai além. Ele é ainda escritor e ativista, e sua voz acaba inspirando Formichetti, que afirma ser fã do trabalho do artista há um tempo.

Para o designer, o rapper traz reflexões extremamente necessárias à nossa sociedade, principalmente, no que se refere ao encontro da moda e da música mainstream. O clipe ultrapassa barreiras ao questionar as fronteiras impostas por ideologias políticas e sociais.

A influência estruturalista dos anos 20 está presente em Loner, tanto na edição das imagens quanto no figurino, pois provoca uma sensação de estranhamento no público. O futurismo também encontra espaço, já que se rejeita o moralismo e condena a censura sexual da comunidade gay.

O visual cinemático tem cenas envolvendo pessoas usando óculos de realidade virtual que as deixam experimentar o êxtase sexual. Mykki navega por uma variedade de looks, incluindo uma produção que parece feita de espelhos. Enquanto isso, Jean Deaux também arrasa no figurino ao aparecer futuristicamente chic. Segundo Formichetti, a criatividade e o propósito artístico de Blanco estão alinhados às diretrizes da Nicopanda, o que tornou essa colaboração um verdadeiro sucesso para ambos os lados.

Quando a música encontra a moda

UM ENCONTRO CERTEIRO

A música pode ser considerada a voz do tempo, de uma época ou de uma geração. A moda, obviamente, estabelece uma ligação com o momento em que é pensada e feita. Portanto, a música seria a voz de nossa indumentária.

E a relação entre moda e música não é de hoje. Outros artistas, como Elvis Presley, Madonna e David Bowie sempre foram conectados com a indústria fashion. O rei do rock causou frisson ao disseminar o estilo rockabilly, com peças extravagantes, cheias de brilho e sapatos bicolores. Entretanto, foi a rainha do pop que aprofundou esse vínculo. Considerada uma verdadeira camaleoa, ela usava suas roupas para fazer um statement à sociedade. A cantora aparecia no palco vestida de noiva com seu icônico cinto “Boy Toy” e uma maquiagem bem natural, o que declarava sua posição de libertação dos padrões vigentes na época. Durante a The Blonde Ambition Tour, o bustiê desenhado por Jean Paul Gaultier foi um símbolo da luta feminista pelo puritanismo envolvendo o corpo da mulher.

Bowie, contudo, é quem quebrou paradigmas com seu estilo, influenciando a moda com looks questionadores e que ultrapassaram as barreiras do gênero. O cantor britânico era especialista em desconstruir estereótipos e se reinventar, desprendendo-se de padrões. Quem não se lembra do tempo de Aladdín Sane e a famosa maquiagem vermelha com um raio no meio do rosto?

Assim como essas lendas da música, Mykki soube incorporar a moda em seu videoclipe de uma maneira transgressora, que não é inovadora per se, mas que permite às duas indústrias utilizarem seu alcance para disseminar uma importante mensagem: tornar o homem mais humano e livre de preconceitos.

Uma moda sem rótulos

Plurissex, unissex, no gender, genderless (ou a denominação que você achar mais apropriada) refere-se a uma moda sem gênero, que serve tanto para a mulher quanto para o homem. A tendência é uma forma universal de se vestir, que desconstrói estereótipos e transcende a barreira que separa os departamentos feminino e masculino.

Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸
Uma moda sem rótulos

O burburinho em torno dessa ideia já é histórico, desde os anos 20, quando Coco Chanel trouxe para o guarda-roupa das meninas a calça pantalona e as camisas. Yves Saint Laurent, em 1960, popularizou o terno entre o gênero feminino, o Le Smoking, que simbolizava a nova posição ocupada pelas mulheres na sociedade. Entretanto, o buzz que se pode acompanhar na internet aconteceu recentemente, em 2013, quando o estilista Jonathan Anderson colocou meninos na passarela usando vestidos, tops e shortinhos de lã com babados. A Semana de Moda de Londres foi à loucura e essa coleção do designer o levou aos assuntos mais comentados do mundo. Anderson incorporou o estilo ladylike à moda masculina, o que gerou uma ligação entre os pólos e fez com que o debate acerca dessa divisão incendiasse a indústria fashion.

Uma moda sem rótulos

Não demorou muito para que a visão de Anderson criasse um efeito dominó. Vários estilistas dedicados ao genderless ganharam destaque. A Hood by Air, com sua forte influência do street style, tem como objetivo chocar nos desfiles, com cachorros, muletas, armas de fogo e maxi chokers de acrílico. Eckhaus Latta, outro nome referência no unissex da New York Fashion Week, apresenta roupas desestruturadas, que se adaptam a qualquer tipo de corpo. Contudo, Vejas Kruszewski, indicado ao prêmio LVMH, é o queridinho do momento, com seus shapes arredondados e estilo college contemporâneo.

Uma moda sem rótulos

Até mesmo as grandes grifes de luxo entraram nessa. Etiquetas como Givenchy, Prada, Balenciaga e tantas outras criaram looks para ambos os gêneros em uma mesma coleção. 

Uma moda sem rótulos

Miuccia Prada declarou ao The New York Times que, cada vez mais, a moda caminha para o momento em que uma tendência serve para ambos os sexos.

Uma moda sem rótulos

As redes de fast fashion, como Zara e C&A, não ficaram paradas e produziram coleções genderless. A marca espanhola, entretanto, recebeu inúmeras críticas dos clientes, já que a linha sem gênero oferecia roupas como moletons, camisetas e calças jeans - peças utilizadas por homens e mulheres há muito tempo. Em relação à empresa brasileira, ela entrou no segmento acidentalmente. A campanha Tudo Lindo & Misturado mostra diferentes modelos com looks de seções masculinas e femininas. A intenção era deixar os clientes mais confortáveis e prontos para explorar novas fronteiras. Apesar disso, nunca denominaram a iniciativa como moda no gender.

No Brasil, encontram-se estilistas jovens que atuam nesse mercado e trazem uma perspectiva transgressora para o mundo fashion. Renan Serrano, da TRENDT, por exemplo, fabrica camisetas oversized e cheias de transparência.

Uma moda sem rótulos

Jaden Smith, filho do ator Will Smith, é adepto ao pulissex e já foi visto com roupas sem gênero. Em 2016, ele estrelou a campanha da Louis Vuitton, que fez o maior sucesso.

Alguns apontam que a questão do sem gênero também está intrinsecamente relacionada com a sustentabilidade, já que, se o produto funciona para todos os gêneros, não há necessidade de tanta matéria-prima. Marcas como a Ocksa, de Porto Alegre, e a paulistana Cemfreio apostam na não diferenciação dos sexos, priorizando o conforto e bem-estar das pessoas.

Embora a moda genderless esteja presente nas passarelas, na rua muitos ainda torcem o nariz, mas a semente já foi plantada. Afinal de contas, quem disse que homem não pode usar saia? Que mulher não tem direito de vestir terno e gravata? O gênero é uma construção social e diária, e não é a genitália do indivíduo que dita como ele deve se vestir. 

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
StreetStylePOA
Moda, comportamento, fotografia e comunicação.