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Cronistas da violência invisível

Alan Brandão
há 4 meses1 visualizações

Devemos sim escutar os rappers. Há muito tempo que eles dão a real sobre a seletividade dos direitos humanos e da violência estatal no Brasil. Não somente os rappers como o movimento hip-hop inteiro, que engloba além da poesia ritmada, as linguagem do Mestre de cerimônias (MC), a dança Break e a linguagem do grafite, que gerou uma falsa polêmica nacional pela visão de c* de pinto do “prefake” de São Paulo sobre o que significa arte de rua, criminalizar pichação e o que significa viver em uma “linda”.

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As manifestações da cultura hip-hop – bem como toda cultura negra diaspórica - são exemplo de resistência contra políticas de exclusão que as populações negras do mundo inteiro sofrem. No Brasil, especificamente, a cultura hip-hop é a oportunidade que muitas pessoas tem para dizer o que pensam para grandes públicos diretamente, seja pela comunicação agressiva do grafite/pichação (talvez um dia serei passado) ou pelas letras brutais do rap. Se resiste uma arte tão rica e variada como o Hip-hop é porque a sua inspiração é sistemática. Refiro-me a violência estatal brasileira que é uma constante na história do Brasil que oscila sua abrangência sem nunca sair de cena ou diminuir a sua selvageria.

Desde antes da abolição que a população negra é encarada como problema pelo estado brasileiro, que é historicamente patrimonialista e trabalha em prol das elites brancas que herdaram o poder deste a colonização. Seja para manter a submissão ao trabalho escravo, seja por questões ideológicas, responsabilizam a população pobre pelo subdesenvolvimento do país, e entendem que o Estado deve controlar e, se necessário, exterminar negros e negras para manter a ordem no país. Uma ordem baseada na repressão sistêmica praticada nos bairros periféricos voltada, em última instância, para manter os negros e pobres em “seu devido lugar”.

Violência marcada por ser brutal e desmedida, que não obedece nenhuma lei ou regra de conduta básica para um país que afirma constitucionalmente defender os direitos humanos e a igualdade. Uma violência que não conheceu intervalo grande o suficiente para limpar suas marcas na história do Brasil desde a colonização, nem mesmo nos períodos democráticos do país, discordando aqui do Juca. A nefasta soma de falta de investimentos sociais com a resolução violenta das crises resultantes dessa carência de políticas públicas resulta no “veneno” que corre nas veias e mentes de negros e negras do país que, para não ficarem sucumbirem a carência psicológica ou física se expressam das diversas formas, todas carregadas de alguma violência e transgressão.

E o estado continua ininterruptamente praticando tais atos, desrespeitando o direito de ir e vir das pessoas ao realizar operações aleatórias nos bairros periféricos, desrespeitam o “sacrossanto” e liberal direito de propriedade ao arrombar portas nas madrugadas e, por fim, desrespeitam o corpo e a vida ao tratarem pessoas e corpos negros como pedaços de carne barata que devem apanhar para serem amaciados. Diversos e constantes são os casos de violação de direitos básicos que um cidadão sofre em uma democracia nos bairros periféricos brasileiros. Basta procurar os autos e as devassas policiais de qualquer momento histórico.

Por isso que as podres instituições que sustentam o Brasil golpista são tão competentes em ferir direitos. Exatamente porque nunca deixaram de aplicar a regra da exceção em localidades populares. Esta exceção, hoje, vemos tornar-se regra para a população em geral na medida em que as ilegalidades praticadas no silêncio das comunidades extrapola os cantos profundos das cidades para começar a ferir a cidadania das pessoas do centro. De blogueiros a grandes políticos e até a presidenta da república, todos eles sofreram nesta última quadra histórica com a afronta unilateral e arbitrária de sigilos e direitos básicos praticados exatamente pelos agentes repressivos do estado. Essa afronta gera manifestações massivas e indignação generalizada que recebe a devida visibilização nos jornais de grande circulação e nos “textões” de redes sociais.

Mas e a violência arbitrária das periferias? Esta se torna visível nas pequenas e constantes manifestações de familiares e amigos das vítimas que queimam pneus e travam ruas exigindo nada mais que direitos básicos: justiça e dignidade. Estas aparecem nas letras do Hip-hop que, apesar da apreciação começar a alcançar públicos maiores, ainda é vista como arte de mau gosto que aumenta indevidamente uma situação de vida que não seria tão calamitosa, ao menos para os produtores desta arte.

Devemos sim escutar os rappers e todo o movimento hip-hop; aprimorar constantemente nossa sensibilidade não apenas para apreciar as grandes obras da cultura humana mas aquelas capazes de expressar os anseios e angustias dos verdadeiros e verdadeiras cronistas de um Brasil invisível. 

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