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Alan Brandão
alan.moraishá 4 meses

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Meus primeiros textos para o Storia
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Greve Geral: as esquerdas voltam às ruas (de onde nunca deveriam ter saído)

Alan Brandão
há 4 meses1 visualizações

Escrevo à exatos 13 dias do início da greve geral convocada pelas grandes centrais sindicais do país e já me arrisco a lançar uma avaliação que para mim será futura, para outros será pretérita e que todos veremos vingar ou não nos próximos dias. Participo nesses dias que antecedem a greve das iniciativas de mobilização popular da greve geral (panfletagens, ações em bairros etc.) e venho tido a nítida impressão de que a conjuntura está virando.

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O impeachment do governo Dilma, golpista por não ter crime de responsabilidade e conduzido por uma maioria congressual cinicamente criminosa, foi sustentado por um discurso anticorrupção que destacava os crimes políticos da esquerda, considerados mais corruptos que os corruptos por “aparelhar o estado” ou transformar a corrupção em um esquema bolchevique centralizado e que tendia a estimular a vagabundagem do povo e o patrimonialismo dos políticos. Um discurso nefasto que, ao mesmo tempo, retirava dos antigos coronéis da política (os Sarneys, os Barbalhos, os Margalhães et caterva) o rótulo de tradicionais espoliadores do país agora transplantada completamente, com a contribuição fundamental do massacre midiático, para toda a esquerda, incluindo a esquerda de oposição ao PT, em um generalizado ódio a tudo que era vermelho.

No seio da população, os erros do governo petista – alianças com estes mesmos setores patrimonialistas e adesão às iniciativas corruptas do financiamento eleitoral – fez com que as ideias de esquerda, relacionadas políticas públicas de expansão da cidadania e emancipação dos historicamente oprimidos, fossem relacionadas com cinismo populista ou pura falsidade retórica de quem deseja se reeleger, alimentando uma indignação constante em relação aos políticos, ampliada por serem candidatos populares. Todas as ideias que pregavam um mundo menos desigual, que ganharam espaço nos últimos anos, foram enfraquecidas por uma narrativa que creditava à governos de esquerda a fraqueza estrutural da política e da economia brasileira.

Este cenário se revelou muito ruim para as iniciativas das esquerdas desde 2015 com o crescimento das manifestações de verde-e-amarelo e a estagnação ou decréscimo das manifestações de esquerda, favoráveis a Dilma e ao espaço conquistado pelas esquerdas no Brasil na sociedade. Para além da conjunção de forças que ajudaram os “coxinhas” a crescer nas ruas, a narrativa padrão da esquerda brasileira parecia ter perdido o eco na população. A oposição à PEC do teto de investimento público, primeira iniciativa de peso do governo temerário em acabar com a rede de assistência social da constituição de 1988, foi pífia tendo em vista o impacto que esta emenda terá sobre os serviços públicos utilizados principalmente pela população mais pobre. Esta pífia mobilização popular, na minha singela opinião, demonstra a adesão popular, naquele momento, a narrativa de que “o estado gasta demais” e que era preciso mesmo diminuir o gasto público, não para garantir índices econômicos abstratos, mas para barrar a corrupção dos políticos. Quanto menos dinheiro girando nas mãos dos políticos, melhor, seria este o raciocínio.

Parecia, naquela quadra, que as pessoas de esquerda pregavam em uma estufa de vidro ocupada apenas pelos seus. Do lado de fora, todo o resto da sociedade sem nada ouvir ou deliberar do que se dizia dentro, ignorava os debates e alguns, mais exaltados com o rubro, gritavam para dentro “Chora Mais, petralha!” e outras asneiras típicas e, assim, pareceu que parecia pavimentado o caminho para a mutilação da constituição cidadã com ataques aos direitos básicos legitimados pelo povo e pelo congresso golpista.

