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Como descobri minha vocação de Manic Pixie Dream Girl

Giovana Penatti
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Giovana Penatti
Como descobri minha vocação de Manic Pixie Dream Girl

Veja se essa história lhe é familiar: um cara anda meio numa bad, é meio estereótipo do perdedor, muito gente fina mas meio perdido na vida. Então, surge uma garota bonitinha - mas nada além do "normal" - , meio excêntrica, que aceita o jeitinho dele e faz com que ele se torne a melhor versão dele mesmo. É uma garota que existe somente para fazer esse cara feliz e eles não precisam ficar juntos para sempre: depois que acontece a transformação do protagonista, o papel dela está cumprido.

Puxado, né? É um dos estereótipos mais comuns do cinema: a Manic Pixie Dream Girl e tem um monte de representantes, como a Summer de 500 Dias Com Ela (até certo ponto), a Ramona de Scott Pilgrim Contra o Mundo, a Sam de Garden State, a Claire de Tudo Acontece em Elizabethtown e até a clássica Holly de Bonequinha de Luxo, entre muitas outras.

Como todo estereótipo, ele é ruim porque não permite que os personagens tenham profundidade, ou seja, não contribuem em quase nada para a história. E, sendo um estereótipo feminino, fazem com que as garotas sejam mostradas de uma maneira bem negativa, como se existissem em função de fazer homens felizes, sem ter uma personalidade própria, desejos e aspirações.

Hoje, existe um movimento em direção à criação de personagens femininas mais fortes e interessantes, o que significa que esse estereótipo deve, aos poucos, acabar sumindo. Mas estive pensando que décadas de filmes mostrando mulheres tão submissas deve ter causado sua cota de influência na personalidade das garotas. Parei para reparar em mim mesma e... Talvez eu mesma seja uma Manic Pixie Dream Girl! E uma parte considerável das minhas amigas também já foram a garota dos sonhos de um cara que estava em busca de algo mais na vida.

Percebi isso um dia no qual brinquei com uma amiga que eu sou sempre uma transição para os caras: quando nos conhecemos, eles estão cheios de inseguranças, querendo realizar sonhos sem saber por onde, infelizes no trabalho e tudo o mais. Quando terminamos, eles parecem outras pessoas; é como se eu desse um impulso para eles serem uma versão melhor deles mesmos.

"Tipo uma Manic Pixie Dream Girl", ela falou. Parei por dois segundos, ri e concordei: "tipo isso". Depois, pensei um pouco sobre e fiquei meio preocupada comigo mesma.

Eu tenho minhas aspirações, meus sonhos, meus problemas e frustrações também, e já deixei isso tudo de lado mais de uma vez para ajudar um cara a fazer as coisas dele. Sou uma boa ouvinte e me preocupo com as pessoas, mas nem sempre isso é recíproco, e eu não acho que tenha o direito de exigir que me tratem da maneira como eu trato os outros. Assim, eu acabar apagada, sendo apenas a torcida individual de alguém, é algo bastante possível de acontecer. É extremamente comum um cara perguntar, pela sétima vez, no que eu trabalho, ou nunca decorar onde meus pais moram, ou até achar que um deles já morreu, ou nunca se lembrar que meu cachorro não mora mais comigo, ou me pedir para apresentar uma banda que ninguém conhece sendo que eu só ouço música pop. A versão de mim que ele cria na cabeça dele não é apenas mais legal que a verdadeira; é a única que ele consegue ver.

E como fazer para deixar de ser uma Manic Pixie Dream Girl da vida real? Acho que o primeiro passo é perceber o que me faz uma garota assim. Depois, é evitar me anular: respeitar e exigir o meu próprio espaço num relacionamento e pedir apoio da outra pessoa, assim como eu a apoio. A gente não precisa deixar de ser excêntrica ou felizona, mas precisa saber exigir o nosso protagonismo na nossa própria história.