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Precisamos falar sobre a urgência de ser bem-sucedido

Giovana Penatti
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Giovana Penatti
Precisamos falar sobre a urgência de ser bem-sucedido


Eu me sinto velha desde que me lembro. Nos meus diários de adolescente, sempre reclamo de ter passado da idade de fazer alguma coisa. Sinto como se eu devesse ter iniciado todo e qualquer sonho quando era criança. Sonhos que eu nem sabia que viria a ter; não me sinto no direito de tê-los porque eu nem sabia que eram uma possibilidade.

Neste ano, fiz 27 anos e o "peso" de estar próxima dos 30 anos começou a me assombrar. Mas, sinceramente, eu lido até que bem com isso a maior parte do tempo; me sinto mais madura, mais sensata, menos desesperada e menos ansiosa.

Mas tem um monte de coisas que eu quero fazer e que eu sinto que nunca conseguirei "a tempo". A tempo de quê? Também não sei, mas acho que a proximidade dos 30 anos tem a ver com isso. Tem tanta gente da minha idade ou mais nova que eu que está realizando os meus sonhos que parece que, quando chegar a minha hora, vai estar tudo esgotado e não vai ter nada pra mim. É sempre essa a sensação.

Conversando sobre isso com uma amiga, ela me indicou o vídeo The Long Game. É uma espécie de mini documentário dividido em três partes que fala de como a gente vê as pessoas tendo sucesso, mas não vê o trabalho que elas tiveram até lá; não pensamos no longo prazo, mas em obter sucesso agora. Temos uma urgência em ser extremamente bem-sucedidos e venerados pelos nossos feitos enquanto somos jovens, enquanto a maior parte das pessoas extremamente bem sucedidas não conseguiu se destacar antes dos 40 anos. E por um simples motivo: é preciso viver.

Precisamos falar sobre a urgência de ser bem-sucedido

Ele cita Leonardo Da Vinci como um exemplo disso. Hoje, ele é tido como um gênio das artes. Mas sua primeira obra prima, a Santa Ceia, só ficou pronta quando ele tinha 46 anos. Até então, ele mal conseguia vender suas criações. Mas foram os anos de insucessos que o fizeram se aprimorar até finalmente se tornar conhecido.

Há um monte de outros casos de pessoas que só foram reconhecidas com uma idade "avançada", inclusive atualmente. Só que os dias de luta não são boas histórias, nem tornam ninguém conhecido; são os dias de glória que contam.

Precisamos falar sobre a urgência de ser bem-sucedido

Faz sentido, né? Então, por que a gente sofre tanto para ter sucesso agora, se, racionalmente, não estaremos no nosso auge na juventude? Segundo o The Long Game, parte da culpa é da publicidade: nos anos 50 e 60, o foco mudou para pessoas jovens, garantindo compras que durariam por décadas, até o fim de suas vidas. Então, a publicidade tornou a juventude algo celebrado e desejado, como se o passar dos anos tornasse as pessoas menos interessantes e capazes. Sendo que é exatamente o oposto que ocorre: você precisa dos aprendizados da juventude e das experiências de uma vida para atingir seus objetivos. Afinal, vivendo e aprendendo, né?

E, como você pode imaginar, a internet não melhorou em nada essa ansiedade. Quem não se sente uma fraude ao ver os amigos fazendo intercâmbio, casando, tendo filhos e fundando empresas, enquanto você parece estar correndo atrás de um objetivo que parece cada vez mais distante? Agora, será que esses amigos não te enxergam como uma pessoa muito mais interessante do que você imagina?

É difícil racionalizar sobre o rumo que sua vida está tomando quando você parece ser cobrado o tempo todo, interna e externamente, para ser mais do que é, ter mais conquistas, bater mais recordes. Mas, da próxima vez que parecer que seus dias de luta vão durar anos, lembre que é provável que eles durem mesmo. Mas, talvez, todo esse esforço e essa dedicação para alcançar seus objetivos sejam o aprendizado necessário para, no futuro, você chegar onde quer.