Um verdadeiro cenário de apatia social e pessimismo assustava a todos que acompanhavam o discurso político. Agora, talvez pelo fato de mexer com direitos e “dinheiros” dos trabalhadores, a população parece perceber a danosa estratégia do golpismo e se anima em movimentar-se para defender seus direitos. Falo isso pela recepção dos panfletos da Greve Geral pela população daqui da Cidade baixa, região periférica de Salvador.

Ambulantes, vendedores, pessoas que iam e/ou voltavam para faculdades e trabalhos nos sempre lotados pontos da Calçada e da estação de Trem da suburbana davam apoio tanto à iniciativa da greve contra o corte de direitos como as pessoas que panfletavam. Muitos demonstravam vontade de aderir, outros lamentavam as condições precárias de trabalho que não permitiam uma paralisação, sob risco de retorno a condições famélicas para si mesmo e sua família. Outros me pararam para conversar e demonstravam, a despeito de análises que subestimam a capacidade de discernimento político do povo, grande conhecimento sobre as ações do governo Temer contra os trabalhadores e o povo e os impactos da reforma da previdência e da lei de terceirização na vida deles. Encontrei até mesmo coxinhas arrependidos de terem participado do impeachment na Barra para ver seus poucos direitos serem tão seriamente ameaçados.

Tudo isso me fez confirmar uma tese que já maturava comigo mesmo, e que agora se soma à força imanente da rua, da conversa franca e horizontal. A apatia política pós-golpe era falsa; todos sentem e conhecem os atos do governo Temer e muitos se revoltam com estas ações, como demonstram continuamente as pesquisas de opinião. O que faltava era uma referência de esquerda capaz de dialogar com o povo e transformar essa revolta individual em ação coletiva capaz de pressionar estados e governantes a dar um rumo mais alvissareiro ao país. Contudo, falhamos, enquanto esquerdas, em demonstrar que o estado e a democracia são instrumentos necessários para a qualidade de vida. Ainda há uma forte relação entre política e corrupção (engrandecidas pela cobertura irresponsável das delações) que afasta o conjunto da sociedade para compreender, discutir e lutar por um projeto de país efetivamente democrático e popular. Estado mínimo beneficia quem pode dispensar direitos sociais.

Mas dizer que o povo é despolitizado por assumir este discurso é invisibilizar uma dimensão importante deste debate: o papel das esquerdas nas ruas para promover as alternativas de organização da sociedade e da economia. No contexto da greve geral, quem volta a assumir a tarefa histórica de ser a referência da luta reativa contra o ataque aos direitos promovidos pelo golpismo são a militância do campo popular (CUT, UNE, MST, CTB etc.) e a militância do PT, a mesma militância que após a vitória no pleito geral de 2002 adotou a estratégia de ação restrita a câmaras, palácios e governadorias, abdicando do necessário e contínuo diálogo popular.

Será que continuarão nas ruas depois de um eventual retorno democrático ao poder central do país em 2018 (isso se tivermos eleições)? Colocar a culpa dessa despolitização no povo é muito fácil, mas o que fizemos, enquanto esquerdas, nos últimos treze anos para difundir os nossos debates internos? Afirmar que o povo é apático me parece fugir dês responsabilidades. Nos falta um certo voluntarismo e coragem para ir a rua, em outros momentos além das campanhas eleitorais, e encarnar o anseio de transformação do Brasil junto ao povo, a narrativa de país capaz de se contrapor ao projeto de selvageria capitalista que querem implantar aqui no Brasil. 

Cronistas da violência invisível

Alan Brandão
há 4 meses1 visualizações

Devemos sim escutar os rappers. Há muito tempo que eles dão a real sobre a seletividade dos direitos humanos e da violência estatal no Brasil. Não somente os rappers como o movimento hip-hop inteiro, que engloba além da poesia ritmada, as linguagem do Mestre de cerimônias (MC), a dança Break e a linguagem do grafite, que gerou uma falsa polêmica nacional pela visão de c* de pinto do “prefake” de São Paulo sobre o que significa arte de rua, criminalizar pichação e o que significa viver em uma “linda”.

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As manifestações da cultura hip-hop – bem como toda cultura negra diaspórica - são exemplo de resistência contra políticas de exclusão que as populações negras do mundo inteiro sofrem. No Brasil, especificamente, a cultura hip-hop é a oportunidade que muitas pessoas tem para dizer o que pensam para grandes públicos diretamente, seja pela comunicação agressiva do grafite/pichação (talvez um dia serei passado) ou pelas letras brutais do rap. Se resiste uma arte tão rica e variada como o Hip-hop é porque a sua inspiração é sistemática. Refiro-me a violência estatal brasileira que é uma constante na história do Brasil que oscila sua abrangência sem nunca sair de cena ou diminuir a sua selvageria.

Desde antes da abolição que a população negra é encarada como problema pelo estado brasileiro, que é historicamente patrimonialista e trabalha em prol das elites brancas que herdaram o poder deste a colonização. Seja para manter a submissão ao trabalho escravo, seja por questões ideológicas, responsabilizam a população pobre pelo subdesenvolvimento do país, e entendem que o Estado deve controlar e, se necessário, exterminar negros e negras para manter a ordem no país. Uma ordem baseada na repressão sistêmica praticada nos bairros periféricos voltada, em última instância, para manter os negros e pobres em “seu devido lugar”.

Violência marcada por ser brutal e desmedida, que não obedece nenhuma lei ou regra de conduta básica para um país que afirma constitucionalmente defender os direitos humanos e a igualdade. Uma violência que não conheceu intervalo grande o suficiente para limpar suas marcas na história do Brasil desde a colonização, nem mesmo nos períodos democráticos do país, discordando aqui do Juca. A nefasta soma de falta de investimentos sociais com a resolução violenta das crises resultantes dessa carência de políticas públicas resulta no “veneno” que corre nas veias e mentes de negros e negras do país que, para não ficarem sucumbirem a carência psicológica ou física se expressam das diversas formas, todas carregadas de alguma violência e transgressão.

E o estado continua ininterruptamente praticando tais atos, desrespeitando o direito de ir e vir das pessoas ao realizar operações aleatórias nos bairros periféricos, desrespeitam o “sacrossanto” e liberal direito de propriedade ao arrombar portas nas madrugadas e, por fim, desrespeitam o corpo e a vida ao tratarem pessoas e corpos negros como pedaços de carne barata que devem apanhar para serem amaciados. Diversos e constantes são os casos de violação de direitos básicos que um cidadão sofre em uma democracia nos bairros periféricos brasileiros. Basta procurar os autos e as devassas policiais de qualquer momento histórico.

Por isso que as podres instituições que sustentam o Brasil golpista são tão competentes em ferir direitos. Exatamente porque nunca deixaram de aplicar a regra da exceção em localidades populares. Esta exceção, hoje, vemos tornar-se regra para a população em geral na medida em que as ilegalidades praticadas no silêncio das comunidades extrapola os cantos profundos das cidades para começar a ferir a cidadania das pessoas do centro. De blogueiros a grandes políticos e até a presidenta da república, todos eles sofreram nesta última quadra histórica com a afronta unilateral e arbitrária de sigilos e direitos básicos praticados exatamente pelos agentes repressivos do estado. Essa afronta gera manifestações massivas e indignação generalizada que recebe a devida visibilização nos jornais de grande circulação e nos “textões” de redes sociais.

Mas e a violência arbitrária das periferias? Esta se torna visível nas pequenas e constantes manifestações de familiares e amigos das vítimas que queimam pneus e travam ruas exigindo nada mais que direitos básicos: justiça e dignidade. Estas aparecem nas letras do Hip-hop que, apesar da apreciação começar a alcançar públicos maiores, ainda é vista como arte de mau gosto que aumenta indevidamente uma situação de vida que não seria tão calamitosa, ao menos para os produtores desta arte.

Devemos sim escutar os rappers e todo o movimento hip-hop; aprimorar constantemente nossa sensibilidade não apenas para apreciar as grandes obras da cultura humana mas aquelas capazes de expressar os anseios e angustias dos verdadeiros e verdadeiras cronistas de um Brasil invisível. 

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